Delegada Vilma, a vida de uma protagonista que enfrentava quem fosse preciso para proteger outras mulheres: “Os homens recuavam pela firmeza e determinação dela”

Delegada Vilma (Foto: reprodução/Instagram/Delegada Vilma)

Na sexta-feira que antecedeu o seu falecimento, no último sábado (22), Vilma Alves recebeu um pedido de socorro e fez uma ligação para articular como ajudar. Uma mulher que morava sozinha na região, enfrentava problemas com a vizinhança e não tinha para onde ir. Vilma queria encontrar uma saída. Aos 79 anos, aposentada havia quase cinco, já não respondia oficialmente por uma delegacia. Ainda assim, continuava sendo procurada, e continuava procurando outras pessoas, quando alguma mulher precisava de ajuda.  

O relato foi contato à Todavia por Sônia Terra, superintendente dos Direitos Humanos da Sasc, e amiga da eterna delegada Vilma. 

“Ela me ligou à noite para resolver o problema de uma mulher. A mulher estava sozinha, sofrendo problemas com a vizinhança, morava sozinha, não tinha para onde ir”, contou Sônia, amiga da delegada.

Sônia e Vilma (Foto enviada ao Boletim Brio)

Em uma carreira que se cruza com próprio marcos históricos do Piauí, Maria Vilma Alves da Silva sofreu um infarto na noite de terça-feira, 18 de agosto. Faleceu na manhã de sábado, 22 de agosto de 2026, no Hospital São Marcos, em Teresina. Tinha 79 anos, quase cinco décadas de serviço à segurança do Piauí, 36 delas como delegada.

A biografia oficial registra os pioneirismos. Vilma foi a primeira delegada negra do estado, a primeira mulher a comandar a Delegacia de Defesa e Proteção dos Direitos da Mulher e a primeira a assumir a Corregedoria-Geral da Polícia Civil do Piauí. Cada uma dessas posições havia sido ocupada, até então, sem que uma mulher negra, muitas vezes, segundos as estatísticas, a parcela da população que mais sofre com violência, pudesse se reconhecer em quem estava à frente.

Delegada Vilma (Foto: reprodução/Instagram/Delegada Vilma)

Foi, atuou em favor e viu a presença feminina crescer na polícia

Quando ingressou na segurança pública, a presença feminina na corporação era rara, a de mulheres negras, quase inexistente. Vilma começou no Instituto de Identificação do Piauí. Em um perfil publicado em 2021 no portal Clube de Notícias, contou que, durante a preparação de fotografias, ouvia que a imagem ficaria “toda escuro” porque ela era negra. Mais tarde, já delegada, ainda encontraria homens que entravam em sua sala, pediam para falar com a autoridade e se recusavam a acreditar quando ela respondia: “Sou eu.”

O racismo e o machismo estavam no espanto diante da mulher sentada na cadeira, na recusa ao atendimento, na tentativa de negar a autoridade que o cargo lhe conferia. Vilma permaneceu na cadeira. Os que saíam, ela contou naquela mesma entrevista, acabavam voltando. Ela era a delegada.

“Homens chegavam, como chegam ainda, no começo olhavam para mim e falavam que queriam falar com a delegada. E eu respondia: ‘sou eu’! Uns olhavam atravessado, outros se retiravam, e outros falavam na cara dizendo que não iam ser atendidos por mim. Mas, eles voltavam porque eu sou a delegada”, disse 2021 em relato ao portal. 

Delegada em seu gabinete (Foto reprodução/ MN)

Essa personalidade forte, que foi descrita à coluna como aquela que preenche uma sala e é imediatamente notada quando adentra uma porta é uma memória que ficará nítida entre os amigos, como descreveu Sônia Terra. 

“A Vilma foi uma mulher protagonista. Usou a sua voz naquele espaço para colocar em evidência, para chamar a atenção da sociedade e das instituições sobre a problemática da violência contra a mulher. Isso nos anos 80 e 90, quando se consolidava a própria organização dos movimentos de mulheres no país. E o Piauí não fugiu a isso”, relembrou Sônia.

Antes das leis, uma voz que não se calava no Piauí

A primeira Delegacia da Mulher do Piauí foi implantada em 1989, em Teresina, e teve Vilma como sua primeira comandante. A Lei Maria da Penha só seria sancionada dezessete anos depois, em 2006. Já o feminicídio entraria na legislação brasileira apenas em 2015. Quando Vilma começou a receber vítimas de violência doméstica, portanto, muitas das palavras, dos procedimentos e dos instrumentos jurídicos hoje conhecidos ainda não existiam. A agressão ocorrida dentro de casa era frequentemente empurrada de volta para o espaço privado. Vilma ajudou a trazê-la para a responsabilidade do Estado no Piauí. 

Foto: reprodução/Instagram/Delegada Vilma.

À frente da unidade, não se limitava a registrar ocorrências. A delegacia ganhou a reputação de lugar onde uma mulher podia chegar com medo e ser levada a sério. Vilma tratava agressores com rigor, sem distinguir classe social, conforme mais de um entrevistado descreveu, e as vítimas com acolhimento. Essa combinação, repetida nas lembranças de quem trabalhou e militou ao lado dela, era o modo como compreendia a justiça.

Sônia descreveu assim a ligação que Vilma estabelecia entre o movimento de mulheres e a autoridade policial:

Ela já era essa voz que ia para as escolas, que ia para as universidades, que se colocava, se posicionava junto com o Movimento de Mulheres. Era ali o Movimento de Mulheres com uma força institucional que era dela, porque representava também a força policial, mas uma força policial com um olhar de sensibilidade, que entendia que dentro do próprio espaço havia o corporativismo e que ela questionava isso”. Foi uma mulher também que abriu espaço para se posicionar como negra e não era fácil”, afirmou Sônia.

Ela cumpria o que tinha que fazer, não importava quem fosse

Uma das fontes ouvidas pelo Boletim Brio guarda na memória o dia em que Vilma foi a uma das pastas do mais alto escalão do poder público para dar cumprimento a uma providência policial relacionada à proteção de uma mulher vítima de violência. O peso institucional daquele endereço não mudou a maneira como a delegada agiu. “Ela cumpria o que tinha que fazer, não importava quem fosse”, disse a fonte, que pediu sigilo.

Uma reportagem feita há quase 15 anos e compartilhada pelo jornalista Christian Souza mostra a determinação da delegada Vilma na execução do seu trabalho. As imagens acompanham o atendimento de uma denúncia de violência contra uma mulher, desde a chegada do caso à delegacia até a prisão do acusado, pouco mais de uma hora depois.

Além de protagonista, Pioneira no Piauí 

Zenaide Lustosa, ex-secretária de Estado das Mulheres do Piauí, encontrou Vilma em muitos dos espaços onde a defesa das mulheres ganhava forma de política pública. As duas estiveram juntas no Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, na construção de conferências e em encontros com mulheres no interior. Para Zenaide, o peso daquela trajetória começava no pioneirismo de uma mulher negra à frente da Delegacia da Mulher e se prolongava na disposição de continuar presente onde a luta exigisse.

A chegada de Vilma, recordou Zenaide, era percebida antes mesmo de ela começar a falar.

“Era uma mulher cuja chegada impactava no lugar. Todo mundo conhecia ela, sua história, era uma história de luta permanente. Então, ela mexe com toda a estrutura patriarcal quando assume esse papel. Porque não é fácil, mesmo você estando dentro da polícia, mesmo você sendo delegada, você estar nessa luta”, disse Zenaide.

Foto: reprodução/Instagram/Delegada Vilma.

A presença de Vilma não se restringia aos atos policiais. Ela participou da elaboração de políticas públicas. No conselho e nas conferências, não ocupava um lugar meramente protocolar. Estava ali para participar e dialogar.

“Ela não fez só esse papel. Ela foi conselheira do Conselho Estadual do Direito da Mulher. Então, a gente teve a oportunidade, em vários momentos, da construção das conferências. A gente ia realizar a conferência, estava lá junto, dialogando com as mulheres. Estava lá a delegada, participando”, contou Zenaide.

Presença de Vilma como delegada intimidava homens que insistiam em acompanhar mulheres na delegacia  

Na delegacia, o efeito daquela presença aparecia no acolhimento relatado pelas mulheres e na reação dos homens que, algumas vezes, acompanhavam as vítimas até a unidade. Zenaide guardou os relatos de quem viu a perseguição perder força quando Vilma estava diante do caso.

“Eu ouvi o depoimento de várias mulheres: ‘Eu cheguei na delegacia e o cara foi comigo, me perseguindo.’ Quando a gente chegava lá e a delegada estava, na mesma hora o homem recuava. Ela estava sempre defendendo as mulheres”, contou Zenaide.

Foto: reprodução/Instagram/Delegada Vilma.

Zenaide atribuía esse efeito não só ao fato de ser uma delegada, mas, à maneira firme como Vilma se pronunciava. Sua autoridade também estava na determinação com que apresentava uma posição e a sustentava.

“Ela tinha uma fala muito forte. Eu não digo que eles tinham respeito pela delegada, mas havia o impacto das falas dela no enfrentamento. Os homens recuavam pela firmeza, pela determinação. Quando ela abria a boca para falar, tinha essa deferência”, afirmou Zenaide.

Palavras que resumem a delegada são ética, coragem e determinação 

Essa determinação também se voltava para dentro da própria polícia. Zenaide recordou que Vilma enfrentou resistências na corporação e não relativizava o dever por causa da posição social ou do órgão público envolvido. “Ela não tinha receio. Fazia o papel dela com ética, com coragem, com determinação”, resumiu.

O mesmo percurso que a tornou referência no atendimento às mulheres levou Vilma à Corregedoria-Geral da Polícia Civil. Foi a primeira mulher a ocupar o cargo, responsável por fiscalizar a conduta de integrantes da própria corporação.

Em dezembro de 2021, aos 75 anos, Vilma se aposentou depois de 36 anos como delegada. O ato encerrou o vínculo formal, mas não alterou a rotina de escuta. Mulheres continuaram a procurá-la em eventos, nas ruas e em casa. Ela continuou participando de debates e ajudando a construir políticas. Em 2024, ainda em vida, deu nome à quinta turma do curso Defensoras Populares, da Defensoria Pública do Piauí, formada por 216 mulheres comuns, que aprenderam sobre direitos para auxiliar e levar informação para dentro das suas comunidades.

Foto: reprodução/Instagram/DPE

Para além da delegada, a mulher que gostava de dançar e nasceu no dia do samba  

Os cargos contam apenas uma parte de Vilma Alves. Nascida em 2 de dezembro, Dia Nacional do Samba, Sônia Terra lembra a amiga que adorava dançar. O Boletim Brio também buscou a família para ouvir mais desse lado humano de Vilma, mas, não obteve sucesso até esse momento.

Nas redes sociais, onde reunia mais de 10 mil seguidores, compartilhava livros, momentos com as filhas e as netas, encontros com a ex-governadora Regina Sousa e registros de sua atuação pública, como convites para falar na Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi), além de entrevistas. Na apresentação do perfil, uma frase resumia sua convicção: “Juntas somos mais fortes”.

Em 2025, Vilma foi embaixadora da Cardio Run. Em um dos vídeos da corrida, apareceu em casa passando café enquanto falava sobre viver. “A vida não é ficar deitada, se lamentando. A vida é correr, a vida é vencer, é achar que você tá ótima”, dizia. Era a mesma mulher que, segundo as fontes ouvidas, continuou enfrentando a violência mesmo depois da aposentadoria, porque compreendia aquela atuação como uma causa de vida.

Quem escreve esta coluna entrevistou Vilma diversas vezes, quando ela era titular da delegacia do Centro. Em uma dessas conversas, a delegada contou que a primeira mulher que defendeu foi uma prostituta, protegida por ela da maneira como os próprios policiais a abordavam. São pequenos relatos de uma vida inteira, cheia e profunda, à qual caberiam inúmeras outras histórias. Recordar Vilma é reconhecer sua importância para os direitos das mulheres e para o futuro que ajudou a construir, especialmente para aquelas que ainda encontrarão coragem nas portas que ela abriu.

Foto: reprodução/Instagram/Delegada Vilma.

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