“A gente é diretamente afetado pela qualidade da água. A água está poluída. Tem pessoas que já não consomem nosso pescado. Com isso, a nossa renda tende a cair”, diz José Francisco, conhecido como Quarenta, e representante do grupo conhecido como Guardiões do Poti.
Pescador, ele mede a situação do Rio Poti também pelo comportamento dos compradores. Os teresinenses que saiam em busca de um pescado próprio da cidade estão diminuindo. Cada notícia sobre poluição aumenta a desconfiança em relação ao peixe retirado dali. Ao longo dos anos, a produção que os pescadores conseguem retirar e vender diminuiu muito e a renda acompanhou a queda.
Durante o verão, o problema fica ainda mais visível, com um tapete de aguapés que cobre parte da extensão do rio. A Todavia ouviu quem vive o cotidiano do Poti e especialistas que estudam sua relação com Teresina para entender o que ainda pode ser feito.

1. Fazer o saneamento chegar às casas e fiscalizar o que volta ao rio
Para Quarenta e os demais pescadores, os aguapés também impõem uma barreira física. Quando a vegetação fecha a passagem, é preciso procurar áreas mais distantes ou retirar a embarcação da água e transportá-la por terra. Em algumas dessas travessias, ele chegava a pagar R$ 50 para levar o barco até outro trecho navegável. Hoje, com o preço do peixe e a redução das vendas, o deslocamento deixou de compensar. Viajar para buscar três caixas de pescado pode custar mais do que o trabalho rende.
“Quando sai notícia de que o rio está poluído, a população fica sem segurança para consumir o nosso pescado. A gente, que está acostumado com o rio, ainda vai lá e consome o peixe, mas muitas pessoas já não querem comprar. Com isso, a nossa renda tende a cair. O aguapé é outro problema para os pescadores, porque impede a navegação e obriga a gente a buscar regiões mais difíceis. Às vezes, é preciso transportar o barco por terra e pagar alguém para fazer isso. Antes, a gente pagava R$ 50. Hoje, pelo preço do peixe, não compensa fazer todo esse deslocamento para buscar umas três caixas e vender aqui. Ficou praticamente inviável”, disse.
Quarenta disse ao Boletim Brio acreditar que o manejo dos aguapés precisa ocorrer enquanto a vegetação ainda pode ser controlada, antes que ocupe extensões maiores do rio. Mas sabe que retirá-los resolve apenas a parte mais aparente do problema. Ele cobra o tratamento do esgoto, a ligação efetiva das casas à rede instalada e uma fiscalização independente da água devolvida ao Poti.

O pescador também chama atenção para o custo das ligações domiciliares e defende subsídios para famílias de baixa renda, especialmente as inscritas no CadÚnico e no Bolsa Família. Colocar tubulação nas ruas produz pouco efeito quando parte da população não consegue pagar pela conexão dentro de casa.
“O aguapé cresce muito rápido, mas, se tomar a providência no momento certo, a gente consegue fazer o controle para não deixar que ele tome o rio. Muitas ruas foram abertas para colocar a tubulação, mas a ligação das casas ao sistema ainda não foi feita. Esse serviço tem um custo muito alto, e uma pessoa que recebe Bolsa Família muitas vezes não tem como pagar. O governo e a prefeitura deveriam subsidiar essa ligação para as famílias de baixa renda. Também é preciso fiscalizar a água tratada que retorna ao rio. Quem acompanha o resultado dessa água? Ninguém soube me responder. Normalmente, a resposta que eu encontro é que quem faz essa fiscalização, essa análise, é a própria Águas de Teresina, o que eu acho errado. Deveria ter um órgão fiscalizador para saber se realmente está no nível aceitável para retornar ao rio”, opinou o pescador.

2. Recuperar a bacia e levar Teresina de volta ao rio
Engenheiro civil, turismólogo e coordenador do Desafio Teresina Entre Rios, Luciano Uchôa trabalha desde 2022 para aproximar a cidade de suas águas. O projeto promove ocupações culturais, oficinas de artesanato, atividades ambientais e ações com comunidades ribeirinhas e pescadores. Também defende o turismo de base comunitária como fonte de renda para quem já conhece o rio e depende dele.
Para o engenheiro, Teresina cresceu entre o Poti e o Parnaíba, mas aprendeu a ignorá-los. “Os rios sofrem um processo de invisibilização. O que nós estamos querendo fazer é tirar essa manta de invisibilidade para que todos nós possamos ver e vivenciar os rios”, afirma.

A solução apresentada por Luciano amplia o tamanho do mapa. Recuperar somente os trechos mais conhecidos do Poti preservaria as fontes de poluição que chegam até ele. É preciso identificar todos os riachos e cursos d’água que atravessam Teresina, descobrir quais foram canalizados, por onde passam e onde recebem esgoto e resíduos. O trabalho também deve envolver os municípios banhados pelo Poti e pelo Parnaíba, com fiscalização, saneamento e controle dos despejos ao longo de toda a bacia.
A presença excessiva de aguapés, segundo ele, é alimentada pela matéria orgânica lançada na água. Quando crescem de maneira descontrolada, essas plantas fecham a superfície, dificultam a entrada de luz, reduzem a oxigenação e impedem a navegação.
“Não podemos tratar apenas o Poti e o Parnaíba. É preciso mapear urgentemente todos os rios que passam por Teresina, saber onde estão, se foram canalizados, por onde passam e se recebem esgoto, porque esse esgoto acaba chegando ao Poti e ao Parnaíba. Precisamos tratar o problema de maneira global, ampliar o saneamento básico, fiscalizar o lançamento de resíduos e envolver todos os municípios banhados por essas águas. Também é necessário levar a população para dentro do rio, porque uma coisa é olhar um rio sujo em uma folha de papel; outra é ver o problema no local. Isso muda a percepção ambiental e ajuda a criar uma relação de proteção. Sem rios vivos, não há futuro para Teresina”, disse.
Entre o fim de setembro e o começo de outubro, o Desafio Teresina Entre Rios pretende realizar uma nova edição do Concerto Rios e Aguapés, nas proximidades da ponte junto à Universidade Federal do Piauí. A ideia é reunir músicos e moradores justamente em uma área tomada pela vegetação, transformando a ocupação cultural em cobrança pública. “Nós acreditamos que não basta só ter ações ambientais, de política de educação ambiental na sala de aula, não. É preciso levar para o rio, é preciso mostrar o problema no rio. Uma coisa é você olhar um rio sujo numa folha de papel, num livro. Outra coisa é você olhar ao vivo, ali, in loco. Isso muda a percepção ambiental”, pontuou.
3. Criar um Plano Diretor de Regeneração Fluvial
Para o arquiteto Nilson Coelho, mestre em Planejamento Urbano, Sustentabilidade e Inovação e especialista em Arquitetura Fluvial Flutuante, os aguapés funcionam como um aviso. A retirada emergencial pode liberar os trechos mais críticos, mas a vegetação voltará enquanto continuar encontrando água carregada de nutrientes, esgoto e matéria orgânica. “O aguapé não é o problema central, mas o sinal visível de que o rio está poluído e fragilizado. O problema mais urgente hoje é interromper a entrada de poluição na fonte, especialmente por meio do saneamento, do controle de efluentes, do monitoramento contínuo das águas e da redução dos lançamentos irregulares”, explica.
No curto prazo, Nilson propõe ampliar o tratamento de esgoto, combater despejos irregulares, retirar resíduos das margens, monitorar continuamente a qualidade da água e manejar os aguapés nos pontos em que já impedem a circulação. No médio prazo, a recuperação deve alcançar a mata ciliar, as margens degradadas e a drenagem urbana, com soluções baseadas na natureza e tecnologias de monitoramento. O planejamento também precisa incluir as comunidades ribeirinhas, por meio de capacitação, educação ambiental e atividades econômicas ligadas ao rio. A regeneração do Poti, nessa perspectiva, deve produzir benefícios ambientais e sociais capazes de reincorporá-lo à vida de Teresina.

O maior obstáculo, segundo Nilson, está na fragmentação das responsabilidades. Na visão dele, Governo, municípios, concessionárias e sociedade executam ações descontínuas, sem uma estrutura comum de metas, cobrança e financiamento. Por isso, ele defende a criação de um Plano Diretor de Regeneração Fluvial para o Rio Poti.
“Sem governança clara, metas definidas e financiamento estável, a recuperação não sai do papel. Por isso, é tão importante fortalecer mecanismos de coordenação, monitoramento e responsabilização, para que a despoluição deixe de ser apenas uma promessa e se torne uma política contínua. O Rio Poti necessita de um Plano Diretor de regeneração fluvial e de financiamento contínuo”, disse.
O que a Águas de Teresina diz
Procurada, a Águas de Teresina informou que trata diariamente cerca de 40 milhões de litros de esgoto em 29 Estações de Tratamento e que todo o volume coletado pelo sistema passa por tratamento antes de ser devolvido ao meio ambiente, conforme os parâmetros legais. A empresa afirmou que despejos irregulares feitos diretamente em sarjetas e vias públicas não chegam à sua rede e podem contribuir para a poluição dos rios. Também destacou que a ligação do imóvel pode ser realizada gratuitamente quando solicitada em até 180 dias após a disponibilização da rede, observadas as condições previstas para o serviço. Veja na integra abaixo.
NOTA
A Águas de Teresina informa que realiza diariamente o tratamento de cerca de 40 milhões de litros de esgoto coletado no município, por meio de 29 Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Todo o esgoto coletado pelo sistema é encaminhado para tratamento antes de ser devolvido ao meio ambiente, em conformidade com os parâmetros estabelecidos pela legislação.
A empresa ressalta que lançamentos irregulares de esgoto, como aqueles despejados diretamente em sarjetas e vias públicas, não passam pelo sistema de coleta e tratamento da companhia e podem contribuir para a poluição dos corpos hídricos.
Como forma de ampliar a coleta e reduzir os lançamentos irregulares, a Águas de Teresina incentiva os moradores a realizarem a conexão dos imóveis à rede de esgoto disponível. Quando solicitada dentro do prazo de até 180 dias após a disponibilização da rede, a ligação pode ser realizada gratuitamente, conforme as condições previstas para o serviço.
A empresa reforça ainda que a ampliação do acesso ao sistema de esgotamento sanitário é uma das medidas adotadas para contribuir com a melhoria da qualidade ambiental e a preservação dos recursos hídricos. Mais informações, os clientes podem entrar em contato pelo 0800 223 2000, ligação e WhatsApp.
O Rio Poti tem salvação?
A poluição reduz a venda do pescado, os aguapés bloqueiam a navegação e as ações públicas são fragmentadas. Quem vive e estuda o Poti aponta três caminhos: saneamento acessível e fiscalizado, recuperação de toda a bacia e planejamento permanente.
As três soluções se encontram em pontos diferentes do mesmo rio. O Rio Poti tem salvação, mas a resposta depende de continuidade. Quarenta provavelmente perceberá os primeiros resultados antes de qualquer relatório, quando puder atravessar o rio sem carregar o barco por terra e voltar a vender o peixe sem que a poluição seja a primeira pergunta do comprador.



