“Um dia uma vizinha me perguntou, toda cuidadosa, se eu estava passando por algum problema financeiro. Fiquei sem entender até descobrir que estavam comentando que eu tinha vendido meu carro porque estava endividado. O carro estava na oficina havia quase duas semanas. Meio que a história tinha o valor e até o motivo de eu supostamente precisar desse dinheiro. Não era verdade, mas, fiquei envergonhado. Assim, por que as pessoas estavam pensando isso de mim?”.
Relato de um homem de 32 anos
“Uma vez começaram a dizer que eu tinha brigado com uma amiga porque a gente deixou de aparecer juntas nas fotos. A verdade é que ela tinha começado a namorar e simplesmente estava saindo menos. A história cresceu tanto que chegou em mim com direito a motivo da briga, uma frase que eu supostamente tinha dito. Tivemos que sentar juntas para esclarecer tudo uma com a outra. Continuamos amigas até hoje. Na época, foi tenso, mas hoje damos risadas juntas da loucura desse povo que gosta de inventar histórias”
Relato de uma mulher de 29 anos
Nesta semana, a Todavia parte de histórias como essa para olhar para algo tão comum quanto pouco questionado. Por que uma história sobre a vida de alguém consegue circular tão rápido no Piauí? A fofoca, na análise da socióloga e professora doutora da Universidade Federal do Piauí (UFPI) Arilda Arboleya, além de satisfazer a curiosidade sobre a vida dos outros, também pode funcionar como uma forma de controle social. Quando uma comunidade estabelece determinados comportamentos como corretos, falar sobre quem foge dessas expectativas, questionar sua conduta ou desgastar sua reputação pode funcionar como uma espécie de punição. E há características da formação social e econômica do Piauí que, segundo a pesquisadora, ajudam a entender por que esse recurso pode encontrar aqui um ambiente particularmente favorável.
“A formação social tem peso na configuração do padrão das relações sociais locais e isso tem peso na configuração das formas de mobilização dos recursos de deterioração das imagens (fofoca) como estratégia de controle social. E, talvez mais do que a formação em si, o padrão de desenvolvimento ao longo do processo histórico, centrado em mecanismos tradicionais de produção, tendem a gerar baixo dinamismo econômico e baixa diversificação social. Isso concorre para a criação de sociedades mais conservadoras, organizadas em modelos de comportamento e formas de relações comunitárias muito fechadas. Nesse tipo de sociedade, a manipulação da imagem do outro se torna um recurso bastante incisivo. Mas, cabem ressalvar que isso não é exclusividade do Piauí: a fofoca é um mecanismo de controle social recorrente nas mais diversas sociedades e grupos sociais, pois envolve relações de dominação e poder”, disse.

O tamanho das cidades também importa. Em comunidades menores, onde família, amizades e outros círculos de convivência tendem a estar mais próximos, o pertencimento ao grupo ganha força, e também aumenta a capacidade desse grupo de vigiar comportamentos. É nesse sentido que Arilda relaciona a predominância de pequenas cidades no Piauí à efetividade da fofoca. Ou seja, quando as redes sociais são mais circunscritas, uma reputação deteriorada pode ter consequências dentro dos próprios espaços aos quais a pessoa deseja pertencer. A pesquisadora observa ainda que esse mecanismo não desaparece à medida que a sociedade se torna mais dinâmica. O que muda é a escala em que ele opera.
“Cidades menores constituem comunidades de menor complexidade, maior força nos laços de pertencimento e, portanto, maior controle social. As estruturas das relações sociais são mais fechadas e mais refratárias a comportamentos divergentes do modelo social estabelecido como adequado. Então, tende a exercer maior efeitos nos sistemas de deterioração das imagens sociais divergentes e a mobilização desse recurso para manter os padrões normativos sobre o comportamento coletivo, é mais recorrente. Então, as relações familiares e os círculos sociais nesses contextos são instrumentos desse mesmo esforço de controle sociais, gerando grupos de pertencimento e sistemas de exclusão. A configuração econômica de uma sociedade também integra esse processo na medida em que sistemas menos complexos e menos dinâmicos tendem a manter as comunidades mais fechadas em formas tradicionais de comportamento”, disse.

Para Arilda, a fofoca também estabelece quem é considerado “correto” ou “incorreto” dentro de determinado grupo. Ao apontar o comportamento de alguém como inadequado, quem fofoca está reforçando os valores que considera legítimos e, ao mesmo tempo, posicionando-se do lado daqueles que seriam moralmente aceitos. É por isso que a socióloga entende a fofoca como uma relação de poder e uma forma de hierarquização social.
“Certamente, a fofoca é um instrumento das relações de poder. Por ela se desenham pertencimentos sociais definindo e se estabelecem rotinas de demarcação da legitimidade dos ‘corretos’ pela atribuição de inadequação, ilegitimidade, impureza de comportamento dos classificados como ‘incorretos’ sociais. No fundo, isso é um recurso de hierarquização social de ‘superiores’ e ‘inferiores’ morais, faz parte de um dos exercícios mais antigos e mais acessíveis de auto fortalecimento a partir da diminuição do outro” disse.
Nesse processo, nem todo mundo está igualmente sujeito ao julgamento. Arilda chama atenção para quem desafia os papéis que lhe foram socialmente atribuídos e, por isso, provoca desconforto em modelos já estabelecidos. Também são mais vulneráveis aqueles para quem pertencer e ser reconhecido por determinado grupo tem grande importância. Nesses casos, uma fofoca pode produzir vergonha, constrangimento e medo suficientes para interferir nas escolhas da pessoa e até restringir suas vontades. “Os maiores alvos são, certamente, as pessoas que se importam menos com os papeis que lhe são socialmente atribuídos, que causam desconfortos nos modelos sociais estabelecidos, e portanto, nas estruturas de dominação estabilizadas. Há pessoas mais vulneráveis a essas estratégias de controle e poder, em geral aquelas que sentem maior necessidade de pertencer a determinados grupos sociais e ser por eles reconhecidas. Sobre essas pessoas, os efeitos de subjetivação das fofocas (vergonhas, constrangimentos, medos) pode ser bastante perverso, restringido suas vontades e mesmo suas potencialidades”, pontuou.

Uma pesquisa publicada na revista científica Social Psychological and Personality Sciencesugere que as pessoas passam, em média, cerca de 52 minutos por dia fofocando. Exemplos não faltam. Uma das séries de maior sucesso da Netflix, Bridgerton, transforma a fofoca em peça central da trama, pelas mãos de Lady Whistledown.
No caso de Teresina, em vídeo que publicou no Tiktok, a estudante de medicina Isabel Mullerr chamou atenção para uma característica que percebeu desde que se mudou do Rio Grande do Sul para o Piauí, que foi a intensidade que as fofocas tomavam na capital. Ela contou que a circulação de comentários sobre a vida alheia é bem mais presente por aqui do que no lugar onde vivia anteriormente e apontou essa diferença como uma das situações mais desafiadoras no processo de adaptação à nova cidade.
“Não que onde eu morava não existisse fofoca, mas aqui parece que, por ser menor, a fofoca toma uma proporção muito grande, porque todo mundo se conhece, todo mundo tem algum tipo de conexão em todo o estado. Isso é muito inconcebível para mim. Lá onde eu morava, a fofoca se concentrava, por exemplo, na minha escola. Eu ia para casa e convivia com as pessoas do meu bairro, e parecia que eram outras pessoas, outro ciclo. As fofocas não repercutiam nos vários ciclos em que eu convivia. Aqui parece que elas repercutem em todos”, disse no vídeo que recebeu mais de 3 mil curtidas.
Alguns desses casos no estado chegaram a virar caso de polícia. Em 2022, um inquérito policial foi aberto pela Polícia Civil para investigar quem estava por trás de uma conta anônima no Instagram que se dedicava a expor diversos moradores de Amarante, no Sul do Piauí. O perfil funciona como uma “página de fofoca“, onde eram postadas mensagens sobre a intimidade, relacionamentos e supostas infidelidades de pessoas que residem na cidade de 17 mil habitantes.

Por que a vida dos outros nos interessa tanto? Psicóloga explica
Entrevistada pelo Boletim Brio, a psicóloga Laíssa Dias, Pós-graduanda em Psicanálise com Crianças e Adolescentes (IPOG), avaliou que o interesse pela vida alheia não deve ser compreendido, de partida, como um comportamento patológico. Segundo ela, observar o outro também faz parte da maneira como as pessoas constroem referências sobre si mesmas. O limite começa a mudar quando a curiosidade deixa de ser ocasional e se transforma em uma necessidade de acompanhar, saber ou vigiar a vida de alguém. Ela ainda acrescentou que esse movimento, em alguns casos, pode desviar a atenção de conflitos pessoais mais difíceis de encarar.
“Por isso, uma conquista, uma perda, uma escolha ou até aquilo que alguém tenta esconder pode despertar curiosidade porque, de alguma maneira, toca questões que também dizem respeito a quem observa. O que o outro tem que eu gostaria de ter? O que ele perdeu que eu tenho medo de perder? Por que determinada escolha dele me incomoda tanto? Quando essa curiosidade se transforma em necessidade constante de saber, acompanhar ou vigiar, podemos pensar que há algo além do simples interesse”, descreveu.

A fofoca também pode produzir uma espécie de recompensa para quem detém a informação. Segundo Laíssa, saber algo que os demais desconhecem pode conferir, ainda que por pouco tempo, uma posição diferenciada dentro de determinado círculo.“Ter acesso a uma informação íntima pode produzir sensação de proximidade, exclusividade, poder ou pertencimento. E compartilhar um segredo também pode criar uma cumplicidade: ‘eu estou contando isso para você porque nós temos determinada proximidade’. O problema é que, muitas vezes, essa aliança se estabelece colocando uma terceira pessoa, que está ausente, como objeto daquela conversa”, frisou.
Quando a fofoca expõe uma falha ou fragilidade, há ainda outra camada possível. A vulnerabilidade alheia pode oferecer um alívio momentâneo diante das próprias inseguranças, especialmente quando envolve alguém percebido como seguro, bem-sucedido ou distante. A psicóloga ressaltou, contudo, que isso não significa afirmar que toda pessoa que fofoca sente prazer consciente com o sofrimento dos outros. Segundo ela, a própria psicanálise considera que parte das motivações humanas pode escapar à consciência.
“Perceber a vulnerabilidade do outro pode aliviar, momentaneamente, o confronto com as próprias fragilidades. A imagem daquele outro que parecia tão seguro, bem-sucedido ou inacessível se desfaz um pouco. Isso não significa que toda pessoa que fofoca tenha conscientemente prazer com o sofrimento alheio. […] Há desejos, conflitos e satisfações que podem aparecer na nossa maneira de falar sobre os outros sem que tenhamos plena consciência deles”, explicou.

A fofoca, nessa leitura, também oferece pistas sobre quem a espalha. Não apenas pelo conteúdo contado, mas pela escolha daquilo que julga merecer ser repetido. Laíssa apontou que sentimentos como inveja, ressentimento e rivalidade podem aparecer nesse processo, assim como identificação, desejo de reconhecimento e necessidade de pertencer a um grupo. Uma mesma história, por isso, pode ser irrelevante para alguém e profundamente mobilizadora para outra pessoa.
“Às vezes, justamente aquilo que reconhecemos no outro (ou que não gostaríamos de reconhecer em nós mesmos) produz incômodo. Por isso, histórias diferentes mobilizam pessoas diferentes. Uma situação que passa despercebida para alguém pode provocar uma reação muito intensa em outra pessoa. Na perspectiva psicanalítica, essa diferença importa: aquilo que escolhemos observar, criticar ou repetir sobre o outro pode nos oferecer pistas sobre nossos próprios conflitos, desejos e inseguranças”, aconselhou.

Para quem vira alvo, o problema ganha outra dimensão quando a própria história passa a circular pelas palavras dos outros. Laíssa relatou que perceber a perda de controle sobre a própria narrativa pode provocar vergonha, raiva, insegurança e uma sensação de impotência, sobretudo diante da impossibilidade de saber quem recebeu determinada versão ou passou a acreditar nela.
“Uma das consequências possíveis (para quem foi alvo da fofoca) é o sujeito começar a antecipar constantemente o julgamento alheio. Antes de falar, pensa excessivamente no que os outros poderão interpretar, antes de publicar alguma coisa, imagina o que será comentado, antes de confiar em alguém, questiona se aquela informação será utilizada contra ele. Nesse sentido, algo que inicialmente estava fora, que são os comentários e julgamentos das outras pessoas, pode passar a funcionar como uma espécie de vigilância internalizada. A pessoa começa a controlar excessivamente a própria espontaneidade para tentar evitar uma nova exposição”, ponderou a psicóloga.

Quando uma fofoca deixa de ser apenas fofoca?
Comentar a vida alheia não é, por si só, uma conduta ilícita. Segundo a advogada Ana Rafaela, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), a liberdade de expressão é protegida pela Constituição, mas encontra limites quando passa a atingir direitos como honra, imagem, intimidade e vida privada.
“Na prática, essa fronteira depende muito do conteúdo e do contexto. Uma coisa é manifestar uma opinião, ainda que crítica ou desagradável. Outra, bem diferente, é atribuir a alguém um fato específico, principalmente quando esse fato é ofensivo, desonroso ou criminoso. Se uma pessoa afirma que outra praticou determinada conduta, já não está apenas expressando uma impressão pessoal, está fazendo uma imputação que pode ser confrontada com a realidade e que precisa ter algum respaldo”, pontuou.
Sim, a fofoca pode chegar ao Código Penal!
Quando uma história atinge a honra de alguém, a análise pode chegar aos crimes de calúnia, difamação e injúria, confirmou a advogada ao ser questionada pelo Boletim Brio.
“A diferença entre eles está no tipo de ataque que foi feito. Na calúnia, previsto no art. 138 do Código Penal, alguém atribui falsamente a outra pessoa a prática de um crime. Não basta uma acusação vaga. É preciso apontar um fato criminoso minimamente identificável. […] A difamação, prevista no art. 139, é diferente. Nela, também existe a atribuição de um fato concreto, mas esse fato não precisa ser criminoso. Basta que seja capaz de prejudicar a reputação da pessoa perante os outros. […] Já na injúria, prevista no art. 140, não se conta propriamente um fato. O ataque é dirigido à pessoa, à sua dignidade ou ao seu decoro. É o xingamento, o apelido humilhante ou a expressão utilizada para rebaixá-la”, descreveu a lei.

Mesmo quando é verdade, espalhar pode ser ilícito
A veracidade da história também não representa uma autorização automática para divulgá-la. Ana Rafaela explica que é preciso considerar a natureza da informação, o contexto da exposição e a existência, ou não, de interesse público.
“O fato de uma informação ser verdadeira não dá, por si só, o direito de divulgá-la. Uma pessoa pode dizer a verdade e, mesmo assim, violar a intimidade, a vida privada, a honra ou a imagem de alguém. É por isso que, juridicamente, a discussão não termina quando se comprova que o fato realmente aconteceu. Também é necessário observar a natureza da informação, a forma como ela foi obtida, o contexto da divulgação e a existência de algum interesse público legítimo”, disse.
A advogada chama atenção, ainda, para uma distinção importante quando histórias da vida privada ganham grande repercussão:
“Mas interesse público não se confunde com curiosidade pública. O simples fato de muitas pessoas desejarem conhecer determinada história não transforma a intimidade alheia em assunto de interesse coletivo”, acrescentou.
Quando a fofoca já se espalhou, o que a vítima pode fazer?
Se a história já começou a circular, a primeira providência recomendada pela advogada é preservar as provas. A partir delas, a vítima pode avaliar medidas para interromper a exposição e buscar responsabilização nas esferas criminal e civil.
“O primeiro cuidado deve ser preservar a prova antes que o conteúdo desapareça. Depois disso, a vítima pode registrar boletim de ocorrência, procurar a retirada da publicação, pedir a identificação de perfis anônimos e buscar indenização”, pontuou.

Ana Rafaela alerta ainda para um detalhe importante para quem pretende recorrer à Justiça nos casos de crimes contra a honra:
“Nos crimes contra a honra, a regra é a ação penal privada, a vítima precisa apresentar queixa-crime por meio de advogado. O prazo é de seis meses a partir do dia em que ela descobre quem foi o autor. O boletim de ocorrência é importante, mas não substitui a queixa-crime nem interrompe automaticamente esse prazo. Há exceções, como a injúria racial, que é de ação penal pública incondicionada”, disse.
O argumento de que “eu só repassei” também não encerra a responsabilidade de quem ajudou uma fofoca a circular. Segundo Ana Rafaela, quem recebe uma informação e decide compartilhá-la passa a participar de sua divulgação, e essa conduta pode ser analisada de acordo com o conteúdo, a intenção e o dano provocado. Mesmo em grupos fechados ou com poucas pessoas, o compartilhamento pode ampliar uma exposição e contribuir para que uma história avance de conversa em conversa e, se prejudicar a reputação de alguém, é crime.



