Qual será o futuro da Casa da Cultura, antiga residência do Barão de Gurguéia, patrimônio histórico de Teresina?

Por Clara Pimentel e editado por Paula Sampaio

Fechada ao público desde 2022 e ainda sem data definida para voltar a funcionar, a Casa do Barão de Gurguéia, a antiga Casa da Cultura de Teresina, aguarda novos encaminhamentos para ser reaberta no Centro da capital. Para esclarecer a situação do imóvel e as medidas previstas para sua recuperação, o Boletim Brio ouviu a Prefeitura, a Arquidiocese e o Governo do Estado, além de especialistas que desenharam a importância da construção para a preservação da história da cidade.

“O passado sugere rumos a seguir e ensina pela memória”, declarou o historiador e presidente da Academia Piauiense de Letras (APL), Fonseca Neto, a respeito da relevância histórica de um patrimônio como a Casa do Barão de Gurguéia. A estrutura, localizada no Centro de Teresina, possui quase 150 anos. A construção foi erguida para ser residência de João do Rego Monteiro, político e fazendeiro influente na ainda “Theresina” da época. Como homem público, o barão de Gurguéia teve grande interesse pelo desenvolvimento urbano da cidade. Já em Julho de 1986, houve o tombamento, uma política de preservação e valorização de bens imóveis de valor histórico.

O professor explicou, em entrevista ao Boletim Brio que um local como esse possui a capacidade de atribuir valor moderno aos feitos humanos do passado, os quais não devem ser menosprezados.

“A principal relevancia do patrimonio cultural-histórico é seu papel de infundir valor de atualidade sobre feitos humanos que não devem ser menosprezados com o passar do tempo e o justo aparecimento de novas experiências. O passado sugere rumos a seguir e ensina pela memória, o conhecimento, a história”, completou.

Historiador Fonseca Neto e Casa do Barão antigamente (Foto: Reprodução)

Segundo Fonseca Neto, Teresina sempre possuiu pouco conhecimento sobre seu próprio passado e, logo, nunca valorizou suas heranças como deveria.

A maior razão é a baixa estima da população de Teresina pelos bens culturais que a cidade vai elaborando em seu tempo e história”, pontuou também o presidente da APL. “Derruba-se símbolos arquitetônicos, árvores seculares, biografias. Teresina ainda conhece pouco de seu passado, no essencial. Pensa-se – a cidade – como se estivesse em permanente recomeço, e recomeço esquecido. Exemplo disso é a chamada Casa do Barão, depois Seminário e Residência dos primieros bispos do Piauí. Ela parece não querer dizer nada à consciêica citadina”, disse.

O Risco de perda

“Os prédios históricos de Teresina sofrem com política sistemática e organizada de apagamento e destruição para fins de especulação imobiliária, afirmou Iury Campelo, Cientista Político, pesquisador da Universidade Estadual do Piauí (UFPI), a respeito do abandono do local. O cientista político explica o relativo esquecimento e ausência de preservação do local como um risco de perda para as próximas gerações de teresinenses.

Casa do Barão em 1920 (Foto: Reprodução/ Acervo público do Piauí)

Perderemos mais um capítulo da história do Piauí que não chegará às gerações futuras”, pontuou Iury.

O cientista político ainda fez uma conexão entre o abandono, cada vez mais frequente do centro da capital, como agravante da situação. Segundo Iury, o fato do Centro estar passando por uma gradual perda de popularidade ocasiona a desvalorização de patrimônios tombados que estejam presente nessas localidades centrais da capital. “Na minha última pesquisa sobre os vazios urbanos e o colapso do Centro Teresina havia uma desocupação da ordem de 5% ao semestre“, concluiu o especialista político.

Casa do Barão atualmente (Foto: Reprodução/Wikipédia)

Quem se responsabiliza pela casa? Prefeitura, Arquidiocese e Governo do Estado…

Mas, afinal, de quem é a responsabilidade de manter esse patrimônio que, por meio de suas paredes, conta parte da história da capital piauiense? O Boletim Brio procurou diferentes órgãos e instituições que, ao longo dos anos, tiveram alguma relação com a antiga Casa da Cultura. A primeira delas foi a Prefeitura de Teresina. Por meio da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves (FMC), o município informou que o imóvel já não está sob sua gestão.

Não somos mais responsáveis pela Casa, atualmente todo o acervo se encontra na Casa de Cultura Dona Carlotinha”. esclareceu, através da assessoria de comunicação.

Atual Casa da Cultura de Teresina- Casa de Cultura Dona Carlotinha (Foto: Divulgação/Instagram)

Historicamente, a residência pertenceu à família do Barão de Gurguéia e, após a morte do político, foi adquirida pela Arquidiocese de Teresina. Em 1913, por meio de um acordo formal, o imóvel foi cedido à Prefeitura, que, décadas mais tarde, passou a manter no local a Casa da Cultura de Teresina. Essa gestão municipal permaneceu até cerca de cinco anos atrás, quando o imóvel voltou ao domínio da Arquidiocese. Procurada pelo Boletim Brio, a assessoria de comunicação da instituição religiosa informou, no entanto, que atualmente a responsabilidade pelo espaço não cabe exclusivamente à Arquidiocese, mas é compartilhada com o Governo do Estado do Piauí.

Dessa forma, o espaço se torna um patrimônio gerido em conjunto por duas partes.

“Estamos ainda em tratativas”

“Infelizmente estamos ainda tomando o pé da situação, expôs Rodrigo Amorim atual secretário estadual da Cultura do Piauí. O representante da secretaria informou que não recebeu o imóvel em boas condições pela gestão do Município.

Secretário da Cultura Rodrigo Amorim (Foto: Reprodução)

Rodrigo disse que o processo ainda está tramitando no jurídico e planeja um novo projeto para a casa junto com a igreja, ideias essas que ainda não podem ser divulgadas, segundo o secretário da Secult.

 “A prefeitura não cuidou do espaço. Prometeu a reforma e não fez, ela que alugava o espaço. A igreja nos apresentou a situação e estamos ainda em tratativas”, concluiu o líder da pasta.

Casa do Barão de Gurguéia como Casa da Cultura de Teresina ( Foto: Reprodução/Patrimônio Cultural do Piauí)

Resposta da Prefeitura

Procurada novamente pelo Boletim Brio sobre as afirmações do Secretário Estadual, a assessoria de comunicação da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves da gestão do prefeito Silvio Mendes, esclareceu a situação, pontuando que a Casa do Barão foi devolvida à Arquidiocese de Teresina durante a gestão do ex-prefeito Dr. Pessoa. “A gestão da Fundação Cultural Monsenhor Chaves não participou desse processo, concluiu a fundação.

Enquanto isso, a herança histórica segue fechada e despertando muita curiosidade de variadas gerações de Teresina, os avôs que a viram como residência religiosa, as mães que se deslumbram com um ambiente que exalava cultura e os filhos que hoje conseguem enxergar apenas um casarão fechado. Espera-se que a realidade destes últimos não dure muito e a capital piauiense tenha um pedaço da sua história revivida em outro tempo.

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