O que pode mudar com a chegada dos micro-ônibus em Teresina? 80% a mais de veículos, ônibus sem cobrador e passagem sem dinheiro em espécie

O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transportes Rodoviários do Piauí (Sintetro) prepara uma carta que será entregue à Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (Strans) de Teresina com uma proposta para garantir a manutenção dos postos de trabalho dos cobradores que atuam no transporte público da capital. A iniciativa é uma repercussão do projeto apresentado pela Prefeitura de Teresina para ampliar a frota com novos ônibus e micro-ônibus.

A proposta do sindicato admite que parte dos novos veículos circule sem cobrador, mas estabelece uma condição: os primeiros 225 ônibus da frota, incluindo os atuais e os recém-chegados, deverão continuar operando com esses profissionais. Somente os veículos acrescentados a partir desse número poderiam funcionar sem cobrador.

Para o passageiro, segundo o presidente do Sintetro Antônio Cardoso, a principal mudança estaria na forma de pagamento da passagem nesses novos veículos. Sem a presença do cobrador, não seria aceito dinheiro em espécie. O sindicalista, assim, projeta que o pagamento teria que ser realizado por meios eletrônicos, como Pix, cartão bancário ou cartão utilizado no sistema de transporte coletivo. Atualmente, o salário de um cobrador gira em torno de R$ 1,6 mil.

Ônibus de Teresina (Foto: Reprodução da Folha Piauí)

225 ônibus permaneceriam com cobradores, defende Sintetro

Segundo Antônio Cardoso, a posição que será apresentada pelo sindicato é de que nenhum dos profissionais atualmente empregados seja demitido em razão da modernização da frota, mantendo 225 veículos com cobradores.

Como o número de ônibus atualmente em circulação seria inferior a 225, Cardoso afirma que a expansão até esse patamar poderá produzir o efeito contrário à demissão: as empresas precisariam contratar novos motoristas e cobradores para operar os veículos acrescentados.

“Nós vamos dizer que os 225 carros, todos terão um cobrador, ninguém será mandado embora, inclusive as empresas vão ter que contratar, porque não tem mais 225 carros rodando. Então, eles vão ter que aumentar mão de obra, tanto de motorista como de cobrador”, afirmou.

Antônio Cardoso (Foto: Reprodução do portal Clube News)

Motoristas de ônibus sem cobradores devem receber aumento no salário, defende Sintetro

A partir do 226º veículo, o modelo seria diferente. Esses ônibus poderiam circular sem cobrador, e o sindicato defende que os profissionais da categoria que já possuem habilitação D ou estão se preparando para exercer a função tenham a oportunidade de assumir os novos veículos como motoristas.

A mudança também envolve uma discussão salarial. Para o Sintetro, o motorista que passar a trabalhar sozinho no veículo terá mais responsabilidades e deverá receber uma remuneração maior. Antônio Cardoso afirma que está sendo defendido um reajuste linear de pelo menos 50% no salário para quem trabalhar nessas condições, tanto para motoristas de ônibus convencionais, quanto para micro-ônibus.

A operação sem cobradores também dependerá da adaptação do sistema de pagamento. Segundo Cardoso, a Prefeitura e as empresas terão que preparar os passageiros para a utilização dos meios eletrônicos nos veículos em que não houver recebimento de dinheiro.

Cartão usado por estudantes para pagar passagem (Foto: Reprodução do Setut)

De acordo com o representante do Sintetro, os novos veículos seriam utilizados para ampliar a quantidade de ônibus disponíveis, e não apenas para substituir a frota atual. A perspectiva mencionada por ele é de que o sistema possa chegar a cerca de 350 veículos em circulação.

“Não será aceito o dinheiro. A Prefeitura junto com o [sistema de transporte] vai ter que se virar e educar o passageiro que nesses carros vão ter que usar cartão de crédito e Pix e o cartão do [sistema]. A Prefeitura não vai comprar carro para substituir nenhum, ela vai comprar carro para acrescentar na frota. Ela está querendo chegar aí a 350 veículos. A ideia nossa é compartilhar uma coisa que seja boa para o passageiro, porque aumenta o número de carro. Com certeza, ter credibilidade para o passageiro voltar, carro novo, com ar-condicionado, nos horários ali tudo marcado direitinho. Aumenta também a mão de obra, porque não vai ser demitido ninguém. Com certeza vai aumentar o número de trabalhadores e vai ser bom para todo mundo”, disse Cardoso ao defender a proposta do sindicato.

Um novo projeto e uma possível solução para a crise do transporte

No último dia 6 de agosto, a Prefeitura de Teresina anunciou um novo projeto para a renovação do transporte público da capital, com previsão de adquirir até 160 novos ônibus, incluindo micro-ônibus e veículos convencionais.

O prefeito Sílvio Mendes declarou que pretende restaurar até 500 bancos de concreto, tradicionais nas paradas de ônibus de Teresina no passado. Segundo o prefeito, essas estruturas protegem os passageiros e não acumulam água no teto. O plano da gestão da capital tem previsão de ser apresentado no dia 14 de setembro. A ideia inicial é colocar veículos menores (micro-ônibus) em linhas que fazem rotas com um menor número de passageiros e manter os transportes tradicionais em linhas com amplo fluxo de usuários.

Silvio Mendes (Foto de divulgação da PMT)

O Palácio da Cidade também projeta a integração de linhas que transitem até a cidade vizinha de Timon, no Maranhão, facilitando a rotina dos teresinenses e timonenses que transitam diariamente entre os municípios.

O prazo para a entrega das melhorias ainda não foi divulgado, mas já se sabe que devem ser utilizados R$ 95 milhões encaminhados pelo Governo Federal, e a gestão do município planeja complementar o valor com uma contribuição de R$ 5 milhões.

“Mudanças importantes não podem ser realizadas isoladamente”, diz Setut

O Boletim Brio também buscou o Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Passageiros de Teresina (Setut), que esclareceu, por meio de resposta da assessoria de comunicação, seu ponto de vista e o conhecimento prévio sobre o plano da Prefeitura de Teresina.

“O SETUT está acompanhando as informações que vêm sendo divulgadas publicamente pela Prefeitura e pela imprensa. Vemos de forma positiva qualquer iniciativa voltada à renovação da frota e à melhoria do transporte coletivo de Teresina”, afirmou o sindicato, que também esclareceu que só terá mais detalhes a partir do dia 14 de setembro, com a apresentação do projeto por parte da Prefeitura.

Até lá, o órgão destacou que acompanhará as informações divulgadas e que tem uma perspectiva positiva sobre qualquer iniciativa de melhoria e renovação dos coletivos da cidade. O Setut explicou que tem boas expectativas para a transformação da relação de seus clientes com os ônibus, mas reforçou que apenas a chegada de novos veículos não basta.

“A expectativa é positiva. Renovação de frota, veículos mais adequados às diferentes demandas e melhorias na infraestrutura podem representar mais conforto, segurança e qualidade para quem utiliza o transporte coletivo. Mas o resultado para o passageiro não depende apenas da chegada de ônibus novos. Depende também de como esses veículos serão incorporados à operação, da definição de linhas e frequências e, principalmente, da existência de condições permanentes para que o serviço seja mantido com regularidade e qualidade”, declarou.

(Foto: Reprodução do Teresina em Foco)

A entidade disse que já possuía planos individuais de avanços no sistema de transporte coletivo da capital piauiense, mas que apenas um dos lados tomando a iniciativa em qualquer projeto não é suficiente, já que o sistema de transporte público exige um intenso empenho conjunto dos órgãos responsáveis:

“As empresas já trabalham permanentemente com manutenção, adequação da operação e planejamento de renovação da frota dentro das condições disponíveis. Mas o transporte coletivo funciona como um sistema, e várias mudanças importantes não podem ser realizadas isoladamente por uma empresa ou pelo Sindicato. Dependem do planejamento do poder concedente, das regras operacionais e das condições econômico-financeiras do serviço”, afirmou.

O Setut concluiu dizendo que a maior questão a ser resolvida no momento é a adequação das linhas de ônibus aos fluxos de passageiros e que o objetivo da entidade é restabelecer cada vez mais a confiança dos usuários e tornar novamente o transporte público uma opção atrativa para a população teresinense.

Palácio da Cidade só detalhará plano no dia 14 de setembro

Procurada pelo Boletim Brio, a Prefeitura de Teresina, por meio da assessoria da Strans, informou que, segundo orientações do próprio prefeito, só serão feitos pronunciamentos após o dia 14 de setembro, quando o plano será amplamente divulgado, após passar pelas avaliações necessárias, como o estudo de novas rotas, por exemplo.

No fim das contas, tudo o que o teresinense espera é que o transporte público em Teresina volte a ser uma escolha acertada. Que esperar horas nas paradas de ônibus não seja mais necessário e que haja um transporte coletivo que ofereça ao cidadão uma infraestrutura de qualidade.

Há mais de cinco anos, a população da capital piauiense se queixa da grande dificuldade de pegar um ônibus na cidade. Atrasos no trabalho, na escola ou na faculdade são algumas das consequências vividas por quem depende dos coletivos em Teresina. “Não existe mais ônibus em Teresina” é uma frase repetida em tom de descontração no cotidiano, mas que demonstra o desejo de que os novos planos para o transporte público se realizem para além do campo das ideias.

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