“Uma parte da minha vida se resume ao K-pop. Já fui a shows, viajei para outros lugares por causa disso, fiz amizades e vivi muitos momentos bonitos nos eventos”, conta Rayssa Lima, 26 anos, enfermeira e produtora de eventos ligados à cultura sul-coreana em Teresina.
Há dez anos envolvida com a cena local, Rayssa acompanha de perto o crescimento de uma comunidade que começou ocupando pequenos espaços em eventos de cultura asiática e, aos poucos, ganhou programação, público e mercado próprios na capital piauiense.
Em entrevista ao Boletim Brio, ela relembrou o início dessa história. Desde 2016, Rayssa participa da organização de eventos de cultura coreana na cidade e está à frente do KPT (Kpoppers Teresina).
“Inicialmente, nós íamos aos eventos de anime e cultura asiática”, relatou. Com o crescimento do interesse pelo K-pop, o grupo passou a promover encontros próprios. As reuniões aconteciam mensalmente no Parque Potycabana. Os jovens levavam caixas de som, colocavam suas músicas preferidas e reproduziam as coreografias dos grupos sul-coreanos.

Segundo Rayssa, o interesse pelo pop coreano ainda causava estranhamento, principalmente entre pais de crianças e adolescentes. O K-Pop ainda era pouco conhecido em Teresina, com músicas em coreano, estética e referências culturais distantes do cotidiano das famílias. Para muitos pais, era difícil compreender o interesse dos filhos por artistas e costumes de um país tão distante.
A percepção, porém, costumava mudar quando as famílias conheciam de perto os encontros e percebiam a importância daquele espaço de convivência para os filhos.
“Eu conheci o K-pop em 2012, por meio de amigos que já gostavam. Passei horas assistindo a clipes em lan houses. Na época, participei até de grupos cover. Foi uma das melhores fases da minha vida e foi também quando comecei a perceber que precisávamos de um espaço para quem gostava de ouvir K-pop e dançar”, contou.

Por que o K-pop cresceu tanto em Teresina?
O segundo festival de cultura pop sul-coreana da capital piauiense acontece nos dias 14 e 15 de agosto, no Centro de Eventos do Teresina Shopping. A programação reúne diferentes elementos popularizados pela chamada onda coreana, como música, filmes e séries, culinária e idioma.
A expansão desse universo para além de um público específico acompanha um fenômeno mundial. O K-Pop ganhou projeção internacional ainda maior na década passada, especialmente após a viralização de “Gangnam Style”, do cantor PSY, em 2012. Nos anos seguintes, artistas e grupos sul-coreanos ampliaram sua presença no mercado internacional, enquanto outras produções culturais do país também conquistaram novos públicos.

No Brasil, esse movimento encontrou uma comunidade numerosa de fãs. Em Teresina, o crescimento deixou de aparecer apenas nos encontros promovidos por admiradores e passou a ser percebido também no comércio e na realização de eventos maiores.
Um dos sinais dessa mudança ocorreu em janeiro de 2025, com a inauguração da loja K-you no Teresina Shopping. Com produtos relacionados à cultura sul-coreana, o empreendimento ajudou a colocar esse universo diante de um público que não necessariamente frequentava os encontros tradicionais de fãs de K-Pop. Os produtos diferentes dos tradicionais já costumeiramente vistos nas lojas mais tradicionais de Teresina e, muitas vezes, o preço aproximam o público que, assim, também passa a conhecer mais desse estilo de vida.

Da paixão da filha nasceu um negócio
“Eu conheci o K-Pop por causa da minha filha, que é apaixonada pelo BTS”, conta Luciana Gonçalves, advogada empresarial e CEO da K-you, que comercializa produtos coreanos nos dois principais shoppings de Teresina.
Na loja, o público encontra de cosméticos a alimentos e outros produtos associados à cultura sul-coreana. Mas a história do empreendimento começou dentro de casa.
Influenciada pela filha, Maria Laura, hoje com 18 anos, Luciana passou a conhecer melhor aquele universo e decidiu transformar o interesse da jovem em um negócio.
“Significa demais para mim porque era um sonho da minha filha. Eu resolvi investir nesse sonho e foi a partir disso que decidi abrir a loja”, afirma.

A expansão desse mercado também ajudou a viabilizar em Teresina experiências que, durante muito tempo, pareciam restritas às grandes capitais brasileiras. A chegada de atrações relacionadas à cultura sul-coreana aproxima os fãs piauienses de eventos que costumavam exigir viagens para cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
Para Luciana, existe uma demanda que vai além do consumo de produtos.
“A K-you criou uma comunidade para a população piauiense que buscava pertencimento dentro desse universo, e acreditamos que esse seja um dos motivos do nosso sucesso enquanto loja”, afirma.
O engajamento dos fãs de K-pop em Teresina
Em Teresina, o engajamento dos fãs já chegou a ocupar espaços de grande circulação da cidade. Em 2024, ARMYs, como são conhecidos os fãs do BTS, instalaram um outdoor na Avenida Marechal Castelo Branco para celebrar o retorno de J-Hope, integrante do grupo, após 18 meses de serviço militar obrigatório na Coreia do Sul.

A cultura exerce influência importante durante a juventude, período em que gostos, comportamentos e referências pessoais estão em formação. A música ouvida aos 12 ou 15 anos, os artistas admirados e os grupos dos quais o jovem participa podem influenciar sua maneira de se vestir, seus interesses, suas amizades e seus hábitos de consumo. Algumas dessas referências permanecem durante muitos anos e ajudam a compreender características de uma geração.
Esse processo não começou com o K-Pop. Em diferentes períodos, o Brasil recebeu forte influência de culturas estrangeiras. Entre o século XIX e o início do século XX, a França foi uma referência importante para as elites brasileiras na moda, na literatura, na arquitetura e nos costumes. O vestuário também seguia padrões europeus, com o uso de ternos, gravatas, vestidos e outras peças pensadas para temperaturas mais amenas. Mesmo em um país de clima predominantemente quente, esses padrões eram adotados como referências de elegância e comportamento social. Mais tarde, a influência dos Estados Unidos ganhou força, especialmente por meio do cinema, da televisão e da música. O jeans e o rock and roll passaram a fazer parte do cotidiano dos jovens brasileiros e contribuíram para mudanças no vestuário, no consumo e no comportamento.

Com o K-pop, uma geração mais recente passa por um processo semelhante de contato com referências estrangeiras.
O percurso do K-Pop em Teresina ajuda a explicar como uma manifestação cultural produzida a milhares de quilômetros do Piauí encontrou espaço na rotina de jovens da capital. O que começou com pequenos grupos reunidos em eventos de anime e encontros mensais na Potycabana passou a movimentar festivais, lojas, viagens, grupos de dança e amizades.
Para quem acompanhou essa transformação desde o início, como Rayssa, a dimensão do fenômeno também pode ser medida pelas relações construídas ao longo dos anos. Dez anos depois dos primeiros encontros, o K-pop já não depende apenas de uma caixa de som levada ao parque para reunir seus fãs. Em Teresina, tornou-se uma comunidade com público, eventos e mercado próprios.



