
“Os vendedores que ainda não foram embora é porque são muito antigos aqui, como eu, que estou há 40 anos. Se sairmos daqui, nós vamos viver de quê?”, afirmou José Maria, um dos vendedores mais antigos do emblemático Troca-Troca, ponto comercial histórico de Teresina, no Centro da capital, na Avenida Maranhão.
José Maria é um senhor de mais de 70 anos que disse estar no Troca-Troca desde 1975, antes mesmo da estrutura atual ser erguida. O comerciante afirmou que atualmente consegue manter o negócio pelo costume da rotina e por já possuir uma clientela fiel, pessoas que o procuram para comprar, vender e trocar itens como geladeiras, fogões e botijões de gás.
Segundo ele, a forma tradicional e, por muitos anos, usada pelos teresinenses de contato direto, ganhou como rival o mercado digital. Ferramentas de anúncios de vendas como OLX, fóruns e até o próprio Facebook parecem mais atrativos para negociar para muitos que buscam otimizar tempo.
“Essas plataformas digitais hoje divulgam muitos outros lugares, a pessoa deixa de comprar aqui e vai comprar em outro lugar”, afirmou José, como uma das causas do enfraquecimento das vendas nos últimos anos.
Multas tem afastado clientela, afirma vendedor
O vendedor também disse que a falta de um estacionamento, bem como a proibição de parada de veículos frente à calçada complica a situação, uma vez que que a localização do Troca-Troca é em uma das avenidas mais movimentadas da capital, do lado de uma parada de ônibus e dá acesso direto às pontes que interligam Teresina à cidade de Timon, no Maranhão. Segundo ele, um novo cliente não volta após ser multado por estacionar em frente ao ponto de vendas.
Segundo o Boletim Brio ouviu de pessoas que frequentam a região, antes da instalação das câmeras de vigilância do ESPIA, era comum que motoristas parassem em frente ao Troca-Troca para descarregar botijões de gás, geladeiras e outros produtos, mesmo com a proibição. Após a implantação do sistema de monitoramento, muitos deixaram de fazer essas paradas por receio de serem multados.

Prioridade é a segurança no Centro, antes de infraestrutura
O senhor também relatou ao Boletim Brio que, para haver uma melhoria no Troca-Troca, seria necessária uma revitalização da segurança do local por parte do Poder Público. Ele disse que, mesmo com um vigia noturno, ainda acaba tendo muitos prejuízos com furtos de suas mercadorias.
José disse que estaria disposto a pagar se a Prefeitura se dispusesse a cuidar do Troca-Troca como tem cuidado do ponto comercial vizinho, o Shopping da Cidade.
“Eles pagam, mas têm segurança. Do tempo que estou aqui, nunca vi melhorar nada”, concluiu o entrevistado.

O Troca-Troca é um ponto de vendas informal que surgiu nos anos 1970, nas margens do Rio Parnaíba. Embaixo de uma figueira, populares locais formaram ali um ambiente de troca e venda de aparelhos diversos, como eletrônicos, eletrodomésticos e móveis.
Apenas no ano de 1985, a Prefeitura de Teresina estruturou o local como uma feira livre, formalmente. Desde então, o endereço ficou famoso com o nome de “Troca-Troca”, representando o ato popular das comercializações feitas ali, baseadas na troca de itens no local. O espaço carrega muitas histórias e um sentimento de pertencimento a um ambiente que leva um legado cultural de mais de 50 anos.
Desvalorização do que já foi um cartão-postal

“Esse Troca-Troca é antigo e já foi cartão-postal até fora do Brasil”, afirmou Genivaldo, um vendedor também muito antigo no Troca-Troca. Genivaldo disse que começou suas atividades no local ainda no ano de 1973 e que, hoje em dia, sente-se esquecido pelas autoridades. “Não tem mais nada de bom aqui”, afirmou o segundo entrevistado.
Genivaldo relatou ainda uma obra iniciada pela última gestão da Prefeitura de Teresina, que planejava expandir o espaço do Troca-Troca até uma região em frente ao Shopping da Cidade, mas, a obra não avançou.
O comerciante afirmou que não existe mais a organização do local como no passado e alegou ainda certa desunião entre os próprios vendedores do Troca-Troca.

Genivaldo descreveu que há muito o que poderia ser feito pelos órgãos responsáveis para revitalizar o cartão-postal e restabelecer o ambiente com o bom fluxo de vendas que existia anos atrás, mas afirmou:
“Quando falam de Troca-Troca, dizem que aqui só tem ladrão, e não é! Aqui tem pai de família, todo lugar tem gente ruim”, concluiu o vendedor sobre o preconceito, a generalização e o esquecimento enfrentados pelos trabalhadores de um espaço histórico na beira do Rio Parnaíba.
Ao longo dos anos, o Troca-Troca se tornou um ponto turístico da capital piauiense, visitadotambém por turistas que procuram conhecer a cultura e tradição de Teresina. Não é difícil encontrar vídeos de viajantes que escolheram visitar o Troca-Troca para conhecer melhor o Centro da cidade e se deslumbram ali com a enorme e valorosa quantidade de antiguidades reunidas em um só lugar.
Vídeo do canal de viagens Edivan e Camila mostra impressões sobre Teresina e passagem pelo Troca-Troca:
Os teresinenses, por sua vez, costumam usufruir do ótimo custo-benefício presente no ponto de venda, que já é uma forte marca da capital.
O lugar, atemporal, foi ainda eternizado pela canção “Teresina”, composta por Aurélio Melo e Zeca, que o cita em seu refrão:
“Aí, troca, quem troca destroca
Minha Teresina, não troco jamais
No troca-troca, quem troca destroca
Minha Teresina, não troco jamais”

O que a SDU Centro diz?
Procurada pelo Boletim Brio, a Superintendência de Desenvolvimento Urbano Centro (SDU Centro) afirmou que o Troca-Troca vem recebendo manutenção e permanece sob contínua conservação e melhoria.
Informou ainda que a obra executada pela última gestão da Prefeitura, em 2023/2024, de fato não foi concluída, mas que, desde 2025, a atual gestão passou a fazer as devidas intervenções necessárias no local, destacando um serviço de preservação hidráulica previsto para os próximos dias.
Veja a nota da SDU Centro na íntegra
NOTA
O espaço denominado Troca-Troca vem recebendo manutenção da SDU Centro, responsável pela execução dos serviços no local.
Informa-se que a obra executada no período de 2023/2024 não foi concluída. A partir de 2025, a atual gestão passou a realizar intervenções de manutenção, estando prevista, para os próximos dias, a execução de serviços de manutenção hidráulica.
A SDU Centro permanece realizando a conservação e melhoria contínua do espaço.
A permanência
Os vendedores do Troca-Troca, muitos dos quais permanecem lá há mais de 50 anos, continuam no local por tradição e paixão pelo ofício que exercem com tanto zelo há décadas e que acompanhou o crescimento da capital, Teresina, ali, à beira do Rio Parnaíba. Porém, eles não enxergam mais no próprio espaço onde envelheceram o valor de seu trabalho, de sua história ou mesmo da riqueza cultural presente no antigo cartão-postal.
Resta ao teresinense que cresceu com a presença marcante desse ponto comercial na Avenida Maranhão valorizar, da forma que puder, os vendedores dedicados, tradicionais e honestos que se esforçam todos os dias pelo seu memorável “cartão-postal até fora do Brasil”, como bem lembrou o feirante Genivaldo.


