Para muitas mulheres, após iniciar uma batalha na Justiça contra um agressor sexual, é necessário provar sua honra para a sociedade antes mesmo de tentar provar que foi vítima de uma violência. Esse é um dos debates que ressurgem com força a partir do caso da influenciadora Mariana Ferrer, recentemente formada em Direito. Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu anular os julgamentos realizados no processo e entendeu que houve violação aos direitos fundamentais da vítima durante a audiência. A Corte também definiu que, em casos semelhantes, o depoimento da vítima poderá ser gravado e mantido sob sigilo, desde que haja sua concordância, buscando evitar novas situações de exposição e constrangimento.
Para além dos fatos, a forma como uma história se estabelece no imaginário popular também depende da maneira como ela é contada pelos investigadores, pela imprensa, pelas fontes ouvidas e pelos debates formados nas redes sociais. Frequentemente, questionam-se roupas, comportamentos, relacionamentos, fotografias e escolhas pessoais, como se qualquer aspecto da vida da vítima pudesse servir para relativizar uma possível violência. Na audiência do caso Mariana Ferrer, o advogado do réu, Cláudio Gastão da Rosa Filho, questionou fotos sensuais de Mariana, afirmou que ela usava o caso para se promover no Instagram e disse que “jamais teria uma filha do seu nível”. O foco da discussão, naquele momento, parecia se deslocar dos fatos investigados para a vida privada da denunciante.
Mas essa realidade não é exclusiva dos grandes centros. No Piauí, como em tantas outras partes do país, observa-se frequentemente uma curiosidade pública quase obsessiva em relação à vida das vítimas. Redes sociais transformam tragédias em tribunais paralelos, onde detalhes pessoais são examinados e julgados por milhares de pessoas. Diante dos novos entendimentos do STF, é inevitável refletir sobre como teriam sido as repercussões de casos que marcaram o Estado, como o de Emilly Yassmyn, de 24 anos, que foi encontrada morta após desaparecer por 7 dias. O principal suspeito, Hilton Candeira Carvalho, confessou ter matado ela asfixiada com um mata-leão por se recusar a pagar o valor de R$ 1,5 mil. Nos dias seguintes ganhou mais destaque nas discussões o fato de ser uma acompanhante do que o fato dele ter descartado o corpo dela carbonizado.
No livro Ela Disse, que relata os bastidores da investigação que impulsionou o movimento Me Too, as jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey mostram que uma das maiores dificuldades enfrentadas por mulheres vítimas de violência sexual é justamente serem ouvidas. Muitas vezes, uma única voz não basta. É preciso que outras mulheres contem histórias semelhantes para que a sociedade passe a enxergar um problema que sempre esteve diante dos seus olhos. O caso Mariana Ferrer certamente terá repercussões em inúmeros processos que tramitam atualmente e em outros que, infelizmente, ainda surgirão. A principal mensagem deixada pelo Supremo é de que nenhuma investigação deve exigir que uma mulher abra mão da sua dignidade para ter acesso à Justiça.




