Cinco pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI) estão na edição de 2026 de um levantamento internacional elaborado por pesquisadores ligados à Universidade Stanford, nos Estados Unidos, que identifica cientistas de maior impacto em suas áreas de atuação. A classificação considera indicadores como o número de citações recebidas pelos trabalhos científicos e reúne os 100 mil pesquisadores mais bem classificados por um indicador composto, além daqueles situados entre os 2% de maior impacto em suas respectivas subáreas.
Acesse a lista com o levantamento completo aqui.
O levantamento apresenta duas listas, uma que considera o impacto da produção científica ao longo da carreira e outra baseada nas citações recebidas em 2025. Na UFPI, Ademir Sérgio Ferreira de Araújo, da Agronomia, e Joel Rodrigues, da Engenharia Elétrica, aparecem nas duas classificações. Carlos Henrique Nery Costa, da Medicina, e Edson Cavalcanti da Silva Filho, da Ciência dos Materiais, integram a relação anual.
Já Rivelilson Mendes de Freitas, pesquisador da área de Farmácia que faleceu em 2015, aparece na classificação referente ao impacto ao longo da carreira.

O Boletim Brio entrevistou os quatro pesquisadores vivos que integram o levantamento para compreender quais experiências e decisões contribuíram para os resultados alcançados. As trajetórias revelam diferentes caminhos para a construção de uma carreira científica no Piauí e mostram como questões presentes na realidade do estado podem orientar investigações que despertam o interesse de pesquisadores de outros países.
Ademir Sérgio e as pesquisas sobre a desertificação no semiárido
Engenheiro agrônomo pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e doutor em Microbiologia do Solo pela Universidade de São Paulo, Ademir Sérgio Ferreira de Araújo dedica parte importante de suas pesquisas à compreensão dos efeitos da desertificação no semiárido. O fenômeno, caracterizado pela degradação das terras em regiões secas, compromete a qualidade do solo e pode afetar os organismos responsáveis por processos essenciais ao equilíbrio ambiental.
Atualmente, o pesquisador participa de dois projetos internacionais que investigam como essas transformações afetam os microrganismos presentes no solo. Ele também coordena a Caatinga Microbiome Initiative (CMI), uma rede que reúne cientistas brasileiros e estrangeiros interessados em compreender a biodiversidade microbiana da Caatinga. Outra frente de investigação envolve os bioinsumos, produtos de origem biológica que podem contribuir para a produção agrícola e reduzir a dependência de insumos químicos.

As pesquisas têm permitido identificar alterações na biodiversidade do solo e ampliar o conhecimento sobre grupos de microrganismos ainda pouco estudados. Para Ademir, os resultados também ajudam a dar visibilidade à produção científica desenvolvida no Piauí, especialmente em uma área na qual o estado ainda possui participação pouco conhecida.
“O nosso trabalho está desvendando o que acontece com a biodiversidade microbiana do solo pelo efeito da desertificação, trazendo inclusive conhecimentos novos de grupos microbianos pouco estudados. Para o Piauí, é importante, pois o estado é pouco conhecido na pesquisa científica na área de Ciências Agrárias, e isso coloca o estado em foco”, afirmou.
Um dos momentos decisivos de sua trajetória ocorreu em 2015, quando realizou um pós-doutorado na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. A experiência ampliou o contato com pesquisadores estrangeiros e abriu oportunidades para o desenvolvimento de projetos conjuntos, que contribuíram para aumentar a produção científica e o alcance de seus trabalhos.
“A partir de então, comecei a participar de projetos internacionais e interagir com pesquisadores parceiros no exterior. A produção científica aumentou e gerou mais impacto”, destacou.
Carlos Henrique Nery Costa e os avanços no estudo das doenças tropicais
Médico formado pela Universidade de Brasília, onde também concluiu o mestrado em Medicina Tropical, e doutor em Saúde Pública Tropical pela Universidade Harvard, Carlos Henrique Nery Costa começou sua trajetória científica investigando a doença de Chagas. Ao retornar ao Piauí, em 1984, encontrou uma epidemia de calazar, também conhecido como leishmaniose visceral, doença infecciosa que pode comprometer diferentes órgãos e levar à morte quando não tratada.
O contato com a realidade dos pacientes levou o médico a investigar a transmissão da doença em áreas urbanas e, posteriormente, os mecanismos que explicam seu desenvolvimento no organismo. Entre suas contribuições estão estudos sobre a intensa resposta inflamatória provocada pelo calazar e a identificação de fatores associados ao agravamento dos casos.

As investigações também contribuíram para o desenvolvimento, em colaboração com outros pesquisadores, de um modelo capaz de estimar o risco de agravamento dos pacientes. Segundo Carlos Henrique, esse conhecimento foi incorporado pelo Ministério da Saúde e ajudou a orientar a avaliação clínica da doença.
“Descobrimos que essa é uma das doenças de natureza inflamatória mais intensa, capaz de provocar alterações profundas no organismo. Nossas pesquisas contribuíram para compreender melhor esse processo inflamatório, que é um dos aspectos mais graves da doença. Esse conhecimento também tem ajudado a ampliar a compreensão de outras enfermidades”, explicou.
Ao avaliar a própria trajetória, o pesquisador destaca a importância de produzir conhecimento que possa contribuir para o atendimento de populações vulneráveis. Também chama atenção para os limites das classificações internacionais como medida da relevância de um cientista, lembrando que muitos pesquisadores desenvolvem trabalhos importantes sem necessariamente aparecer nesses levantamentos.
“O verdadeiro reconhecimento científico não é medido através desses pontos ou dessas classificações. Às vezes, é imensurável, pela forma como o conhecimento é difundido, como atua sobre futuros conhecimentos e acaba chegando, em algum momento, a uma medida prática que pode resultar no bem-estar das pessoas”, afirmou.

Para Carlos Henrique, a contribuição científica não se encerra na publicação de um estudo ou no reconhecimento recebido por seu autor. O conhecimento produzido pode orientar novas investigações e, ao longo do tempo, resultar em melhorias na vida da população. É esse processo que ele considera mais significativo em sua carreira.
Edson Cavalcanti e o desenvolvimento de materiais a partir de recursos do Nordeste
Licenciado em Química pela Universidade Estadual da Paraíba, mestre pela Universidade Federal da Paraíba e doutor em Ciências, na área de Química Inorgânica, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Edson Cavalcanti da Silva Filho ingressou na UFPI em 2006. Desde então, desenvolve pesquisas voltadas à criação de materiais com aplicações ambientais, agrícolas, industriais e na área da saúde.
Uma das características de seu trabalho é o aproveitamento de recursos naturais e resíduos agroindustriais encontrados no Nordeste. Matérias-primas como o caju e o babaçu são estudadas para o desenvolvimento de novos materiais, incluindo polímeros, substâncias que podem ser utilizadas na fabricação de diferentes produtos, e hidrogéis, materiais capazes de absorver e reter grandes quantidades de água.
As pesquisas procuram identificar possibilidades de utilização desses recursos em tecnologias que agreguem valor à produção regional. O aproveitamento de resíduos, por exemplo, pode contribuir para reduzir desperdícios e desenvolver alternativas mais sustentáveis para diferentes setores econômicos.
“Uma das características mais importantes das nossas pesquisas é buscar soluções tecnológicas a partir de recursos naturais e resíduos agroindustriais, especialmente aqueles encontrados no Nordeste brasileiro”, explicou.

Além dos resultados científicos, Edson considera a formação de novos pesquisadores uma das contribuições mais importantes de sua trajetória. Ele defende que o conhecimento produzido nas universidades esteja cada vez mais próximo das necessidades da sociedade, especialmente em regiões que apresentam desafios relacionados ao uso da água, ao aproveitamento de recursos naturais e ao desenvolvimento tecnológico.
Para os próximos anos, o pesquisador identifica oportunidades na criação de materiais biodegradáveis e inteligentes, no aproveitamento de fontes renováveis e na utilização da inteligência artificial para acelerar a descoberta de novos materiais. Também considera importante ampliar a aproximação entre universidades, empresas e produtores.
“Acredito que a universidade precisa estar cada vez mais próxima das empresas, dos produtores e da sociedade, transformando conhecimento científico em oportunidades de desenvolvimento econômico e social. Precisamos transformar nossas descobertas em soluções concretas, capazes de gerar benefícios econômicos, sociais e ambientais”, declarou.
Joel Rodrigues e a importância de formar equipes de pesquisa
Doutor em Engenharia Informática pela Universidade da Beira Interior, em Portugal, Joel Rodrigues é professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica da UFPI. Com uma trajetória de aproximadamente 30 anos, desenvolve pesquisas na área de tecnologias da informação e da comunicação, especialmente em ambientes inteligentes, internet das coisas, redes de comunicação veicular e aplicações tecnológicas voltadas à saúde.
Entre os temas investigados estão sistemas que permitem a comunicação entre dispositivos conectados à internet e tecnologias capazes de coletar e compartilhar informações de maneira automatizada. Essas soluções podem ser aplicadas em diferentes contextos, desde o funcionamento de cidades e veículos até o acompanhamento de pacientes e o desenvolvimento de serviços de saúde.
Ao relembrar os momentos mais importantes da carreira, Joel destaca a criação de grupos de pesquisa e a formação de equipes. Depois de concluir o doutorado, em 2006, organizou seu primeiro grupo de investigação. Em 2016, criou outro dedicado à internet das coisas e, em 2019, constituiu uma equipe na UFPI.
Para o pesquisador, o reconhecimento internacional é resultado de um processo que envolve a colaboração entre profissionais de diferentes instituições, a formação de estudantes e a continuidade dos projetos científicos.

“Existem, de fato, marcos importantes de reconhecimento ao longo dessa trajetória, mas eles são resultado de um trabalho em equipe, da capacidade de reunir e atrair pessoas talentosas e, sobretudo, do compromisso de transformar vidas por meio da tecnologia e da educação”, afirmou.
Joel também atribui importância às relações de confiança estabelecidas com estudantes, pesquisadores e instituições ao longo dos anos. Essas parcerias permitiram ampliar a circulação dos trabalhos desenvolvidos e criar oportunidades de colaboração no Brasil e no exterior.
“Isso me tem levado aos quatro cantos do mundo, espalhando conhecimento e partilhando o trabalho que a gente realiza”, destacou.
A experiência do professor mostra como a construção de grupos de pesquisa pode contribuir para a continuidade da produção científica e para a formação de profissionais que passam a desenvolver suas próprias investigações. No caso da UFPI, a participação em redes internacionais também amplia as possibilidades de intercâmbio de conhecimentos e de desenvolvimento de projetos conjuntos.
Embora atuem em áreas distintas, os quatro pesquisadores compartilham experiências que ajudam a compreender como se constrói uma carreira científica. A formação de equipes, a continuidade das investigações e a colaboração com instituições de outros países aparecem como elementos recorrentes em suas trajetórias. No Piauí, essas experiências também mostram que problemas presentes na realidade regional podem orientar pesquisas de interesse internacional, enquanto o conhecimento produzido nas universidades encontra possibilidades de aplicação na agricultura, na saúde e no desenvolvimento de novas tecnologias.



