Imagine poder assistir a um filme no cinema em Teresina sem precisar, de fato, atravessar os corredores de um shopping. Vira e mexe, a discussão é pautada nas redes sociais: jovens que desejam as grandes telonas sem, necessariamente, ter toda a experiência sensorial atrelada ao comércio. Um post no Twitter trouxe essa esperança aos amantes da sétima arte da capital piauiense: a abertura de duas salas com estrutura própria e independente na cidade. A novidade ainda não foi oficialmente confirmada, mas já desperta expectativas em quem gosta de um bom filme e, sobretudo, naquele público que guarda na memória as antigas salas que marcaram gerações.
Procurado pela Todavia, o grupo de empresários responsável pela galeria comercial em construção, que tem sido chamada de “Carnaúba Shopping Market e Gourmet”, não quis antecipar informações. A apuração, no entanto, esteve no canteiro de obras e observou a movimentação no entorno da obra.
A coluna também confirmou com fontes ligadas ao empreendimento que há o projeto de erguer a maior torre de Teresina, com previsão entre 45 e 65 andares. “A questão da torre já certo são estão decidindo o número de andares”, informou. A Todavia também não obteve autorização para fazer imagens internas no futuro shopping, então, a seguir apenas os registros que mostram a movimentação das obras.

Ao ser procurado pela coluna, que buscava a confirmação sobre as informações que tem sido disseminadas nas redes sociais, a direção do shopping encaminhou a seguinte declaração, em forma de nota:
“O Carnaúba nasceu de forma sólida. Adotamos um discurso claro: entregas, não promessas. Neste momento, optamos por não antecipar detalhes. E não trabalhamos com especulações. Desde o início da construção, seguimos em silêncio, porque acreditamos que a verdadeira credibilidade nasce das entregas concretas, e não das palavras. Em breve, Teresina conhecerá tudo o que estamos preparando”, escreveu.
A resposta não confirma a instalação de salas de cinema independentes, mas evidencia a estratégia do grupo de centralizar a divulgação de informações, restrita a anúncios oficiais. Do ponto de vista da comunicação, o sigilo pode ser usado como ferramenta de marketing. O silêncio “cria suspense” e faz o público especular, aumentando a curiosidade em torno da novidade. O discurso “não prometemos, entregamos” também reforça uma imagem de quem busca “solidez e credibilidade”. Pode ser uma forma de evitar cobranças caso algo mude ao longo da obra.

Cinema dentro ou fora do shopping… Tem diferença?
Mas, como prega o bom Jornalismo, até para esperar bem, em bons termos, é preciso de informação. Assim, a Todavia buscou ouvir cinéfilos sobre a expectativa de, possivelmente, ter novas salas de cinema independente na capital piauiense. Um deles foi o arquiteto Júnior Borges, que faz parte de um clube de aficionados por filmes, o “Puro mel Cinema Clube” (referência ao documentário “Honeyland” dirigido por Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov). A turma se reúne periodicamente para ver produções e comentá-las, cada um com seu ponto de vista.

Para ele, que é arquiteto, a instalação de um possível cinema independente poderia ter um impacto, tanto urbanístico, quanto cultural em Teresina. Ele explica que os cinemas construído dentro dos shoppings tem uma função estratégica: gerar fluxo de pessoas. Por isso, quase sempre ficam perto da praça de alimentação e das lojas-âncora. A experiência não é só o filme: é comer, comprar, circular no comércio.
Já um cinema independente é mais como um espaço cultural. É um lugar para assistir a filmes, ponto de encontro, espaço de convivência, palco para debates, shows, eventos e para a circulação de uma comunidade que compartilha o gosto pelo cinema. Ele lembra que Teresina ainda não tem grandes polos culturais desse tipo consolidados para o audiovisual. Esses espaços exibem títulos fora do circuito comercial, que dificilmente chegam aos shoppings ou que ficam pouquíssimo tempo em cartaz (como por exemplo, Drive My Car). Isso cria a chance do público teresinense consumir cinema como arte, e não apenas como entretenimento de massa.

“O primeiro ponto é que um prédio desse tipo se transforma em um marco urbano, um ponto de encontro de pessoas que compartilham o mesmo interesse. Um cinema independente nunca vai ser só um cinema. Ele vira ponto de encontro de pessoas que gostam da mesma coisa, espaço de convivência e de cultura numa cidade que ainda carece de lugares marcantes nesse sentido”, avalia.
Cine Rex, Royal, São Raimundo e até no teatro… Sempre tem teresinense para ver filmes

Valderi Duarte, engenheiro civil e cineasta responsável pelo longa “Mestre Pascoal (2023)” e desenvolvendo atualmente um novo, o “Arte Piauiense dos anos 70”, recorda que ao chegar à Teresina no final da década de 1960, os principais pontos de cinema eram o Cine Rex, inaugurado entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1940, e o Teatro 4 de Setembro, que, embora centenário e originalmente voltado para apresentações teatrais, também funcionava como sala de cinema até os anos 1970.
“O teatro funcionou como cinema por muitos anos, provavelmente mais de dez, até que, na década de 1970, passou por uma reforma conduzida por Albert Silva. Em 1975, com a modernização do espaço, deixou de exibir filmes e passou a funcionar exclusivamente como teatro. Já Rex mesmo foi um dos últimos a fechar, ele exibiu uma programação de primeira também. Veio a se tornar um cinema pornô depois, já no final da sua trajetória, acho que já nos anos 2000, pois era o que o público buscava consumir”, explica.

Na década de 1960, o Cinema Royal surge como um espaço descrito pelo cineasta como moderno, com ótimas sala e ar-condicionado de boa qualidade, muito mordeno para a época, localizado sobre um hotel na região, onde hoje está localizado no centro de Teresina, no cruzamento da Rua Coelho Rodrigues com a Rua Treze de Maio. Duarte recorda com entusiasmo as sessões alternativas, realizadas às 11 da noite e às 10 da manhã, que exibiam clássicos de diretores internacionais fora do circuito comercial: “Era um ponto de encontro da intelectualidade local, um lugar para quem realmente apreciava cinema como arte”, relata.

Entre os anos 1970 e 1990, Duarte menciona outros espaços de cinema que marcaram a cidade, como o Cine São Raimundo, na Piçarra, mais popular, e o Baloon Center, perto de onde hoje fica o Bar do Zé Filho, na zona Leste, na década de 1990, que funcionou por pouco tempo, mas teve importância cultural. Além disso, o Cine Clube Teresinense e salas menores em auditórios escolares contribuíam para a formação de públicos cinéfilos, apesar de não contarem com infraestrutura própria para a exibição de filmes comerciais.
“Esse era um cinema mais popular. Hoje, o espaço funciona como uma oficina metalúrgica, mas originalmente era um cinema mais popular, que exibia filmes variados. Na época, havia sessões à tarde e à noite, incluindo filmes de faroeste, histórias da Roma antiga e aventuras de heróis gregos clássicos”, descreve o Cine São Rimundo.

O panorama muda com a chegada dos cinemas de shopping, no final da década de 1990 (Teresina Shopping em 1997 e Shopping Rio Poty em 2015). Segundo Duarte, esse movimento seguiu a tendência nacional e transformou a experiência do cinema em um espaço de consumo, com a chegada dos blockbusters (produções de entretenimento de grande orçamento e sucesso comercial massivo e muito queridas pela ampla maioria do público), e pouco espaço para filmes alternativos.
Para ele, a história de Teresina evidencia que os cinemas independentes são marcos culturais e sociais, capazes de fomentar comunidade, memória e identidade cinematográfica, papel que os multiplex jamais desempenharam na cidade.
“Depois, os cinemas de rua foram desaparecendo, dando lugar aos cinemas de shopping, um fenômeno que aconteceu em todo o Brasil no final da década de 1990. Isso transformou a vida social e cultural da cidade. Particularmente, não sou muito afeito aos cinemas de shopping, não por preconceito, mas porque a programação é dominada pelos ‘Black Busters’, os grandes circuitos comerciais, que deixam pouco espaço para filmes alternativos”, opinou.
O que quer o público consumidor de Teresina?

O público teresinense tem mostrado uma clara disposição para que a cidade ganhe mais espaços, sejam eles culturais ou comerciais, mas que funcionem como pontos de lazer e ofereçam opções de atividades e entretenimento novas e diferentes. O consumidor, principalmente, as novas gerações que tem qualquer compra na ponta do dedo com o celular, se tornam mais exigentes e, por vezes, a mesma fórmula de sempre pode cansar.
De qualquer forma, a própria história do cinema na capital piauiense demonstra que, independentemente da classe social ou da condição econômica, o teresinense sempre foi apaixonado por filmes, frequentando desde as salas de rua como o Cine Rex e o Cinema Royal até os multiplexes dos shoppings.
Essa vocação cultural sugere que a cidade tem potencial para abraçar novos espaços que combinem convivência, arte e entretenimento, resgatando tradições e criando oportunidades para que o cinema continue sendo um eixo de social, de memória e cultura viva em Teresina.





