Boletim 11/02/25

O xadrez de Chico, Bandeira e Marcelo: como jogam os (pré)candidatos a vice de Rafael1

“No Piauí, o jogo vira,

A escolha está no ar,

Três nomes fortes na disputa,

O povo atento a esperar.

Chico Lucas, entre sorrisos,

Com carisma a circular,

Seu nome vem ganhando ecos,

Mas sem pressa de gritar.

Washington, na educação,

Com trabalho bem marcado,

Mostra serviço constante,

De forma firme e dedicado.

Noleto, confidente fiel,

Ao lado do governante,

Tem seu lugar na história,

E demonstra ser confiante.

Enquanto o vento sopra leve,

E as peças vão se alinhar,

Há quem diga, bem baixinho,

Que o escolhido logo, logo vai despontar.”

Por Senhor Konstantin.

A poetisa que a autora mais admira é Wisława Szymborska (polonesa ganhadora do Nobel de Literatura de 1996). Wislawa tem profundidade filosófica, ironia sutil e uma abordagem aparentemente simples aos temas mais complexos da existência humana. Assim mesmo, nem Wislawa conseguiria descrever tão divertidamente a acirrada e silenciosa disputa de bastidores pela vaga de vice do governador Rafael Fonteles na chapa de 2026. 

O autor desse criativo poema (?), ou repente (arte poética-musical que se caracteriza pela improvisação de estrofes), que a coluna reproduz, com autorização, é um arguto observador político, colaborador anônimo do boletim. Vamos chamá-lo, até que surja nome melhor, de Senhor Konstantin2

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É assim que se joga xadrez

No tabuleiro político, o jogo começa: um deles é o bispo, movendo-se suave, cortando diagonais com precisão. O segundo, como torre, avança sólido, sem desvios, defendendo posição. O terceiro é o cavalo, pulando obstáculos num caminho que é incerto. Qual gambito vai funcionar?

O rei, observando cada peça, protege o xeque final. Escondendo a escolha feita ou deixando cada um jogar? Peões políticos avançam, mas quem chegará à última casa? Se a escolha for sutil como um vento a soprar, quem será que o jogo vai coroar?

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Três perfis

Mesmo depois de conversar com dezenas de pessoas, essas parcas linhas apenas arranharam a superfície3. Ser vice de um governador que pode, se reeleito, deixar o mandato para 1) disputar o Senado em 2030, ou 2) ser ministro de um governo nacional de esquerda (caso esse governo seja eleito, óbvio) é estar diretamente na cadeira melhor posicionada para os próximos anos de perspectiva (atenção, perspectiva!) de poder. 

Vamos elaborar um pouco mais, na certeza de que muito ainda ficou de fora*:

Washington Bandeira – A equipe de comunicação de Washington Bandeira talvez só não seja maior do que a do próprio governador. Bandeira está em todo lugar. Para quem assiste seus stories no Instagram, é incansável nas agendas, divertido com os alunos e aberto aos políticos que o procuram. Muitos compromissos são ao lado da primeira-dama, Isabel Fonteles. Nada disso passa desapercebido por quem vive na política. 

“É o mais parecido com o Rafael”, aponta ao boletim um ex-estudante do Dom Barreto, que conhece todas as peças de xadrez, justificando sua aposta em Bandeira para vice. Ser parecido com Rafael, dentro do Governo, é um baita elogio: significa raciocínio rápido, firmeza, clareza de propósito. Um deputado, por sua vez, faz leituras frias (deduções sobre psicologia) e costuma acertar: “Pra mim, o vice é o secretário de Educação, porque toda a agenda positiva do Governo está com ele, não pega desgaste, como o Chico (Lucas)”.

Washington precisou tirar, gradativamente, o véu de inacessibilidade de magistrado – cargo tão almejado e admirando socialmente – que abdicou para embarcar no projeto político do amigo de infância, Rafael. Hoje, arrisca postar uma selfie na academia e compartilha os filmes que assiste com a esposa, médica, aos finais de semana no shopping Rio Poty. Nos próximos meses tem dois desafios: aproximar-se do mundo político, que ainda o olha com um certo distanciamento (estão se conhecendo agora, afinal), e traduzir em imagens e sons: quem é Washington Bandeira?

Chico Lucas – Ninguém tem dúvidas de quem é Chico Lucas. E essa é uma questão com complexidade e nuances. As pautas difíceis estão com ele. As positivas (tecnologia, regularização fundiária, parte da articulação política), tangenciam sua influência, mas ele não leva o crédito, (quase) ninguém sabe. Fez carreira por conta própria quando se elegeu presidente da OAB-PI, em 2015, quebrando hegemonias do Direito piauiense (era bem avaliado, mas declinou de tentar a reeleição, outro trajeto peculiar).

Os petistas e o mundo político prefeririam que nenhum secretário de Rafael fosse candidato vice-governador. Gostariam de escolher um deles próprios. Não tendo essa opção na mesa, a balança pende a Chico. “Consegue resolver as coisas sozinho, entende da política”, explica, em reserva, um deputado sobre sua preferência pelo ex-presidente da OAB-PI.

Chico Lucas era uma criança inteligente no interior do Piauí. Reza a lenda, que sabia nomes e bandeiras de dezenas de países com facilidade. Impressionava os adultos. Entrou no Dom Barreto como bolsista. É um Rafaboy diferente.

Nas redes sociais, Chico não joga o jogo de Rafael, Washington e Marcelo Nolleto. Nada muito bem elaborado, pouca plástica, é tudo um pouco cru, como o próprio Chico. O secretário visivelmente faz algumas legendas de próprio punho, parabeniza amigos, de vez em quando mostra as filhas pequenas, reposta sucessivamente ações da secretaria de Segurança e do governador. Não quer uma seta sob a própria cabeça. Não é um cara de Instagram, pessoalmente prefere consumir o X (ex-Twitter) e a efervescente discussão política de lá.

Chico Lucas fala muito, conversa com todo mundo. Mas ninguém sabe, realmente, o que pensa e como joga o enigmático Chico Lucas. Será esse seu trunfo?

Marcelo Nolleto – É no mínimo ingênuo quem pensa que o secretário estadual de Governo não está no jogo de vice. Marcelo Nolleto equilibra mil pratos enquanto tenta não perder o que faz dele uma personalidade carismática: quem o conhece bem diz que é divertido, tem sacadas e, acima disso, a confiança do andar de cima. 

Marcelo possui, no entanto, uma tarefa inglória: atender todo mundo, absorver todas as queixas, segurar todos os pepinos… ele está entre o mundo e o governador. Não tem quem fique nessa posição sem alguns respingos e petardos. Os políticos querem ser atendidos hoje, e não amanhã, querem as ligações retornadas agora e não mais tarde. Nolleto tenta, mas sabe que é impossível agradar todo mundo. 

Se antes, o Marcelo virtual era um postador serial de agendas e cumprimentos políticos, algo mudou nas redes sociais do secretário. Tem aparecido mais, com conteúdo produzido para mostrar sua presença onde o Estado tem ações (como na crise das enchentes em Picos). Não é a postura de um secretário de Governo comum, talvez porque Nolleto não seja mesmo. Se não for vice, pode ser deputado federal, primeiro suplente de senador e muitas outras coisas. O que ninguém aposta, sob risco de perder, é que o secretário de Governo ficará fora do jogo.  

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O dia mais caótico da minha vida

O leitor lembra daquela história em que o prefeito Sílvio Mendes (UB) e o vice-prefeito Jeová Alencar (Republicanos) iriam receber a população uma vez por semana no Palácio da Cidade? Pois bem, um servidor da Prefeitura que acompanhou o primeiro dia do atendimento, ainda no mês passado, deu um depoimento para o boletim: “Saí de lá 23h. Nem o X (um ex-prefeito) teve essa ideia macabra… Só sobrou pra mim!”.

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Vamos esquecer esse assunto pelo amor de Deus

Na fila, tinha mais de mil pessoas, relata o funcionário que teve a sorte de estar no Palácio da Cidade. 90% do povo queria entregar currículo. Sílvio, que tinha agenda externa no dia, passou o cetro para Jeová, que ficou no grosso do atendimento, relembra o servidor. Tentaram desafogar: uma parte seria atendida pelo vice-prefeito e outra por servidores da PMT. Ninguém quis ir pra ala dos servidores, sobrou para Jeová… Alguém sabe, aliás, se os atendimentos ainda estão rolando?

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Se conselho fosse bom

O comportamento de algumas pessoas, às vezes nos fazem questionar se o mundo é vítima de algum agente causador de disfunção cognitiva em massa. Algumas regras básicas: 1) O poder é tomado, não dado. Ninguém lhe dá poder. 2) O topo da montanha é solitário. O estresse e a pressão são inevitáveis. Os que passam a vida evitando qualquer tipo de adversidade, vão ser engolidos pelos que abraçam os obstáculos para ficarem mais fortes com eles. 3) Você sempre deve se mover antes de estar pronto. As pessoas que esperam ter mais recursos ou melhores circunstâncias para agir, nunca agem. Essas são leis da natureza, não vão mudar.

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Cifrada da Confiança

Um rei e um príncipe vivem em silenciosa dança de poder nos corredores de um palácio. O rei, super sincero, brinca na frente de uma plateia restrita, sobre a fama do príncipe, que está na sua linha sucessória: “O povo diz pra eu não confiar nele, mas eu confio sim. Só tenho cuidado de tomar nem um café que ele me oferece!”, brinca, deixando entrever a verdade do que pensa. O príncipe, por sua vez, se esforça para demonstrar que mudou. “Não é mais a mesma pessoa”, falam os aliados, que o sentem mais duro, sempre negando propostas irrecusáveis que, porventura, insistem em chegar à sua mesa. O rei observa os passos do príncipe: será ele digno de sucedê-lo? O príncipe, trabalha para não errar. Afinal, cascas de banana caem do céu nesse palácio.

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Foto do dia

Brasília está congestionada. Batem na porta do PDT nacional, alegando que o ex-vereador Evandro Hidd (na foto abaixo com o vereador do PDT de Teresina, Fernando Lima), hoje diretor-geral da Assembleia Legislativa do Piauí, não segura a legenda. O União Brasil está na mão do prefeito Sílvio Mendes, que demonstra, com atos e discursos, não estar a fim de um confronto direto com o governador Rafael Fonteles: quer administrar a prefeitura de Teresina sem atropelos eleitorais que o prejudiquem. E o PL? “Dá para conseguir o PL?”, questionam deputados, ex-deputados e demais interessados no tema. A sigla tem muitos recursos, que é o que vale no final. 

A tal fusão cruzada é uma opção na mesa de partidos médios. O jogo dos partidos está totalmente aberto e nem mesmo a fusão cruzada MDB e PSD é uma certeza. Integrantes das duas legendas fazem, em reserva, planos A, B e C. Recomendados pelo andar de cima a migrarem para o PT na disputa eleitoral de 2026, outros dois políticos da base, ambos de siglas médias, articulam as mais diversas estratégias para não irem. “Vão ‘me matar’ lá!”, explica um deles ao boletim. Morrer, na linguagem política, é não ter mandato.

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A frase para pensar

Ser um zero não é, necessariamente, uma desvantagem na França”, Nicolas Sarkozy (1955-), ex-presidente da França, sobre a força política de alguns adversários com propostas simplórias para o país.

  1. Neste novo ano, espere da colunista mais experimentos, esquisitices e tentativas (a palavra “ensaio” significa “tentar”). Sim, continue também esperando o tipo de análise um pouco mais científica e cultural a que você está acostumado. É bom estar fundamentado, assim como é interessante ser mais do que isso também. Se não nós, quem? Se não agora, quando? ↩︎
  2.  Konstantin Levin, protagonista de Anna Karenina, do russo Liev Tolstói. A colunista está lendo Tolstói, não tem nenhuma pista aí, foi só o primeiro nome masculino que me veio à mente. ↩︎
  3. Como disse Paulo Maluf, ex-governador de São Paulo: “As pesquisas que temos feito com os indecisos indicam que nós temos a maioria dos indecisos”.  ↩︎

Sávia Barreto

Sávia Barreto, jornalista, fundadora e diretora-geral do Boletim Brio. Mestra em Comunicação, pesquisou Análise de Discursos e Eleições na Universidade Federal do Piauí. Cursou Doutorado em Políticas Públicas (Ufpi), estudando desigualdade de gênero. Graduada em Comunicação Social na Universidade Estadual do Piauí. Estudou Ciências Sociais (Ufpi). Tem MBA em Comunicação Política e Sociedade pela ESPM, São Paulo. Integra o grupo de estudos “Estratégia, Dados e Soberania” na UNB e é diretora de Comunicação Estratégica da ONG “Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics”, em Brasília, onde reside. Com 17 anos de experiência em redações do Piauí, trabalhou nos últimos dois anos como comentarista e colunista de política em Brasília. Trabalha com consultoria em branding e gerenciamento de reputação digital na Brio Comunicação Estratégica.
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