O Piauí está correndo (literalmente). Segundo levantamento da página esportiva local Corre Piauí, já são mais de 266 corridas realizadas no estado em 2025, consolidando o crescimento desse tipo de evento. De provas tradicionais, como a Corrida da Polícia Rodoviária Federal, que reuniu 1.800 atletas em setembro, a estreias como a Ajust Run, o calendário piauiense de corridas se tornou movimentado. O investimento para eventos de médio porte é de em média R$120 mil. Dos desafios no trânsito ao calor incessante, Teresina tem capacidade para sediar grandes corridas? Histórias a seguir.
Trânsito e estrutura: desafios
De acordo com Thiago Monteiro, diretor da empresa X Crono, especializada em cronometragem e suporte técnico de eventos, o crescimento das corridas de rua no Piauí ainda esbarra com desafios estruturais, como as concessões para os espaços públicos e mudanças no trânsito.

“A corrida é uma atividade democrática, acessível, que atrai tanto iniciantes quanto atletas experientes. Mas os desafios ainda são grandes, desde o fechamento de avenidas até a logística de trânsito e o fornecimento de água em grande escala. A cidade possui espaços excelentes, como a Ponte Estaiada e o campus da UFPI, mas precisa avançar em mobilidade e licenciamento para comportar grandes eventos”, pontuou o organizador.
Corridas não se pagam com inscrição
Para quem organiza corrida, o discurso é que a realização por parte das marcas é mais uma divulgação da empresa do que uma estratégia para obter lucro.
“Os desafios são muitos. Do ponto de vista financeiro, os custos com estrutura, segurança, kits, medalhas e logística são altos, e nem sempre os patrocínios conseguem cobrir todas as despesas. A taxa de inscrição, sozinha, não paga o evento como um todo. Do ponto de vista estrutural, há desafios com o trânsito das avenidas de Teresina, as licenças, a fiscalização, o fornecimento de água em grande escala e a necessidade de garantir uma experiência positiva para cada atleta, o que é sempre um grande desafio”, contou Thiago Monteiro.
O empreendedorismo na pista
A empresária Gabriella Lages, dona da marca de confecção esportiva Ajust, encontrou na corrida uma forma de fortalecer o nome da empresa. Na primeira edição da prova, realizada neste ano, 380 atletas participaram. Para Gabriela, o desafio maior foi a logística.
“Eu já tinha feito eventos como campeonatos de beach tennis e aulas de bike class, mas queria algo que conectasse ainda mais com o público esportivo. Foi aí que criei a Ajust Run. Tem a parte do trânsito, da segurança, da hidratação, das licenças… É muita coisa. Mas tudo aconteceu direitinho. Dependendo da época do ano, a gente precisa começar mais cedo, às vezes 5h30 da manhã, pra fugir do sol forte. Cada detalhe conta”, completa a empresária.

A estratégia da maratonista
Para a maratonista Mara Cardoso, a corrida foi essencial para superar uma depressão. Amante dos esportes e professora de Educação Física ela é a paulista, mas vive no Piauí. Nas fotos das largadas das principais provas do estado, se você procurar, certamente vai encontrá-la. Além do pódio, onde acumula troféus de competições. Entre elas, o primeiro lugar geral nos 10 km da Track&Field Night Run, realizada pela primeira vez no aeroporto de Teresina, este ano.
Ela também já participou de duas maratonas no Rio de Janeiro e considera o Desafio Cidade Maravilhosa, no qual correu 21 km e depois 42 km em dias seguidos, “a melhor experiência da vida”.

“As provas longas têm um espaço especial no meu coração, no sentido de que cada quilômetro percorrido é como viver algo novo, é como descobrir algo dentro da gente. Correr uma maratona não é fácil, até o início, a gente vai bem, mas depois do quilômetro 30 começa a ficar difícil. E, a partir dali, eu sempre dedico cada quilômetro que falta a uma pessoa da minha família, a alguém especial que faz parte da minha vida. Isso me dá força para continuar até o fim”, narrou Mara Cardoso.
Falta de educação dos motoristas teresinenses é obstáculo
A corrida deixou de ser só esporte e virou expressão. As provas também movimentam as redes sociais. Fotos, vídeos e reels de largadas, medalhas e superações pessoais tomam conta do Instagram a cada fim de semana. Mas no asfalto, não é só close e tem perrengue também.
“Existe falta de respeito de alguns motoristas com os corredores e ciclistas, e isso ainda é um problema sério. Além disso, o calor e as rotas sempre muito repetidas porque nem sempre é fácil liberar novos percursos, acabam limitando as opções de prova. Para que as corridas daqui se aproximem do padrão dos grandes centros do Brasil, acredito que é preciso mais apoio e divulgação. Por exemplo, a Corrida Delta é uma prova maravilhosa, que merecia estar no nível das maiores do país. Falta união e incentivo da cidade para fortalecer ainda mais esse movimento esportivo”, destacou a maratonista Mara Cardoso
Não é só performance
O perfil do corredor piauiense também mudou. Antes, as provas reuniam principalmente atletas de alta performance. Agora, há corredores que buscam lazer, saúde e pertencimento. A diversidade é um dos maiores trunfos dessa nova fase: quem não lembra da idosa que viralizou correndo de vestido na Avenida Marechal Castelo Branco?
As assessorias esportivas também têm papel central nesse crescimento, ajudando corredores a treinar com regularidade e transformar a corrida em hábito de vida. Sem subestimar o impacto econômico, os empregos gerados e ampliados com a expansão desse mercado.
Tendência para 2026
Com o calendário de 2025 quase todo preenchido, os organizadores já miram o futuro. Em que momento estamos? A tendência nacional para 2026 é que o número de eventos aumente ainda mais, com um novo destaque: o triátlon (nada, pedala e corre), que deve ganhar força e espaço entre os esportes de resistência. Se uma quantidade significativa de atletas já “domina” uma modalidade, é hora de buscar outra coisa.
Segundo Thiago Monteiro, 2026 promete ser o ano dos eventos multiesportivos, com integração de corrida, ciclismo e natação. “A tendência é nacional, e o Piauí deve seguir esse movimento. Estamos estudando novos percursos e provas temáticas que valorizem os pontos turísticos e fortaleçam o turismo esportivo”, finaliza.
O hábito da corrida ganhou tantos adeptos porque, em termos simples, a corrida faz as pessoas felizes. Não é preciso entrar na explicação científica das substâncias liberadas ou dos efeitos hormonais; o fato é que estar ao ar livre, em movimento e em comunidade cria hábitos sustentáveis, e eles só se mantêm porque há prazer no processo. As redes sociais, é verdade, transformaram as corridas em palco de comparações: pace, looks e corpos. Mas é importante lembrar o essencial: correr é sobre aproveitar o processo, sobre o que ele tem de mais valioso, com ganhos à a saúde física e mental, a leveza nos dias e o bem-estar que transforma rotinas inteiras.

Além disso, a corrida movimenta um ecossistema econômico: fotógrafos que ampliaram seus serviços, educadores físicos que encontraram nas assessorias de corrida um novo mercado, marcas que se conectam a um público fiel e engajado. Que possamos, no Piauí, reconhecer também os desafios, como o calor, os custos de investimento, a falta de divulgação e a necessidade maior incentivo governamental, para que esse ambiente esportivo continue crescendo, com fôlego e otimismo.





