O primeiro turno das eleições de 2026 no Piauí terminou com a reeleição do governador Rafael Fonteles (PT) e mudanças de diferentes proporções no Legislativo estadual. A renovação foi de 26,7% na Assembleia Legislativa (Alepi) e de 40% na bancada federal. No Senado, Marcelo Castro (MDB) manteve o mandato, e Júlio César (PSD) conquistou a cadeira que era de Ciro Nogueira (PP).

A apuração de uma eleição envolve muitos números. Lidos em conjunto, eles ajudam a compreender as preferências do eleitorado e o que funcionou, ou deixou de funcionar, nos projetos políticos apresentados. Uma vitória ou uma derrota também dizem algo sobre a capacidade de articulação de uma candidatura. O resultado registra o que uma sociedade decidiu referendar naquele momento, entre as alternativas que teve à disposição. Para entender melhor o recado dos piauienses nas urnas, o Boletim Brio ouviu dois cientistas políticos.
Cada entrevistado respondeu a três perguntas. A primeira tratou do que considerou mais marcante no pleito. A segunda pediu uma avaliação da escolha dos representantes do Piauí na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional. A terceira abordou a eleição presidencial, que terá um segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O que foi mais marcante nas eleições de 2026 no Piauí?
Vitor Sandes destaca dimensão da votação de Rafael e resultado do Senado
A dimensão da votação de Rafael Fonteles e o resultado da disputa pelo Senado são os principais pontos destacados pelo professor e cientista político Vitor Sandes na análise do primeiro turno.
Doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e diretor do Centro de Ciências Humanas e Letras da UFPI, ele considera que esses resultados ajudam a compreender a atual organização das forças políticas no estado.
“Poderíamos dizer que o mais marcante não é a reeleição de Rafael Fonteles, que era esperada, mas a escala do resultado somada à derrota de Ciro Nogueira”, destacou.
Germano Moura analisa competitividade da disputa pelo Senado

A não reeleição de Ciro Nogueira foi o resultado mais marcante do pleito na avaliação de Germano Moura, mestre em Ciência Política e professor de Sociologia do IFPI. Ele destaca a competitividade da disputa e o apoio de prefeitos e lideranças do interior à candidatura do senador. Ele também pontuou que permanece também o fator histórico de nenhum político ter conseguido se eleger três vezes consecutivas para o Senado pelo estado. Ciro seria o primeiro a conseguir esse feito.
“Eram três candidatos com muito capital político e econômico, com muita estrutura envolvida. Até a última semana, as pesquisas apontavam um empate técnico, com possibilidade de vitória para qualquer um dos três. A envergadura política do senador Ciro Nogueira no interior do estado era muito grande, com uma quantidade enorme de prefeitos e lideranças que davam sustentação à sua candidatura. Mas a série histórica mostra que ser oposição no Piauí é muito difícil”, pontuou.
Segundo consulta feita pela Todavia a jornalistas com ampla experiência na cobertura política, no período republicano, Hugo Napoleão, Ciro Nogueira, Marcelo Castro e Petrônio Portella se reelegeram duas vezes consecutivas para o Senado pelo Piauí. Já o ex-governador e ministro Wellington Dias e o ex-governador Alberto Silva se reelegeram duas vezes em períodos intercalados.
Resultado pode indicar rearranjo das elites políticas, avalia professor
Germano também identifica na eleição um possível rearranjo das lideranças e das elites políticas do Piauí. Em sua análise, a primeira vitória de Rafael Fonteles esteve associada à liderança do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias (PT), enquanto a reeleição se apoiou na gestão e na articulação política do próprio governador.

O pesquisador inclui nessa leitura a não eleição de Vinícius Dias (PT), filho do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, para a Assembleia Legislativa. Ressalta, porém, que apenas os próximos anos permitirão avaliar se os resultados representam uma mudança duradoura na composição do poder estadual.
“O que coloca a renovação ou a possível renovação do ciclo da elite política no Piauí ou essa renovação da liderança política no Estado, que é o que nós podemos ter observado nessa eleição e se vai se concretizar nos próximos anos”, complementou.
O que a composição das bancadas eleitas para a Assembleia Legislativa e para o Congresso Nacional revela sobre o voto do eleitor piauiense?
Retração do PP e avanço do PSD chamam a atenção
Ao analisar a composição das bancadas piauienses, Vitor Sandes destaca as mudanças na representação do PP e do PSD em relação à eleição de 2022. O PP passou de sete para três deputados estaduais, perdeu uma cadeira na Câmara Federal e a vaga no Senado.
Já o PSD, que não havia elegido representantes para a Assembleia em 2022, em razão de um acordo com o MDB, conquistou cinco cadeiras estaduais, duas federais e uma no Senado. No Congresso, entre os eleitos está Georgiano Neto, filho do senador eleito Júlio César, que recebeu cerca de 234 mil votos e liderou a votação para deputado federal no estado.

Votação de Flávio não se traduziu em cadeiras para o PL, observa pesquisador
Vitor também aponta a composição da base governista, com 27 das 30 cadeiras da Assembleia, e a presença do PP como único partido de oposição representado na Casa. Outro aspecto é a ausência de deputados eleitos pelo PL nas bancadas estadual e federal, apesar da votação de seu candidato à Presidência. Flávio recebeu 517.028 mil votos no estado. 110 mil a mais do que o pai dele em 2022.
“A ausência do PL nas duas bancadas, embora Flávio Bolsonaro tenha tido 24% no estado: há um eleitorado bolsonarista no estado sem estrutura partidária que o converta em cadeiras”, disse.

Mulheres ocuparão quatro cadeiras na Alepi e nenhuma na bancada federal
A representação feminina é outro ponto destacado por Vitor. Das 30 vagas da Assembleia Legislativa, quatro serão ocupadas por mulheres. Na Câmara Federal, nenhuma mulher foi eleita para representar o Piauí, resultado que o pesquisador inclui entre os aspectos relevantes para compreender o perfil das bancadas escolhidas pelo eleitorado.
A deputada Gracinha Mão Santa, eleita pelo Progressistas em 2022, migrou para o campo governista e disputou a reeleição pelo MDB, mas ficou de fora da Assembleia Legislativa desta vez, com 13.659 votos. Já a deputada Bárbara do Firmino, que era do PP, não disputou eleição. O marido dela Breno Macedo (PV) disputou o pleito e assumirá uma cadeira ano que vem.

Eleitor manteve predomínio da bancada governista
Para Germano Moura, a composição das bancadas indica uma preferência do eleitor piauiense por candidaturas vinculadas ao governo estadual. Segundo sua avaliação, nove dos dez deputados federais eleitos estão alinhados ao Palácio de Karnak, incluindo representantes de partidos aliados que não integram a federação do PT.
Na disputa federal, chama atenção para o retorno do ex-governador Wilson Martins (PSD) e a eleição do delegado Charles Pessoa (PV). Germano associa a conquista da cadeira de Martins à votação de Georgiano Neto e identifica na chegada de Charles a entrada de um estreante na Câmara. Defendendo a bandeira da segurança e da atuação contra facções criminosas, o novo deputado teve ampla presença nas redes sociais, com mais de 1,8 milhão de seguidores no Instagram.

Analista considera família de Júlio César Lima a mais poderosa atualmente no Piauí
Esses resultados, somados ao desempenho do PSD na Assembleia e à eleição de Júlio César para o Senado, fundamentam a avaliação do professor sobre a influência da família Lima na política estadual.
“Ao ponto de considerar hoje a família Lima a família política mais poderosa do Estado, que reforçou também a sua base política na Assembleia com cinco cadeiras e reforçou a sua base federal com dois nomes na Câmara Federal e um nome no Senado”, avaliou.
O que a votação para presidente da República no Piauí revela sobre o comportamento do eleitorado?
Vitor aponta redução da vantagem de Lula em relação a 2022
Na avaliação de Vitor Sandes, a votação presidencial no Piauí manteve a preferência do eleitorado por Lula, mas apresentou mudanças em relação a 2022. O presidente ficou abaixo dos 74% obtidos naquele primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro superou os percentuais alcançados pelo pai nas duas etapas da eleição anterior. Em Teresina, o pesquisador observa que Lula manteve uma vantagem expressiva, embora a distância para o adversário tenha diminuído.
Votações de Rafael e Lula se aproximam no estado

Vitor também destaca a aproximação entre os percentuais de Lula e Rafael Fonteles. Em 2022, o governador recebeu cerca de 17 pontos percentuais a menos que o então candidato à Presidência. Nesta eleição, as votações foram praticamente iguais.
Diante do resultado nacional, em que Flávio terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, o pesquisador atribui ao Piauí um papel simbólico na campanha petista e considera que o envolvimento do governador será relevante no segundo turno.
“No segundo turno, o desafio de Lula no estado é de mobilização, de sinalizar a força do lulismo no estado, com a atuação mais nacionalizada de sua principal liderança política, de Rafael Fonteles”, pontuou.
Germano vê continuidade do apoio a Lula e crescimento do campo bolsonarista

Germano Moura interpreta a votação presidencial como uma continuidade do apoio do eleitorado piauiense a Lula, que recebeu cerca de 70% dos votos válidos no estado. O professor também identifica um crescimento do campo bolsonarista e considera que a atuação de lideranças locais alinhadas a Flávio Bolsonaro pode ter contribuído para esse desempenho, mesmo sem um palanque próprio na disputa pelo governo estadual.
2022 (Votação no Piauí)
- Lula (PT) — 74,25%.
- Jair Bolsonaro (PL) — 19,90%.
2026 (Votação no Piauí)
- Lula (PT) — 70,99%.
- Flávio Bolsonaro (PL) — 24,09%.
Abstenção chama a atenção do professor
Germano relaciona o resultado à preferência por candidaturas governistas nas disputas majoritárias, mas destaca também o número de eleitores que não compareceram à votação. Embora tenha sido o terceiro estado com menor taxa de abstenção, pelo menos 460 mil deixaram de votar em todo o estado no último domingo (04).
“E o que chama a atenção é que 400 mil eleitores deixaram de comparecer às urnas nesse primeiro turno, o que é um número muito expressivo para o nosso estado. E o Piauí segue a tendência de apoiar o governo no campo majoritário das eleições, tanto para governador como para presidente da República. Continua sendo um estado alinhado ao lulopetismo no Brasil”, avalia Germano.



