Depois da eleição presidencial do último domingo (25/10), ganharam força no Brasil campanhas de boicote a empresas por causa das posições políticas de seus proprietários, além de pressões pela demissão de funcionários em razão de suas escolhas eleitorais.
No Piauí, estado que deu a maior votação proporcional ao presidente Lula, circulam pelo WhatsApp listas de estabelecimentos classificados como “petistas” ou “bolsonaristas”, acompanhadas de apelos para que sejam boicotados. Comerciantes de Valença denunciaram à imprensa local tentativas de intimidação. Nesse ambiente, o voto deixa de ser uma escolha privada e passa a ser usado como critério para decidir quem pode vender, trabalhar e manter o próprio sustento.
Em Piripiri, uma chefe de cartório eleitoral foi exonerada após defender publicamente boicotes e demissões motivados por posições políticas. O presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí, desembargador José Wilson, afirmou que a conduta é incompatível com o dever de neutralidade da Justiça Eleitoral.
O empresário Roberto Ziegert, proprietário do Bob Z Resort, empreendimento hoteleiro no litoral piauiense, também se manifestou contra a discriminação de funcionários e colaboradores por suas convicções políticas.
“Essa polarização nefasta já cansou grande parte da população. O que está em jogo é o respeito ao ser humano, à liberdade de convicção e ao empresário, que já enfrenta inúmeros desafios para manter suas atividades e gerar empregos”, escreveu nas redes sociais.
Ninguém é obrigado a comprar de quem discorda. O boicote, inclusive, pode ser uma forma legítima de manifestação política. A questão se torna mais grave quando campanhas passam a estimular a intimidação, a perseguição ou a perda do emprego de alguém por suas convicções. A Constituição protege a liberdade de pensamento e de convicção política e estabelece o pluralismo como um dos fundamentos da República.
As consequências, porém, não se limitam aos alvos dessas campanhas. Uma empresa sustenta empregos, fornecedores e famílias que não necessariamente compartilham das opiniões de seus proprietários. O trabalhador pressionado por uma escolha eleitoral, real ou presumida, não disputou a eleição, mas pode acabar pagando por ela.
Há ainda um custo que não aparece nas notas fiscais: o medo. Empresários e trabalhadores passam a medir o que dizem, a esconder preferências e a evitar manifestações públicas. O silêncio, nesse caso, não resulta de uma proibição formal, mas do receio das consequências.
Enquanto alguns negócios aderem às campanhas de boicote, outros se posicionam contra elas. Ambos os movimentos revelam como a polarização política também passou a influenciar as relações de consumo e de trabalho.
A eleição define quem governa, não quem merece continuar trabalhando ou manter uma empresa aberta. A democracia começa no voto, mas também se prova no tratamento dado a quem votou diferente.


