Os melhores escritórios de advocacia do PI comandados por mulheres e advogadas com expressiva atuação: uma lista da tradição e da nova geração

A Coluna Ápice aborda nessa edição especial os desafios de mercado e os destaques da advocacia feminina no Piauí. Na coluna da semana passada, foram publicadas duas listas com os nomes dos escritórios de advocacia mais bem posicionados do Piauí. E, é verdade, só constavam figuras masculinas. Motivos: os (as) advogados (as) entrevistados (as) citaram apenas escritórios comandados por homens. Ao Jornalismo cabe a missão de retratar a realidade, ainda que desigual, firmado no pilar da verdade, e não de criá-la.

Em nome da transparência com os leitores, destaca-se que a metodologia de confecção das listas é a menção pelos próprios pares. Cabe à Ápice, em conversa com algumas dezenas de advogados, filtrar, analisar o posicionamento de mercado e imagem, e chegar a uma seleção. Essas são as únicas formas de ter o nome citado aqui. O fruto desse trabalho é um produto jornalístico e não publicitário.

A coluna dessa semana traz duas listas, sob o critério de escritórios comandados por mulheres mais bem posicionados do estado e/ ou com expressiva atividade profissional no cenário jurídico atual. A principal metodologia (mas não a única) é a citação pelos próprios pares. Para além disso, trazemos histórias, desafios e nuances que compõe o cenário de quem vive a advocacia feminina no Piauí. Da escassez de direitos à ascensão aos espaços de poder e decisão.

Os escritórios tradicionais de advocacia do Piauí comandados por mulheres mais bem posicionados e/ou mulheres advogadas com expressiva atividade profissional no cenário jurídico atual  (de acordo com a percepção de advogadas (os) ouvidas (os) pelo Boletim Brio. A lista foi posta por ordem alfabética)

Adriana Carvalho
Amparo Rodrigues Advogados Associados
Andreia Araújo
Andreya Macêdo
Audrey Magalhães Advogados Associados
Benta Reis
Conceição Carcará Advocacia
Ednan Coutinho
Geórgia Nunes Advogados Associados
Hillana Martina Lopes (Araújo e Lopes)
Lilian Firmeza
Margarete Coelho (vinculada ao Uchôa Magalhães)
Martalene Anjos
Mourão Eduardo Advocacia
Naiara Morais Advocacia
Noelia Sampaio Advocacia
Paranaguá Advocacia (Cláudia Paranaguá e Isabella Paranaguá)
Stael Freire Sociedade de Advogados

Foto: Montagem/Boletim Brio

Nomes da nova geração com atividade profissional expressiva e/ou escritórios de advocacia da nova geração, comandados por mulheres, mais bem posicionados no Piauí (de acordo com a percepção de advogadas (os) ouvidas pelo Boletim Brio. A lista foi posta por ordem alfabética)

Alice Belli Advocacia
Arielly Pacífico
Carla Berenice Advocacia
Costa & Albuquerque Advocacia
Heloísa Hommerding Advocacia
Ivilla Araújo Advocacia Especializada
Joselda Nery Advocacia
Larissa Rabelo Advocacia
Luanna Portela Advogados Associados
Marcelle Pizzato Advogados Associados
Marenize Leite (Advocacia Macena Advogados Associados)
Martha Brandão (Brandão Carvalho Advocacia)
Michelle Amorim Advocacia
Nara Letícia Advocacia
Raylena Alencar
Taísa Cavalcante Advogados
Tácia Nunes Cavalcante Advocacia
Vasconcelos e Siqueira

Foto: Montagem/Boletim Brio

“DISPUTAR ESPAÇO PELO INTELECTUAL”

Há trinta e seis anos, quando a advogada Cláudia Paranaguá formou-se em Direito era muito pequeno o número de advogadas no Piauí. Não havia escritórios comandados por mulheres, ela recorda. “Eu fiz uma carreira só, uma carreira muito individualizada, porque o movimento de mulheres ainda não era organizado”, afirmou à coluna.

Por adotar uma postura de tecnicismo, relata que não sofreu episódios marcantes de discriminação na época, mas sentiu um certo preconceito quando decidiu ser mãe. “Mesmo tendo apoio, quando eu tive a minha primeira filha, eu pensei, agora não tem como, estou aqui dedicada a ela”.

A advogada familiarista Cláudia Paranaguá foi a primeira presidente da Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Piauí. “O movimento de mulheres ainda não era organizado. Então, era um direito que nem existia, a gente não colocava isso em pauta. Então, eu desenvolvi minha carreira de forma solo, sabendo que para minha sobrevivência, eu iria me destacar, se fosse extremamente técnica, se a gente trabalhasse muito bem com a letra jurídica e tudo mais. Então, eu fiz uma estratégia para eu estar disputando o espaço de forma intelectual”, relatou.

Advogada Cláudia Paranaguá – Foto: Reprodução

SUPERVALORIZAÇÃO DA BELEZA, UM PRECONCEITO?

A advogada destaca uma postura de proteção contra assédios e possíveis insinuações masculinas. Para ela, foi determinante o diálogo e o compartilhamento de vivências com outras mulheres para identificar os traços de machismo estrutural que estão enraizados nas relações de trabalho.

”Eu não sentia muito a discriminação ali no meu dia a dia, porque eu também adotei a postura de muito tecnicismo, de não admitir, porque até a postura em que você se apresenta, ela modifica a forma de ser tratada. Então, eu acho que, desde nova, eu me impus muito nessa forma de respeito, de igualdade. No dia a dia, eu não tenho esse sentimento. Mas quando conversarmos com outras mulheres, que eu vi outras mulheres falando, outras mulheres relatando, a gente vai ver o quanto que no dia a dia a gente não percebe”, citou Cláudia Paranaguá.

Historicamente, o lugar das mulheres foi um lugar de silêncio. Aos homens, o poder, o foco à vida profissional e a razão. Às mulheres, o lugar do cuidado, do servir e dos sentimentos. A supervalorização da beleza feminina nasce numa lógica utilitarista ao masculino. Uma ode à aparência e esvaziamento da validação pelo conteúdo, pelas ideias, pelo ouvir o que se tem a dizer. Objetificar uma mulher é limitá-la às oportunidades de ascensão. Quando se escolhe falar sobre a estética e o corpo de uma mulher, automaticamente se escolhe silenciar sobre tantos outros aspectos que a ela também caberia a descrição.

“De repente, alguma insinuação, pode acontecer, de se ligar mulheres à aparência, de fazer comentários da aparência da mulher e não da sua intelectualidade quando ela está desempenhando aquela função de profissional e intelectual. No dia a dia, a gente não vai perceber, mas aquilo ali tudo reflete, de certa forma, um preconceito. É como se você, num ambiente que é profissional, você trazer qualidades como beleza. Não é ambiente para se estar avaliando beleza”, analisou Cláudia Paranaguá.

ENGOLINDO SAPO NUM AMBIENTE INÓSPITO

Nas eleições para a Prefeitura de Teresina, em 2024, a advogada eleitoralista Ivilla Araújo ganhou projeção ao comandar juridicamente a campanha do atual prefeito Silvio Mendes. Antes disso, trabalhou fazendo recursos a tribunais superiores, foi para o Direito Imobiliário, fechou um escritório e decidiu recomeçar apostando no Direito Eleitoral. À Ápice, ela contou que as conquistas vieram “engolindo muito sapo” ao longo de 13 anos de carreira e que é a primeira pessoa com ensino superior da família.

A advogada Ivilla Araújo – Foto: Reprodução

“Depois de ter fechado o escritório, eu fui ser chefe de gabinete de um deputado. E, por consequência, no período de 2020, foi bem no período de expansão do Partido Progressistas, eu fui convidada por um membro do partido a dar uma consultoria de um mês. E disso eu nunca mais deixei o partido, nem deixei a área de eleitoral”, mencionou Ivilla Araújo.

Sobre as barreiras de gênero, por atuar num ambiente predominante masculino, Ivilla relatou algumas vivências que ilustram o cenário no estado e a situação mais desafiadora: “Foi me fazer respeitar como uma advogada, como uma mulher advogada. Eu vou te dizer que foi engolindo muito sapo, fingindo que não estava vendo muita coisa, lhe dizendo bem a verdade. Do jeito que eu encontrei muitos ambientes inóspitos, encontrei também ambientes extremamente decentes e acolhedores. Então, eu digo que é um misto disso”, falou.

Entre os aspectos pessoais para manter-se nesse meio, a advogada destacou a persuasão como característica importante nos relacionamentos e trato com os clientes. “Eu te confesso que eu tenho muito uma qualidade de conseguir dialogar bem com todos os ambientes. Então, eu tenho muito essa característica de conseguir convencer homens a tomar determinadas determinadas decisões. Já fui muitas vezes não ouvida, não deixaram ser colocado o meu lugar de fala, mas sempre me mantive ali. E na oportunidade que eu tive, eu consegui mostrar meu trabalho. A oportunidade que eu tive, eu conseguia ir lá e aproveitar. Mas isso realmente não é uma regra. Eu costumo dizer que é uma exceção”, citou Ivilla Araújo.

AS MULHERES CONTRA AS MULHERES?

Advogada há 40 anos, Conceição Carcará chegou a Teresina aos 19 anos, vindo da cidade de Barras. Ela confirma que eram poucas mulheres advogando na capital e afirma ter sofrido com perseguições de defensoras e advogadas criminalistas quando começou a exercer a profissão.

“As defensoras, que só tinham três ou quatro, elas ficavam com raiva, porque eu aparecia. Elas eram advogadas criminalistas, e de repente eu apareço advogada. Elas tinham o chamado delas. E eu fazia a minha parte. Então, eu sentia, assim, essa rejeição, porque eu era feia, pobre e mal desenhada. Mas eu não tinha medo, eu tinha coragem, e eu não recuava ante a nenhuma discriminação. Com relação aos homens, todos me tratavam bem. Nunca recebi nenhuma cantada. Nunca fui assediada, nem por magistrado, nem por promotor. Pode ser até que passasse algo na cabeça deles ou falassem alguma coisa, mas ou eu não entendia ou me passava despercebido. Eu não tenho tempo para isso, né?”, revelou à Ápice, Conceição Carcará.

A advogada Conceição Carcará – Foto: Reprodução

O cenário de acirramento entre as mulheres, segundo Ivilla Araújo, continua atual. Seria esse um reflexo das poucas oportunidades dadas no acesso ao poder às mulheres advogadas no Piauí?

“Eu acho que hoje o discurso feminista, ele é um discurso muito demagogo. A maioria das mulheres que eu encontrei dentro do meu ambiente de trabalho são mulheres que não priorizavam dar uma oportunidade para outras mulheres. Muito mais do que encontrar barreiras entre homens, encontrar barreiras entre mulheres. Muitos ambientes são inóspitos, muitos ambientes eu sou interrompida no lugar que fala. Quando você está entre homens, você tem que ter a paciência de ser ouvida, quando você está num ambiente masculino. Mas o ambiente em que você é mais tolhida, é num ambiente que você está entre mulheres”, narrou Ivilla Araújo.

NÃO SER LIMITADA A FILHA DE ALGUÉM

Natural de São Raimundo Nonato, a advogada previdenciarista Nara Letícia, afirma que 90% do seu escritório hoje é composto por mulheres. “Só temos um homem na equipe, um estagiário”, comentou à coluna. Filha de um advogado, ela afirma que sempre quis trilhar um caminho próprio e ter sua história, sem ser limitada à descrição de filha de alguém.

A advogada Nara Letícia – Foto: Reprodução

“Olha, as barreiras de gênero, elas estão aí todos os dias, em despachos que as mulheres vão fazer presenciais, ainda vemos muitas situações de assédio. Eu no início da minha advocacia percebia isso, mas nunca sofri assédio. Meu pai me contava que o receio que ele tinha é que eu fosse aquela pessoa que fosse conhecida, ‘olha, a filha do doutor Raimundo, o advogado’. E eu advogando na Justiça Federal, ele chegou certa vez para despachar um processo na vara federal e disseram assim, ‘olha, ali é o pai da doutora Nara’. E ele disse que foi o momento que mais teve orgulho na vida, quando ficou conhecido como o pai da doutora Nara, não eu como a filha. Eu acho que é o sonho de todos os pais, que os filhos criem asas e construam a sua história”, relatou Nara Letícia.

E SE A MULHER QUISER SER MÃE?

Mãe de dois meninos, a advogada revelou que também sentiu receio do preconceito do mercado quando tornou-se mãe. E que, desde então, passou a ser uma meta pessoal, não deixar com que a restringissem a apenas um rótulo, quando sentia-se apta para atuar em diversas frentes.

“Eu advoguei até os nove meses de gravidez. Tive partos normais, nove meses e eu estava fazendo defesa e sustentações orais. Eu fui derrubando todas essas dificuldades após o nascimento dos meus filhos. Muitas pessoas achavam, porque eu estava na OAB na época [ foi secretária-geral adjunta da OAB-PI], que eu iria me licenciar, que eu não iria dar conta. Me perguntavam sempre que dia que eu iria me licenciar para que colocassem outra pessoa em meu lugar, enquanto eu ficava tomando conta dos filhos. Mas não precisei. Dez dias, eu acho que não cheguei nem aos dez dias. Eu já estava na OAB participando de reuniões e advogando”, recordou Nara Letícia.

DESAFIOS PERSISTENTES

A advogada Geórgia Nunes analisa que o cenário atual da advocacia feminina no Piauí é marcado por avanços significativos e desafios persistentes. Ela destaca uma crescente representatividade das mulheres em posições de liderança dentro da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Piauí (OAB-PI). Além disso, oito subseções passaram a ser presididas por advogadas, e quinze mulheres assumiram vice-presidentes de subseções.

A advogada Geórgia Nunes – Foto: Reprodução

“A desigualdade de gênero ainda é evidente em diversos aspectos da profissão. Dados nacionais indicam que, embora as mulheres representem 56% dos advogados até 40 anos, elas ocupam apenas 34,9% das posições de sócias de capital nos escritórios. Essa disparidade também se reflete na remuneração, com uma diferença significativa nos rendimentos entre homens e mulheres na advocacia. Pessoalmente, ao longo da minha trajetória profissional, enfrentei situações que evidenciam o machismo estrutural presente na sociedade e na advocacia. Desde questionamentos sobre minha capacidade técnica até a necessidade de provar constantemente minha competência em ambientes predominantemente masculinos”, pontuou Geórgia Nunes.

“PARECE QUE SOMOS MENORES”

A secretária-geral da OAB-PI, Noélia Sampaio, retrata uma realidade de dificuldades de gênero inerente à trajetória feminina na advocacia local. “O que parece é que ainda somos ‘menores’, por mais que estudemos mais, nos qualifiquemos mais. O nosso poder de decisão, por exemplo, presume-se sempre questionado. Ainda temos passos longos a dar, digo como advogada e como mulher. Ainda é forte a discriminação que permeia no nosso meio, muitas vezes até por outras mulheres, dependendo do ponto de vista e cultura que traz consigo. É preciso nos dedicarmos mais à pauta de gênero, mas com ações práticas, nos despindo de julgamentos e nos concentrando apenas em apoio umas às outras”, opinou.

A advogada Noélia Sampaio – Foto: Reprodução

CENÁRIO NA OAB

É papel do Sistema OAB atuar dentro das competências que lhe cabem para diminuir as desigualdades de gênero inerentes ao exercício profissional da advocacia. O esforço precisa ser conjunto e contínuo. Nas mais diferentes esferas, essa é uma luta que persiste há séculos, e, que, ainda assim, avança lentamente.

“Em 2020, foi criado o Provimento nº 202/2020 da OAB, que estabelece que as candidaturas para as eleições devem ter 50% de cada gênero e 30% advogados negros (as). Em 2017 a OAB- PI reconheceu Esperança Garcia como primeira advogada do Piauí. Logo em seguida, em 2022, a OAB Nacional também fez esse reconhecimento, o que foi um marco para a inclusão em diversas OAB´s por todo o país. Hoje temos um pouco mais de diversidade, a exemplo da OAB-SP que tem três conselheiras federais titulares, temos também mais conselheiras e diretores negros nas esferas estadual e nacional. E claro, tendo representatividade, torna-se mais fácil diminuir a desigualdade”, avaliou Noélia Sampaio.

“DIREITOS APENAS CONSTITUCIONAIS”

Para o futuro, um caminho de progresso pode ser visualizado. Não há mudanças rápidas quando trata-se de cultura, mas há mudanças viáveis, que começam como sementes e têm potencial para crescerem fortalecidas. Isso, quando há união, consciência do cenário, da sua própria condição e dos desafios destes tempos. Otimismo infundado não quebra barreiras. Todos os destinos, em termos de avanços, passam pela educação.

“Não é só indicar a mulher, é indicar uma mulher para um cargo que ela possa fazer a diferença. Essa diferença vem a partir de comando, de poder de decisão e a gente vê pouco isso. A gente precisa olhar para os nossos ministérios, as pastas mais significativas não são de domínio das mulheres. Olhar para as nossas secretarias, para o nosso Legislativo. A gente só consegue ver que algo está fora de ordem, quando a gente olha todas essas casas do poder Executivo e Legislativo . É como se fosse um guarda-chuva. A gente avançou muito, mas a gente avança lentamente. A gente tem direitos iguais, mas são direitos iguais só constitucionais, eles não estão na prática sendo contemplados”, concluiu Cláudia Paranaguá.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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