1h na parada de ônibus e risco de importunação sexual: relatos do que teresinenses vivem enquanto tentam chegar em casa

Mais de uma hora esperando o ônibus, o calor do B-R-O Bró que pode chegar mais de 40 graus e a incerteza da vinda do transporte. Essa é a realidade enfrentada pelos moradores de Teresina que usam o transporte coletivo. Depois de mais de noventa minutos de espera, o ônibus não vem. Entre perder o horário e usar as economias com veículos por aplicativo na capital do Piauí, as pessoas têm preferido gastar mais a continuar no sol sem ver suas conduções passarem no ponto.

O Boletim Brio foi até esses locais, entrevistou jovens estudantes que vivenciam diariamente essa experiência e trouxe o olhar de uma cidade que enfrenta a longa espera como uma parte inseparável do caminho que precisam percorrer na rotina.

A própria autora da reportagem

A história começa com a repórter Clara Pimentel, estagiária do Boletim Brio, que estava pronta para entrevistar algumas pessoas nas paradas de ônibus que frequenta na Zona Sudeste e no Centro de Teresina. Porém, o ônibus não passou, e a reportagem precisou ser adiada. Por isso, a repórter, assim como os demais estudantes tiveram que se deslocar de motocicleta naquele dia para chegar as respectivos destinos.

Parada de ônibus na Av. Frei Serafim (Foto: Reprodução/Clara Pimentel)

“Uma hora ou até mais”

O Boletim Brio entrevistou Jéssica dos Santos e Júlia Vitória, estudantes de Zootecnia e Física, respectivamente, da Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Às 12h30, na parada de ônibus que fica em frente ao setor de Biologia da universidade, na Rua Ceará, Zona Norte de Teresina, sentadas na pequena mureta da UESPI, as estudantes disseram que precisam passar uma hora ou mais do que isso aguardando a vinda do coletivo para poderem voltar para casa, na Zona Sudeste da capital.

“Pegamos o metrô pela manhã para chegar aqui e, para voltar para casa, demoramos de trinta a quarenta minutos no ônibus, mas aqui na parada é uma hora ou mais esperando”, afirmou Jéssica.

As estudantes também relataram já terem precisado pedir um transporte por aplicativo algumas vezes quando o ônibus não passava.

Parada de ônibus em frente a UESPI, Rua Ceará (Foto: Reprodução/Clara Pimentel-Boletim Brio)

O ônibus chega e, de repente, muitos jovens fazem um aglomerado em frente à porta do transporte. Alguns só querem se sentar, outros nem almoçaram ainda, porém todos possuem a mesma ansiedade de estar indo para casa. Entretanto, engana-se quem pensa que, após esses aglomerados de pessoas com a chegada de um ônibus, o ponto de espera fica vazio. Em menos de três minutos, vão chegando mais pessoas esperando a sua chance de ir para casa. Muitas delas passam o tempo conversando, como faziam Jéssica e Júlia, outras preferem fazer uma leitura, e o ciclo se repete o dia inteiro.

Sem o calor, a espera não seria tão ruim

Na Zona Sudeste de Teresina, o Boletim Brio conversou com a jovem Ana Letícia, que estava no ponto de ônibus sozinha no fim da tarde, aguardando um coletivo que a levasse de volta para casa, em um bairro que também fica no Sudeste da capital. A jovem disse que muitas vezes precisa fazer a mesma escolha já citada nesta reportagem: gastar dinheiro com moto por aplicativo depois de passar quase duas horas esperando o coletivo no calor forte.

Ana já estava vindo de um colégio particular que fica no Centro da cidade (outra condução) e disse ao Boletim Brio que fica apenas mexendo no celular e ouvindo música no fone de ouvido enquanto espera mais de uma hora pela vinda do coletivo. Mas um dos maiores incômodos relatados pela estudante foi o calor forte da cidade, especialmente nesse período do ano.

“O calor também… A espera é ruim, mas o calor é pior. Acho que, se não tivesse sol, esse calor até aqui, eu estaria de boa”, afirmou Ana Letícia.

A vulnerabilidade

Outra questão que Ana Letícia relatou ao Boletim Brio foi ter passado por uma experiência traumática com a importunação sexual, que é todo e qualquer ato humano realizado com o fim de satisfazer o desejo sexual, realizado isoladamente ou em relação a outra pessoa. O ato passou a ser crime em âmbito nacional por meio da Lei 13.718, de 24 de setembro de 2018.

“Já aconteceu comigo sábado agora também. Um homem se sentou do meu lado, no ônibus que eu peguei para ir à escola, e aí ele colocou a mochila (nas pernas) e começou a se tocar do meu lado”, relembrou a jovem.

Ana Letícia permitiu que fosse feita uma imagem mas preferiu não mostrar o rosto (Foto: Reprodução/Clara Pimentel-Boletim Brio)

Ana Letícia não chegou a comentar o que aconteceu depois; seu ônibus podia chegar a qualquer momento. Em março de 2026, a Prefeitura de Teresina, por meio da Secretaria Estadual das Mulheres (Sempi), promoveu uma ação contra a importunação sexual nos transportes públicos, pois a Secretaria declarou, em pesquisa, que os índices do crime eram mais recorrentes nos ônibus da cidade. Assim aconteceu o Dia M: Sem Importunação Sexual no Transporte Coletivo, nos dias 26 e 27 de março. No momento em questão, ocorreram didáticas interativas a fim de conscientizar a população teresinense sobre o problema.

Os trajetos do caminho

Entre músicas, livros e conversas de amigas na calçada, a espera pelo transporte é um trajeto do caminho diário de quem precisa se locomover pela cidade para estudar, trabalhar ou cumprir qualquer outro compromisso longe de casa. Esses relatos revelam um pouco do que acontece na vida dos teresinenses entre a espera e a chegada do transporte.

(Foto: Reprodução/Clara Pimentel)

O crime cometido contra Ana Letícia é um trajeto doloroso que deve ser devidamente combatido, pois, em meio à rotina de espera nas paradas de ônibus, surge também uma parte importante da história do usuário. Esse cotidiano cria amizades, permite momentos de leitura ou, ainda, um cochilo entre uma condução e outra. Esperar o ônibus em Teresina pode significar diferentes coisas para cada pessoa, mas, para as estudantes entrevistadas pelo Boletim Brio, revela uma via, muitas vezes de sofrimento e de obstáculos para os estudos em suas vidas.

Para quem depende do transporte público, a expectativa é que a chegada dos novos veículos reduza problemas que ainda fazem parte da rotina dos passageiros: longas esperas sob o calor, incerteza sobre a chegada dos ônibus e gastos extras com transporte por aplicativo, situações vividas com frequência por Jéssica, Júlia e Ana Letícia.

Como está o transporte público hoje?

No dia 14 de setembro, o Palácio da Cidade confirmou uma licitação para a compra de 96 ônibus que deverão ser incorporados à frota do transporte coletivo da capital. As mudanças já tinham sido anunciadas em 6 de agosto, quando a Prefeitura apresentou um projeto de renovação do sistema, com previsão de adquirir até 160 veículos, entre micro-ônibus e ônibus convencionais.

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