Piancó, 309 Bar e Hiper Bompreço… Por que bons negócios fecham as portas no Piauí? Um raio-X das pedras no sapato

Num relato emocionado, a chef de cozinha piauiense Lorena Dayse surpreendeu à audiência ao anunciar o fechamento do Restaurante Piancó, em fevereiro deste ano, através das redes sociais. Ela foi a vice-campeã do programa de culinária promovido pela TV Band, Masterchef, em 2019. A fama nacional e o comprovado – no reality- domínio técnico da gastronomia, despertou o desejo de montar seu próprio restaurante em Teresina, inaugurado em 2021.

Lorena Dayse – Foto: Montagem/Boletim Brio

A história ilustra os desafios de manter um negócio relevante e lucrativo no mercado piauiense. Em entrevista à Ápice, Lorena Dayse citou as instabilidades econômicas, as dificuldades logísticas e a falta de mão de obra qualificada como obstáculos. A coluna também conversou com empresários de diversos segmentos e traz um panorama do cenário do empreendedorismo local.

A visibilidade atingida em um programa de televisão nacional é um inconteste ativo de diferenciação no mercado. A credibilidade técnica adquirida após a análise criteriosa de jurados de alto nível também. Por outro lado, gargalos de gestão pesaram na decisão de encerrar as atividades do Piancó, segundo Lorena Dayse.

GESTOR TEM QUE SER ATÉ PSICÓLOGO NUMA COZINHA

“A cidade tem um público exigente, que valoriza tanto a comida afetiva quanto a inovação — e isso me motivou a entregar sempre o meu melhor. Entre os principais desafios, eu destaco a instabilidade econômica, as dificuldades logísticas e a falta de mão de obra qualificada, que muitas vezes exigem que o empreendedor também seja gestor, professor e até psicólogo dentro da cozinha. Ainda assim, foi uma jornada de muito aprendizado, onde pude valorizar a gastronomia piauiense e mostrar que o nosso estado tem sabor, talento e identidade própria”, revelou em entrevista à coluna.

A chef piauiense se dedica agora a consultorias, experiências exclusivas e projetos voltados à hotelaria de alto padrão. Mesmo com o fechamento do restaurante, Lorena Dayse continua empreendendo de outras formas — nas consultorias, nos projetos de conteúdo, nas mentorias e nas parcerias que vêm desenvolvendo.

“A mulher empreendedora precisa, muitas vezes, provar sua competência mais de uma vez, enquanto o homem já parte de um lugar de mais credibilidade. Isso sem contar os desafios da maternidade, da conciliação entre a vida pessoal e profissional, e até das cobranças estéticas. Se eu penso em voltar com um negócio próprio? Sim, mas com mais estrutura, mais maturidade e um modelo mais estratégico. Estou dando um passo de cada vez, ouvindo o mercado e me preparando para que, quando voltar, seja com algo ainda mais forte, sustentável e alinhado com o meu propósito”, afirmou a vice-campeã do Masterchef Brasil.

COMO ATINGIR A SOLIDEZ?

Empresário há 35 anos, Alexandre Castro é proprietário das empresas: Florense, Uniflex, Galpão Revestimentos, Kohler Teresina, Marelli, Riolax, Coworking São Cristóvão, D & C loteamentos e construções. O foco dos empreendimentos é o público A e B. As últimas décadas lhe trouxeram a visão de que o mercado piauiense tem características únicas.

“Um crescimento urbano constante, um público cada vez mais exigente e uma concorrência se modernizando. É preciso entender a dinâmica do consumidor local. O desafio seria traduzir as tendências nacionais para os gostos e realidades locais. Equilibrar inovação com os custos. Existe o desafio da logística, as marcas se localizam no Sul e Sudeste. Capacitação constante das equipes. Fazer um marketing local, mas com visão nacional”, opinou Alexandre Castro.

O empresário Alexandre Castro – Foto: Reprodução/Instagram

Questionado sobre as lições que vieram dos negócios que já apostou e posteriormente foram encerrados, Alexandre Castro analisou: “Todos eles eu não tinha expertise e me aliei a parceiros que não tinham expertise em gestão ou eram desonestos. A lição é de que todo negócio carece de muito conhecimento, arriscar em algo novo necessita de uma consultoria correta”.

POR QUE CASAS DE SHOW FECHAM TANTO EM TERESINA?

Quem lembra da famosa boate Pink Elephant? Dez anos atrás era considerada umas das melhores e mais famosas boates de Teresina. Em 2017, o local teve a franquia descontinuada e passou a se chamar Alludra Club. Em 2019, foi aberto o 309 bar, que manteve suas atividades até dezembro de 2024. Hoje, o conhecido ponto comercial de todos esses empreendimentos citados, localizado na Avenida Homero Castelo Branco, na Zona Leste de Teresina, dá lugar ao Royal Teresina, que une experiências gastronômicas com atrações musicais.

Foto: Montagem/Boletim Brio

A Ápice conversou com o professor doutor em Administração, que foi um dos sócios da boate Apollo Teresina – que deixou de existir em 2024, Tonny Kerley para entender melhor quais pontas ligam todas essas histórias. Ele cita a necessidade de “novidade” em termos de experiência ao público para mantê-lo atraído a frequentar as casas de shows.

“Isso é um fenômeno no país inteiro, produtores de todo o país falam isso, de fechamento de casas de show. Hoje só dá certo formato de grandes eventos por conta dos altos custos. Daí precisa ter economia de escala. Teresina é a única capital do Nordeste que não é litorânea. Não tem turismo no fim de semana. O turismo é de negócios durante a semana. Hotéis têm procura na semana e ficam ociosos no fim de semana. Não têm pessoas ‘novas’ de fora no fim de semana. São sempre as mesmas pessoas. Daí o povo enjoa o lugar. É ir sempre e encontrar as mesmas pessoas”, analisou o administrador.

O professor e empresário Tonny Kerley – Foto: Reprodução/Instagram

LICENÇAS BUROCRATIZAM EVENTOS E POPULAÇÃO TORCE CONTRA

Um dos pontos sempre citados por grandes e pequenos empresários é a resistência de parte da população ao setor. Em meio há tantos debates sobre direitos trabalhistas, reforma tributária e questões previdenciárias que permeiam pelo país, nas últimas décadas cresceu a desprestígio direcionado ao empresariado no Brasil. Bem diferente da visão e cultura norte-americana, por exemplo.

“A gente teve recentemente um caso que foi um bloco de Carnaval, do X [nome do estabelecimento], em Teresina. Era na avenida e por demoras na liberação do evento, o evento não aconteceu, porque não liberou as licenças a tempo do evento acontecer. As pessoas nas redes sociais aplaudiam, diziam que esses eventos só atrapalham, só incomodam, só prejudicam o trânsito, só tampam a rua. As pessoas não veem que ali são gerados centenas de empregos, centenas de pais de famílias, mães de famílias, que ganham, tiram seu sustento, num evento como aquele. E que esse movimento da economia melhora a cena cultural da cidade”, analisou Tonny Kerley.

O CASO DO HIPER BOMPREÇO

O Grupo Walmart confirmou o encerramento do supermercado Hiper Bom Preço, localizado na Avenida Frei Serafim, no Centro de Teresina, em 2019. A justificativa do grupo foi o baixo desempenho em vendas. Os funcionários foram transferidos para outras unidades, mesmo sendo considerado um dos mais tradicionais de Teresina. Posteriormente, a unidade do Teresina Shopping também fechou às portas, dando lugar ao grupo Carrefour e, atualmente, ao Supermercado Tudo É Festa.

No início deste mês de abril, o Grupo Mateus anunciou a construção de mais seis unidades dos supermercados Mix Mateus, em Teresina. Um deles ficará localizado no mesmo prédio do antigo Hiper Bom Preço, na Avenida Frei Serafim.

Antigo Hiper Bom Preço – Foto: GP1

A PROBLEMÁTICA DA GERAÇÃO Z

A geração Z é o grupo de pessoas nascidas entre a segunda metade dos anos 1990 e o início dos anos 2010. Você certamente já ouviu falar nas redes sociais ou nas rodas de conversa que esse público tem um “jeito próprio” de estar no mercado de trabalho. Descritos como suscetíveis a muitas mudanças de emprego, atentos a questões de saúde menta e imersos na tecnologia. Estariam eles gerando desafios no quesito mão de obra?

“Hoje em dia, principalmente essa geração mais nova também, ela tende a não querer ter um chefe, eles querem ser o dono do próprio trabalho. E quando você começa a empreender, você não sabe muita coisa, você não tem muita noção das coisas. Quando eu entrei na construtora, por exemplo, eu tinha um cargo de diretor, só que eu não estava nem preparado para ser diretor de nada. Eu estava ali como filho do dono e eu tive que aprender muito para poder estar onde eu estou hoje. E eu tive na empresa professores que estavam me ensinando, que já tinham anos de experiência e que eu estava aprendendo junto com eles”, afirmou o diretor de licitações da Construtora Ótima e vice-presidente da Associação dos Jovens Empresários do Piauí (AJE-PI), Rafael Castro.

O empresário Rafael Castro – Foto: Reprodução/Instagram

A ESCASSEZ QUE ATINGE O PIAUÍ

No que diz respeito à realidade piauiense, a escassez de recursos, de amplitude de mercado e de oportunidade de acesso ao conhecimento moldam um cenário de adversidades. As oportunidades de acesso ao conhecimento ocorrem não só via estudos formais, mas pelo ambiente que o indivíduo está inserido, à familiaridade com os desafios empreendedores tantas vezes partilhados quando há uma conjuntura social propícia.

“Você chega em São Paulo, por exemplo, você consegue ter mais pessoas que estão empreendendo, você vai conversando e vai para um Congresso, pega uma informação, vai vendo e vai estudando. Aqui no Piauí, como o estado é mais pobre, as pessoas já têm menos recursos, então você tem menos direito a falha, porque se você tem menos capital de ingresso, quando você falha, você não aguenta o prejuízo que aquele negócio está lhe dando. Então aqui eu acho que o pessoal já começa no limite, porque tem menos recursos mesmo. Eu já vi empresário que diz ‘eu vou fazer isso aqui, eu vou botar um funcionário para resolver’. Ele fica achando que o funcionário vai fazer, nem cobra o funcionário, não sabe ser chefe, porque às vezes nunca nem foi chefiado”, apontou Rafael Castro.

COMO DEFINIR A ESTRATÉGIA PARA CADA NEGÓCIO

O empresário Rodrigo Maia é proprietário da Skyclinic, no ramo das clínicas de estética, e da alimentação com a franquia da Chiquinho Sorvetes. Dois ramos bem distintos e que exigem uma estratégia de experiência do consumidor bem diversificada. Ele relata que a situação mais inusitada que costuma passar é quando revela que também é medico.

O empresário Rodrigo Maia – Foto: Arquivo Pessoal

“É como se não fosse possível a coexistência destas duas atividades. Na verdade, eu vejo que uma vertente impulsiona a outra. O maior segredo é conhecer bem o público alvo de cada marca, e oferecer a eles soluções individualizadas. Para isso, é importante a coerência em toda a jornada da marca, desde escolha de mídias voltadas ao público que quer atingir, precificação ajustada, comunicação visual adequada, suporte ao cliente diferenciado. Tudo pensado e moldado para o público alvo. Estratégias que funcionam para determinado público não necessariamente podem ser replicadas em todos os níveis”, avaliou Rodrigo Maia.

As oportunidades existem, o trabalho da associações e das instituições tem somado esforços ao setor. Mas essa não é uma equação simples num país com tamanha insegurança jurídica e alta carga tributária. Empreender é risco, é investimento hoje e incerteza para o amanhã. O ambiente e as fontes de conhecimento e relacionamentos que dele advém ainda valem muito, mas não são tudo. Aglutinar o talento inerente ao ramo, às funções de gestão financeira, de pessoal, e a atenção à inovação, hoje, ainda são as habilidades comportamentais que valem a pena e resistem ao tempo e à celeridade das transformações tecnológicas.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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