Por Clara Pimentel e editado por Paula Sampaio
“A medida protege o público e não vejo o que contestar nisso. Minha atenção fica na fiscalização“, afirmou Tiago Peixoto, responsável pelo festival Piauí Pop, a respeito do decreto assinado pela Presidência da República, na quarta-feira, 02, que instaura em todo o país a necessidade de que todos os eventos com público a partir de mil pessoas garantam água potável aos participantes. O Boletim Brio buscou entender de quem trabalha no ramo de eventos no Piauí quais são suas visões a partir da nova regra.
O festival Piauí Pop, idealizado pelo publicitário Marcus Peixoto, pai de Tiago, reuniu milhares de pessoas em seus shows musicais, tendo mais de duas décadas de história. Desde 2023, o evento está sob o comando de seu filho, Tiago Peixoto. O coordenador disse, em entrevista ao Boletim Brio, que a área do entretenimento e shows recebeu a notícia com tranquilidade e concordância quanto à relevância da medida.

“A fase da discussão foi encerrada com o decreto. Quem vive de evento e hospitalidade, e acompanhou de perto o caso que levou a essa medida, recebe com naturalidade. Agora é uma questão de direito do consumidor e segurança do público. E esses nunca foram itens negociáveis para a gente”, destacou Tiago.
A questão já era incômoda
O problema da falta de fácil acesso à hidratação já era uma situação amplamente discutida na sociedade. O assunto se tornou destaque após a morte da jovem estudante Ana Clara Benevides Machado, de 23 anos, no show da cantora norte-americana Taylor Swift, em 2023. Ana Clara faleceu depois de passar mal por exaustão térmica. A capital carioca estava com temperaturas elevadíssimas na data do evento, e a produtora da festa não permitia a entrada de garrafas com água ou qualquer outra bebida.

A venda casada dentro do evento teve como consequência não só o bem-estar do público, mas ainda a vida de uma jovem estudante. Desde o ano do ocorrido, em 2023, o tema tem sido debatido, gerando cobrança para as autoridades responsáveis por garantir o conforto e a segurança da sociedade, que tem o lazer como um direito constitucional. A nova medida assinada pelo presidente assegura aos frequentadores de eventos culturais/musicais um direito que foi negado a Ana Clara no dia de sua morte: o de entrar no local portando recipientes com água.
Novas realidades com ticket
Kelson Alencar, sócio e proprietário da i9 Eventos, em entrevista ao Boletim Brio, destacou não apenas a questão da distribuição de água, mas também as mudanças que devem ser aplicadas no processo de compra e venda de ingressos. O responsável pela locadora de estruturas disse que concorda com a nova norma, mas que, querendo ou não, tudo acabará sendo refletido no valor dos ingressos.

“Quando tivermos os nossos próprios eventos, vamos, sim, disponibilizar (o ponto de hidratação), de acordo com a lei, e entendemos que esse custo termina sendo diluído no ingresso, onerando para quem, no final das contas, vai consumir. Vemos dessa forma. No nosso comércio e nas normas brasileiras, tudo que surge de ônus termina refletindo no preço final”, pontuou o empresário.
A empresa também é ticketeira, serviço especializado em gerenciamento e venda de ingressos. Sobre essa demanda, a empresa i9 Eventos cita que já possuía uma taxa única de serviço na compra de tickets online, o que agora é exigido pelo novo decreto: a obrigatoriedade de uma taxa unificada. Algumas outras plataformas de ticketeiras possuíam mais de um valor adicional, como taxas de conveniência e taxas de intermediação, o que, segundo o novo documento, agora é proibido. Kelson disse que trabalha com taxas entre 10% e 12% do valor do ingresso, mas que, nesse ramo, alguns valores podem alcançar até os 18%.
“Essas taxas são cobradas para o custo da operação de emitir um ingresso de maneira virtual.”

Para evitar o risco de ser vítima de cambismo, venda ilegal de ingressos por valores superfaturados, as empresas precisam limitar a quantidade de ingressos que podem ser comprados por pessoas, podendo permitir no máximo cinco. Passando desse valor, existe uma grande chance de uma pessoa possuindo quinze ou vinte ingressos vendê-los pela web ou mesmo nas proximidades do evento.
O contexto da novidade
As novas regras promulgadas no último dia 31 de agosto surgem em meio à necessidade de garantir segurança na compra e venda de ingressos, como uma das exigências da nova norma, que cobra um sistema seguro de alto número de vendas por parte dos sites oficiais de tickets. O reembolso integral em caso de cancelamento e a transparência de preços são mais algumas das novas medidas tomadas pela lei, que chega modificando o mercado do entretenimento brasileiro.
Para quem preza pelo entretenimento e costuma frequentar shows, festivais e grandes eventos variados, a medida soa como uma esperança de mais oportunidade de aproveitar seu direito ao lazer.
A garantia do básico
A estudante Ivete Araújo é uma jovem teresinense que contou, em entrevista ao Boletim Brio, que é uma fiel frequentadora de grandes eventos em Teresina, mas que sempre se sentiu afetada por não conseguir fazer algo básico: beber água! A jovem disse que, algumas vezes, para não enfrentar filas gigantescas, acaba tendo que lidar com a desidratação, o que, além de ser um risco à saúde, a impede de aproveitar as atrações.
“Gosto muito de ir a shows e não poder entrar com garrafinha de água ou chegar no evento e a água estar por um preço absurdo, e pior ainda, haver uma fila quilométrica e você simplesmente não poder conseguir comprar uma água. É coisa terrível”, relatou Ivete.

Por experiência própria, a estudante defende a existência da nova lei, pois, acima de tudo, é capaz de dar suporte na fomentação da cultura e uma garantia do básico, afinal de contas, certa parte do público não consome bebidas alcoólicas.É visível, portanto, que já havia urgência nas mudanças no processo de produção de eventos no Brasil. O que resta agora é a garantia de uma fiscalização eficaz, preocupação que o empresário Tiago Peixoto ressaltou.
“É um decreto muito importante porque envolve cultura e os jovens querem diversão e precisamos do mínimo: se hidratar!”

A hidratação sendo feita de forma livre e os ingressos possuindo valores justos pode ser responsável por um público que não está nos eventos pela falta dessas demandas simples, mas apenas agora projetadas. A expectativa é que a mudança ocorra na prática e o lazer possa ser acessado pelo máximo de pessoas possível.


