Imóveis de alto padrão: histórias sobre como os ricos pagam até R$7 milhões para morar em Teresina
20/02/2025
Uma venda milionária por semana, clientes do Agronegócio, das bets [jogos de apostas] e donos de grandes empresas. Os dias mais intensos de trabalho são geralmente os sábados e domingos. Ele mesmo edita os próprios vídeos e faz o tráfego pago no Instagram, plataforma onde é pioneiro na criação de conteúdo imobiliário no Piauí. Já foi vendedor de loja de roupa, de carros e até curso de teatro decidiu fazer para aprender a se comunicar bem. Hoje tem a própria imobiliária e em 2024 afirma ter vendido R$60 milhões, mas garante que não foi um dos melhores anos.
A coluna Ápice conversou com o corretor de imóveis Zé Neto sobre o mercado de imóveis de alto padrão no Piauí e traz histórias, o perfil dos clientes e curiosidades sobre como se comporta a elite local quando o assunto é escolher onde morar.
Imóveis de alto padrão em Teresina- Foto: Instagram/ Zé Neto
“Comecei há 12 anos. Sempre trabalhei com vendas. Comecei trabalhando numa loja de roupas, a Lara’s. Eu passei lá e vi um cartaz quando eu tinha 18 anos. Tinha vaga de vendedor, me candidatei e comecei lá vendendo roupas. De lá, fui vender carros na Hyundai, do Grupo Jelta, e lá tive contato com meu primeiro produto high ticket (alto valor do produto) que era uma marca importada. Fiquei lá durante quatro anos. Até que eu vendi um imóvel para o dono de uma imobiliária e ele me pescou para trabalhar com ele na imobiliária Evaldo Matos”, relatou Zé Neto.
O corretor de imóveis Zé Neto – Foto: Shelda Magalhães/ Boletim Brio
QUANDO O CLIENTE FOGE
A média das comissões pagas para corretores é de 5% sob o valor do imóvel. 90% das vendas de Zé Neto vêm da internet, dos anúncios patrocinados de imóveis. A produção de conteúdo digital começou em 2018 e hoje conta com mais de 130 mil seguidores no Instagram. Ele acredita que o mercado não está saturado, mas em plena expansão.
“Vejo que muitos colegas corretores miram no alto padrão por conta das comissões gordas. Aí é o primeiro erro: colocar o dinheiro na frente. Se o cliente perceber, ele foge de você. O corretor para vender alto padrão ele tem que vivenciar isso, estar no ambiente do cliente. Ele tem que se comunicar como o cliente dele, conhecer pessoas assim, se relacionar com pessoas assim, frequentar lugares. Ele tem que viver um pouco assim. Não adianta criar um personagem e dizer que vai vender alto padrão e não ser um pouco isso. Quando eu falo viver um pouco o alto padrão é sobre ter experiências. Tem uma hora na venda que quanto menos tu falar da venda é melhor”, explicou Zé Neto.
A HISTÓRIA DA MALA
Dentre as muitas histórias vivenciadas nos últimos doze anos, as negociações irreverentes dos clientes chamam a atenção. “Teve um cliente que chegou para olhar a casa e foi com o dinheiro todo dentro de uma mala, R$2 milhões de reais. Ele chegou lá e botou em cima da mesa e conseguiu convencer o cliente a vender pelo preço que ele queria. A casa era R$2,8 milhões, a gente conseguiu fechar nos R$2 milhões (risos)”, relembrou.
O PRÉDIO MAIS CARO DA CIDADE EM LANÇAMENTO: R$ 7,5 MI
O mercado dos bens de luxo vive uma fase de crescimento em todo o Brasil. E o reflexo do aquecimento deste mercado é sentido até mesmo no Piauí, o terceiro estado mais pobre do país com dados do Produto Interno Bruto (PIB) per capita de 2024, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Ápice visitou o apartamento decorado do La Reserve, um dos prédios mais caros de Teresina, que está em fase de construção. De acordo com o corretor Zé Neto, são 42 apartamentos disponíveis, destes restam vender apenas sete para vender.
“É na zona Leste o metro quadrado mais caro da cidade, onde os lançamentos imobiliários acontecem. Durante muitos anos foi aqui na Ilhotas, na região do bairro Por Enquanto. A construtora Sá Cavalcante está vindo para revitalizar essa área. Hoje o prédio mais caro da cidade é aqui, o La Reserve, de lançamento. A cobertura sempre vende primeiro. São poucas unidades e sempre chama atenção numa cidade que não tem tantos prédios comerciais como Teresina. A cobertura é a joia do empreendimento. Essa daqui do La Reserve demorou um pouquinho para sair, mas a gente estava falando de R$7,5 milhões”, contou o corretor.
O apartamento decorado do La Reserve Teresina – Foto: Boletim Brio
O QUE É UMA VENDA SOFRIDA NO MERCADO DE LUXO? ELE EXPLICA
De acordo com o relatório Consumer Market Outlook, do Statista, o mercado de bens de luxo no Brasil deverá crescer a uma taxa anual de 5,4% até 2027. Mesmo assim, Zé Neto alertou à Ápice que o que ele mais tem são histórias de vendas sofridas para contar.
“Venda sofrida, que foi difícil vender, que demorou seis meses. O timing da compra de produto de alto valor é demorado. Eu falo muito para a minha equipe que essa história de que fiz um anúncio, o cliente viu, liga dizendo ‘quero a casa’ e vai e compra. Isso é folclore, isso não existe! O que existe é briga de negociação, é um mês de negociação. Às vezes, os clientes brigam no meio da negociação. Eu não coloco cliente vendedor e comprador na frente um do outro. Só coloco em última instância porque às vezes eles brigam em negociação. E acabam brigando por bobagem, por R$50 mil, R$100 mil. Não que sejam valores pequenos, mas num montante de R$4 milhões isso não é quase nada”, destacou.
O ESTILO TERESINENSE DE COMPRAR IMÓVEL
Por outro lado, segundo os corretores ouvidos, o mercado de Teresina revela traços de uma população mais “tradicional”, adepta aos modos de fazer negócio do século passado.
“A situação mais inusitada aconteceu recentemente quando um cliente comprador escreveu em um rascunho a proposta de pagamento e, após a análise do cliente vendedor, ele aceitou, e assinaram o próprio rascunho. Apertaram as mãos. O cliente vendedor saiu da sala com o pagamento no sinal e o cliente comprador com as chaves do imóvel. Obviamente, formalizamos tudo em contrato, com as cláusulas e as devidas assinaturas formais e com suas autenticidades. Porém, foi um negócio que pareceu muito como os ‘negócios feitos no fio do bigode’, como na época dos nosso avós”, mencionou à Ápice o corretor de imóveis de alto padrão, Francisco Neto.
O corretor de imóveis Francisco Neto- Foto: Reprodução/Instagram
RICOS E NOVOS RICOS
Popularizou-se na internet, especialmente na rede social Tiktok, expressões como old money (dinheiro velho) e new money (dinheiro novo). As expressões são utilizadas principalmente na moda, mas nas rodas de conversa se expandem e ganham outros contornos. Old money ilustra os ricos que nasceram ricos e que vêm de uma geração com alto poder econômico, geralmente associados a um estilo minimalista. Já os new money é a geração que ascendeu agora, os primeiros ricos da família, e que costumam ser descritos como um público que gosta da ostentação. A coluna questionou Zé Neto se essa configuração também chega aos públicos consumidores de imóveis de Teresina.
“Gosto dos dois (risos). A nossa cidade é bem tradicional. A gente tem famílias que vêm de gerações e a gente sabe que têm grana. E existe um público muito forte disso, de médicos, advogados. E tem essa galera nova da internet, que está surgindo muito forte, que são os novos ricos. Para mim, essa é a interpretação. Isso vem crescendo muito no Brasil todo. Eu tenho cliente que mexe com bitcoin, trader, blogueiro, cliente de bet. Esse pessoal está alavancando o mercado. É quem faz as maiores compras hoje, é quem está movendo bem esse mercado hoje aqui em Teresina. Esse pessoal vem como um exponente gastador a mais do que o tradicional. Tipo, ‘tem um produto muito caro, vou nele’. São pessoas gastadoras, que pagam bem, que tem um alto poder aquisitivo”, pontuou o corretor de imóveis.
Zé Neto em entrevista à Coluna Ápice – Foto: Boletim Brio
MUDANÇA DE BAIRRO APÓS PANDEMIA DE COVID-19
Nos últimos anos, com a chegada de grandes condomínios de casas ao Piauí, a exemplo dos empreendimentos do grupo Alphaville, instalado no bairro Uruguai e Gurupi, na saída de Teresina pela BR 343, o público com maior poder aquisitivo que morava historicamente em bairros como Joquéi e Fátima passou a migrar para esses outros tipos de moradia.
“Nos últimos anos a grande mudança, que foi um divisor de águas, foi a pandemia do COVID-19 que trouxe mudanças de hábitos e necessidades de ambientes que antes não eram tão comuns em imóveis e principalmente a preocupação com as áreas sociais dos imóveis. Hoje os ricos de Teresina moram em condomínios de casas de luxo, como: Alphaville, Terras Alphaville, Aldebaran Ville, Verana Teresina e novos empreendimentos como esses vêm surgindo e atraindo o mercado. Mas também moram no Jóquei, onde tem o m² mais valorizado da capital”, informou o corretor de imóveis Francisco Neto.
Casas de condomínios de alto padrão em Teresina – Foto: Reprodução/ Zé Neto
JÓQUEI AINDA É BAIRRO VALORIZADO E DISPUTA É POR APARTAMENTO DE 200 M
“Os ricos moravam antigamente no bairro Ilhotas, onde houve a primeira verticalização de prédios residenciais as margens da Av. Marechal Castelo Branco. A principal disputa hoje é no bairro Jóquei, pela escassez de terrenos e oportunidades de novos lançamentos. A principal busca é por apartamentos maiores acima de 200m²”, completou à Àpice, Francisco Neto.
SÃO CRISTÓVÃO É SEGUNDA OPÇÃO
A coluna apurou que as construtoras estão começando a explorar com mais intensidade o bairro São Cristóvão, como reflexo do desenvolvimento da região onde estão instalados os empreendimentos Alphaville.
“Isso acontece porque esse miolo do Joquéi está muito caro e já não tem tantos terrenos, visando chegar na área da cidade ‘Alpha’. O Alphaville tem essa característica de desenvolver regiões. A gente tem o Alphaville 1, o Terras Alphaville que já foi entregue, tem o Alphaville Piauí que está pertinho, e o Terras que já vai sair. Futuramente vai ter prédios ali. A cidade vai se empurrar toda para lá. Ali vai ser o futuro e na minha cabeça já o presente no segmento de condomínios horizontais. Mas ali é o futuro também dos empreendimentos verticais. No Alphaville, a gente tem as casas mais caras porque são lotes maiores. Lá a gente tem casa de dois, três lotes, de onze suítes. São casas que como a gente tem essa configuração acabam elevando o nível do condomínio. Dos clientes que moram lá, você vê que realmente está a nata da cidade”, analisou Zé Neto.
Segundo Zé Neto, quem mora no Alphaville tem condição de morar em qualquer lugar da zona Leste. Mas nem todo mundo que mora na zona Leste tem condição de morar no Alphaville. “Hoje, qualquer casa no Alphaville é R$3 milhões. A nata da cidade mora no Alphaville. Um lote é R$1 milhão. A casa mais barata é R$3 milhões”, afirmou.
Casa no Alphaville Teresina avaliada em R$4,1 milhões – Foto: Instagram/Zé Neto
MAIORES COMPRADORES A Ápice apurou com corretores de alto padrão e traz quem são os compradores mais frequentes do mercado de imóveis de alto padrão do Piauí.
1. Empresários do Agronegócio 2. Empresários de diversos ramos que investem em imóveis 3. Empresários que enriqueceram com a internet 4. Público tradicional que tem imóveis como investimentos – médicos, advogados e herdeiros 5. Políticos
ATUAÇÃO DO CRECI O presidente do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis (CRECI), Pedro Nogueira Lima, relatou à Àpice que a principal pauta de atuação é no combate ao exercício ilegal da profissão, uma prática de contravenção penal que aflige não só os corretores, mas toda a sociedade.
“Muita gente aproveita o mercado imobiliário para aplicar golpes e a gente está aqui para proteger, para impedir, e se ocorrer, fiscalizar, levar a penalização, levar à Justiça e eventualmente levar aquela pessoa a responder por isso. Ninguém compra imóvel sabendo de tudo, então as pessoas que vão comprar, alugar, avaliar, geralmente são leigas”, destacou Pedro Nogueira Lima.
O presidente do CRECI, Pedro Nogueira Lima – Foto: Reprodução/Instagram
FUTURO
Mas, afinal, para onde caminha o mercado do Piauí neste segmento? De acordo com os corretores ouvidos pela Ápice, a expectativa é para um crescimento do setor nos próximos anos. Puxando as vendas para cima, estão os investimentos no Agronegócio, que geram um aumento na procura por imóveis no interior e na capital, por ser o centro referência em saúde e outros serviços da região.
“Nós temos um mercado que está em plena expansão. A gente está numa cidade que pela quantidade de habitantes ainda tem muito para crescer. A gente vai ter muita casa para vender, são muitos lançamentos. Os colegas corretores que persistirem vão fazer muitos negócios nos próximos anos. A dificuldade característica de Teresina é que a gente não tem muitos clientes. Os clientes são poucos e disputados no mercado. Acabam sendo os mesmos porque ainda não temos um turismo forte, nem indústria para movimentar. Muita gente acredita que só os políticos podem comprar essas casas, mas eles só representam de 15% a 20% da minha clientela”, narrou Zé Neto.
Vale destacar os impactos do mercado imobiliários na economia do estado. Toda a distribuição que envolve os insumos da construção civil interfere no Produto Interno Bruto (PIB) local.
“A gente tem identificado que quando o mercado imobiliário é valorizado, a economia do Piauí cresce e a geração de empregos também. Hoje em dia, a gente tem uma especificidade aqui no Piauí, que é a fronteira agrícola. Tivemos nos últimos anos o Sul – Bom Jesus, Uruçuí. Floriano, Baixa Grande do Ribeiro, essas principais polos se destacando com o mercado agrícola e as pessoas do Brasil inteiro enxergando o Piauí com um grande potencial de fronteira, não só agrícola como também de agropecuária. E agora, nós temos a fronteira agrícola expandindo para o norte. Tudo isso agrega dentro do mercado imobiliário. São terras que são compradas, adquiridas ou arrendadas e a gente está envolvido nesse dinamismo atualmente”, ressaltou o presidente do CRECI, Pedro Nogueira Lima.
Shelda Magalhães
É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
1 comentário
andre bezerra
Excelente matéria!