Bolhas. Cada um vive em uma. O algoritmo é o senhor, um senhor moderador. A informação nunca foi tão acessível, não é mais preciso esperar o Jornal Nacional para entender o que aconteceu no mundo. Mas o advento das redes sociais trouxe um ingrediente extra: o apelo emocional e ideológico misturado aos fatos. Hoje, não basta saber o que aconteceu. É preciso saber quem falou, como falou, e com que intenção. Alguns tapam os ouvidos, outros aplaudem. Emoções em jogo e vozes que se destacam, quando o tema é a influência política na comunicação digital do Piauí. Nesta semana, a coluna conversou com os comunicadores piauienses Teonia Pereira, Gessy Lima, Jose Ribas Neto e Fabíola Lemos para entender por que dizem o que dizem e por que tanta gente escuta.
Figuras públicas constituídas no “mercado da opinião” vivem de despertar afetos – amor e ódio em alguma proporção. Então, quem chegou aqui talvez tenha sido guiado por algumas dessas teias. Desse modo, o objetivo desta pauta não é defender um lado, ou enaltecer alguém, mas apresentar para o leitor camadas mais profundas dos interlocutores. O juízo de valor fica com cada um.
TEÔNIA: INFÂNCIA SIMPLES, MÃE DEPENDENTE QUÍMICA E ESCOLA COMO REFÚGIO
Ela é chamada de “musa da esquerda” no programa IELTV, nas redes e por apoiadores. Para os críticos, os adjetivos são outros e muitos ultrapassam a barreira do respeito, da civilidade e da lei. A jovem faz questão de denunciar com prints o rosto dos haters. “Censurada? Jamais!”, diz ela na bio do Instagram. Os piauienses passaram a conhecer Teônia Mikaelly Pereira de Sousa, a Teônia Pereira, de 28 anos, em 2024, mas a história é bem mais longa.

“Nasci em Teresina, na Maternidade Evangelina Rosa, mas minha história se desenha entre idas e vindas para Campo Maior, onde também carrego raízes afetivas. Tive uma infância marcada por muitos desafios: cresci em meio a uma família desestruturada, enfrentei a insegurança alimentar e vivi o início da dependência química da minha mãe. Mas, apesar das dificuldades, guardo boas lembranças desse tempo, especialmente nos momentos de afeto e convivência com meus familiares”, contou ao Boletim Brio.
Formada em Letras Português pela Universidade Federal do Piauí, Teônia diz ter encontrado seu propósito na Educação, embora hoje se dedique ao trabalho como comunicadora. Ela também já atuou como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa e no Governo do Estado.
“A escola sempre foi meu refúgio. Era o lugar onde eu acreditava que tudo era possível, que existia um futuro diferente do que eu via ao redor. Foi estudando que encontrei força e propósito. E foi com minha avó que comecei a entender o poder da política, ela me levava a todos os comícios do Firmino e, sem saber, plantava em mim o desejo de transformação coletiva e política”, lembrou a comunicadora.
“O ÓDIO ADOECE“
Após comentários inflamados na defesa das pautas da esquerda, Teônia passou a ser alvo de intenso discurso de ódio na internet. Especialmente, após ter afirmado que a ex-primeira dama da República, Michelle Bolsonaro, é uma ex-garota de programa e ter virado notícia na imprensa nacional. Também teve o Instagram com mais de 20 mil seguidores desativados por alguns dias. Fez um perfil reserva, mas conseguiu recuperar a conta, quando gravou vídeos emocionada e disse ter se ajoelhado na academia de musculação, quando recebeu a notícia de que a conta tinha voltado. Muitas emoções.
“Eles não atacam só ideias, atacam minha história, meu corpo, minha existência. Eles não dizem ‘eu não concordo com você’, eles falam sobre o meu peso, meu cabelo, minha conduta. Nem sempre é fácil. Às vezes, as críticas machucam, o ódio adoece. Mas eu aprendi a filtrar o que me atravessa. Hoje, estou mais atenta ao que me fortalece e não abro mão da minha saúde mental. As agressões vieram com força, carregadas de misoginia, preconceito de classe e intolerância política. Mas eu aprendi que quando eles nos atacam com tanto ódio, é porque temem nossa voz. Porque sabem que a gente rompe o ciclo. Eu não vou recuar”, afirmou Teônia Pereira.
“NÃO ME SINTO ESCOLHIDA”
A participação diária no programa online IELTV foi um divisor de águas que lhe rendeu visibilidade e fez sua voz chegar mais longe. Mesmo assim, questionada pela coluna, ela disse que não se vê como alguém que foi “escolhida”.
“Eu não me sinto exatamente como alguém que foi escolhida. Eu trabalhei para estar aqui, para falar, para representar. Nada disso veio de graça. Não sou filha da elite política, não carrego sobrenome tradicional, não tive apadrinhamento. O que eu tenho é história, trabalho de base, coerência e coragem pra dizer o que penso, mesmo quando isso custa caro. A visibilidade que tenho hoje como uma das vozes da esquerda no Piauí é consequência de uma caminhada construída com muita luta, muita escuta e muito enfrentamento. E isso incomoda, mas também inspira. Ser vista como representante não é uma coroa”, declarou Teônia Pereira.

Nas eleições de 2024, ela foi candidata a vereadora de Teresina pelo Partido dos Trabalhadores e obteve 524 votos e diz que poderá voltar sim travar novas disputas eleitorais. “Então, embora hoje eu esteja atuando principalmente no campo da comunicação, ajudando a construir narrativas e fortalecer projetos no campo progressista, não descarto voltar a disputar um cargo. Sigo onde sempre estive: do lado de quem acredita que a política pode ser feita com coragem, verdade e afeto. E, se for preciso ocupar de novo uma trincheira institucional, eu vou”, sinalizou Teônia.
GESSY LIMA: DO BAIRRO DIRCEU, TEÓLOGA, VENDEDORA DE CELULAR E BARBIE DA PISTOLA
Gessy Lima é a irmã mais velha de quatro irmãos. Viu os pais se divorciarem quando tinha 15 anos e assumiu a responsabilidade, juntamente com a mãe, pelos irmãos mais novos. Ela trabalhou como vendedora de celular e como atendente de call center. Foi recepcionista de clínica até começar seu negócio com cosméticos. Em 2020, liderou um movimento de microempresários do bairro Dirceu Arcoverde e nunca mais deixou a política.

Ficou conhecida pelas falas assertivas, que tanta vezes o “cidadão comum” se viu representado. Para ser mais exata, 50.221 teresinenses. A comunicação nos debates e online deu a ela o terceiro lugar nas eleições municipais de 2020, quando disputou a prefeitura de Teresina pelo PSC. Foi secretária de Economia Solidária (Semest) de Teresina, na gestão do prefeito Dr Pessoa.

Em 2022, concorreu ao governo do estado pelo mesmo partido. Gessy Lima é evangélica, formada em Teologia pela FAEPI (Faculdade de Educação do Piauí) e conta com mais de 140 mil seguidores no Instagram.
“O que me move hoje nas redes sociais é a responsabilidade de usar minha voz para causar impacto positivo. Meu objetivo é provocar reflexão, fortalecer valores que acredito e formar opinião diante de um tempo em que tantas informações circulam sem profundidade ou verdade. As pessoas querem alguém que represente suas dores e esperanças, mas que também levem informação com responsabilidade e capacidade de formar opinião. Ser influenciador político hoje é assumir uma missão de educar, representar e servir”, mencionou Gessy Lima.
O CRIVO DE MICHELLE BOLSONARO
Em março de 2024, filiou-se ao PL (Partido Liberal), assumindo a presidência estadual do PL Mulher no Piauí. Hoje, é um dos nomes mais alinhados à ex-primeira-dama e possível presidenciável ao Palácio do Planalto, Michelle Bolsonaro (PL).

Quem não lembra do emblemático debate entre os candidatos ao Governo do Estado, onde a tradicional candidata do PCO, Lourdes Melo, chamou a candidata do PSC, de “barbie da pistola” (veja o vídeo aqui), pois, segundo ela, Gessy Lima se assemelha a boneca infantil “Barbie” e pela defesa do bolsonarismo, que tem como uma das pautas, o porte de armas para civis. Os cortes tornaram-se quase um patrimônio do humor político piauiense.

“Sou teresinense, nascida e criada. Atualmente empreendo no setor de hospedagens e eventos. Acredito que relevância no digital se constrói com intencionalidade, e coragem de sustentar quem você é, mesmo quando isso não agrada a todos. As disputas eleitorais pelas quais passei contribuíram absurdamente para essa construção. Vejo as redes sociais como um instrumento poderoso na formação da consciência política no Piauí. Hoje é a principal ferramenta de comunicação principalmente para quem não tem mandato”, citou a ex-secretária.
Gessy Lima também disputou uma vaga na Câmara de Teresina em 2024. Ficou na suplência do PL com 1.170 votos. Na época, compartilhou com os seguidores a retomada da rotina após ter perdido a eleição , lidou de forma bem humorada, citou em tom de brincadeira “a porca” por quem disse ter sido mordida, mas passou uma mensagem de resiliência. É bem ativa nas redes e traz vídeos com opinião, reforçando suas bases e sua voz no campo da direita e do conservadorismo.

O Boletim Brio perguntou sobre o futuro e eis a resposta: “Sempre estarei contribuindo na política de alguma forma. Estou como presidente do PL Mulher Piauí e sigo influenciando presencialmente e digitalmente”, esclareceu Gessy Lima.
JOSE RIBAS NETO: UM POLEMISTA, CRIADO NA ZONA NORTE E ESTUDANTE DE ESCOLA PÚBLICA
Nas eleições de 2024, a TV Blocão fez barulho no Instagram. A comunicação digital nacionalmente é um ponto forte da direita, que se organiza e se faz ouvir. O repórter que aparece em boa parte dos vídeos que viralizavam com opiniões ou perguntas eloquentes para políticos do Piauí, era José Ribas Neto.
Assim que recebeu o convite para a entrevista, ele logo adiantou: “Topo sim, mas não sou de dar entrevista e as odeio. Mas já adianto que não me considero influenciador. Sou um polemista”.

As repostas das perguntas da entrevista chegaram logo após: “Sou de Teresina, criado na zona norte e estudante de escola pública. Filho da realidade, daqueles que aprenderam mais na rua e no trampo do que em sala de aula, apesar de ter tido contato com o Jornalismo numa palestra na escola da Maia Veloso. Passei pela Filosofia na UFPI e depois pela História na UESPI. Não conclui nenhum dos dois cursos, porque me cansei rápido da burocracia e da enrolação universitária, eram intelectualmente ineptos. O marxismo ocidental que o [José Guilherme] Merquior [ crítico literário brasileiro] denunciou estava me tornado um imbecil e Deus me livre virar um Merlong [Solano, deputado federal pelo PT]”, afirmou José Ribas Neto.
“CRIAR UMA VIDA DESGASTANTE PARA OS POLÍTICOS”
Ele diz que encontrou no Jornalismo a sua vocação: “Mas saí de lá [universidade] com o que interessava: uma base pra pensar direito e escrever com alguma clareza. Mais tarde tirei meu registro de jornalista e segui fazendo o que sempre me moveu, era falar verdades, investigar, provocar e criar uma vida desgastante para os políticos. Foi aí que me encontrei no jornalismo. A TV Blocão nasceu de uma mistura de raiva e ironia. Raiva dos blocos de poder que mandam no Piauí como se fosse feudo. E ironia com a velha mídia, que virou puxadinho de político”, defendeu José Ribas Neto.
José Ribas Neto tem mais de 33 mil seguidores no Instagram pessoal e já a conta da TV Blocão possui mais de 21 mil seguidores. Além disso, o jornalista é católico, escritor e publicitário. Em sua conta, além de posts sobre política, há uma publicação com uma indicação do livro “Imitação de Cristo” de Tomás de Kempis.
“A ideia era simples, criar um canal onde a gente falasse do jeito que o povo entende, sem frescura, sem filtro, sem precisar pedir bênção pra ninguém e dizer a elas um pouco da intelectualidade média que os imbecis aqui as privaram. A TV Blocão é isso: denúncia, sátira, resistência. Um lugar onde a gente fala o que muitos pensam e poucos têm coragem de dizer”, enfatizou José Ribas.

ELE PRETENDE SER POLÍTICO?
Para ele, o trabalho desempenhado na internet não trata-se de colocar no ar narrativas políticas. O jornalista afirma que, na verdade, são percepções sobre objetos e fatos que não mudam e no máximo, alguns tentam subverter a seu favor.
“Hoje, a política acontece no Twitter. A rede é o novo palanque, o novo jornal, o novo comício. Quem ainda não entendeu isso, já ficou pra trás. Percebi cedo que quem controla o discurso — como se fala de algo e sobre — molda a percepção do mundo. A mídia tradicional se ajoelhou e agora só falta fazer a felação. Virou assessoria de luxo, manchete paga, porta-voz de quem tá no poder. O povo percebeu isso e foi atrás de outras vozes”, declarou o comunicador.
Ao contrário do que muitos esperam, ele nega qualquer interesse em disputar uma eleição: “Não. Não sou candidato, não sou político. Sou o que provoca candidatos e desmascara políticos. A eleição não me molda, pois eu a confronto. Minha trincheira é outra: é a palavra que incomoda, é o bastidor revelado, é o discurso que não pede bênção a partido. Mudo debates — não preciso de mandato pra isso”, finalizou José Ribas Neto.
FABÍOLA LEMOS: A MENINA QUE SOFRIA BULLYING E APRENDEU A REAGIR
Fabíola Lemos vem de uma família de jornalistas, comunistas e ateus. Seu bisavô esteve à frente dos jornais Gazeta, O Libertador e Pirralho; foi membro da ANL (Aliança Nacional Libertadora) e do PCB, no Piauí, seu avô Alberoni Lemos, deu seguimento aos jornais da família e seu tio Alberoni Lemos Filho, foi correspondente da Folha de São Paulo, no Piauí, referência em um jornalismo comprometido com as pautas de esquerda.

O pai de Fabíola, Henrik Ibsen, foi bancário no Banco da Amazônia, em Belém do Pará onde, ao lado de dona Cleide, sua esposa, estruturou uma família de quatro filhas. Belém era residência, mas o foco era, esperar o período de férias, onde tradicionalmente, viajavam para Teresina. Para Fabíola, a referência de uma infância feliz, na casa dos avós, no Centro da Cidade. Aos 21 anos de idade, Fabíola retorna com a família para Teresina, dessa vez em definitivo. Filia-se ao PT e conclui o curso de Ciências Sociais na UFPI, passando a lecionar História, na rede privada de ensino.
Com a chegada da Sociologia no Exame Nacional do Ensino Médio, Fabíola abraça o universo dos cursos pré-vestibulares. Em um contexto político polarizado, após o impeachement de Dilma Rousseff, a professora diz ter se tornado alvo de grupos “olavistas”, que agiam nas redes sociais, o que lhe levou a reassumir a militância política no Partido dos Trabalhadores e colocar candidatura à vereadora, nas eleições municipais de 2016.
AS DEMISSÕES E A DERROTA NAS URNAS
A professora chegou a ser demitida de algumas escolas de Teresina, após acusações nas redes sociais de “doutrinação ideológica” na sala de aula. Fabíola Lemos era docente das maiores escolas da capital e tinha a reputação de alguém muito querida pelos estudantes. A instabilidade na vida profissional, bem como as agendas políticas naquela conjuntura, levaram Fabíola a se envolver, em definitivo, com a tarefa da “disputa de ideias” e dedicou-se em barrar a ascensão da extrema direita e dos setores religiosos fundamentalistas.
O Instagram e o Facebook de Fabíola passaram por uma reviravolta. Antes: viagens, festas e seguidores atraídos por esses apelos. Depois: pautas feministas, conferências, reuniões políticas, Congressos da União Nacional dos Estudantes, imagens de sua luta ao lado do Movimento Sem Terra e movimentos de luta por moradia.
“Tudo mudou. Antes, uma infinidade de vestidos caros; restaurantes elitizados e interpretações de mundo restritos à uma mulher branca de classe média que convivia com seus alunos da mesma bolha. Depois da política, a descida do salto (literalmente), me levou para as áreas de ocupação e uma realidade bem menos ‘vendável’ para o mundo idealizado do Instagram. Minha mãe se queixa todos os dias. Até hoje não se conformou”, relembra Fabíola Lemos.
A FÓRMULA DA INFLUÊNCIA
A professora afirma que sua atual postura nas redes sociais nasceu de um senso de responsabilidade com a própria trajetória. “Como na sala de aula, se fazer compreendida é fundamental. Ser didática, dispensar jargões, explicar o básico para atingir quem não está na ‘bolha da esquerda’, sem abrir mão da honestidade intelectual e sem ceder ao senso comum. Tudo isso é bem desafiador! É aí onde o influencer de extrema direita sai com ampla vantagem. Ele não precisa ter compromisso com a ciência ou com qualquer ética humanista. Destruir as conquistas de civilidade é muito fácil, em um país de ressentidos que têm as redes sociais como um divã”, argumentou Fabíola Lemos.

Ao citar os ataques que sofre online, Fabíola relembra que no início a hostilidade a deixava perplexa. Hoje, enxerga os haters como parte inevitável da dinâmica política digital. “Para muitos, política é guerra. E na guerra, a verdade é a primeira que morre”. Mais doloroso ainda, segundo ela, é perceber que os ataques mais rasteiros muitas vezes vêm de pessoas do mesmo campo político. “Na disputa, é revelada a pior face humana, mesmo que seja em uma simples gincana”.
E não abre mão do embate. Com mais de 12 mil seguidores no Instagram, avisa logo que não deixa “se trocar” com gente que faz comentário tosco. “E nem me venha falar sobre engajamento, algoritmos ou que comentar em uma fake news dá munição ao inimigo. Muitas pessoas que formam opinião a partir dos comentários nas postagens. É preciso expor o contraditório, sempre”, argumenta a cientista social.
QUAL O PROBLEMA DA ESQUERDA NAS REDES?
Sobre sua influência nos debates políticos da internet, Fabiola avalia que a esquerda piauiense enfrenta barreiras culturais, como o uso excessivo de linguagem acadêmica e o receio de ser mal interpretada. “O provincianismo de quem acha que é preciso apelar para linguagem acadêmica, para ter uma fala legitimada. Os códigos das massas são bem diferentes de quem problematiza tudo. Para ela, há temas fundamentais que ainda são inacessíveis ao público despolitizado. Muitas vezes, um tema aparentemente secundário pode ser a chave para explicar algo muito mais importante.
Em 2024 foi candidata a vereadora de Teresina pela terceira vez, pelo Partido dos Trabalhadores, recebeu 1.051 votos. Fabíola encerra com uma reflexão pessoal: diz que, na adolescência, sofria bullying e não sabia reagir. Hoje, sente que aprendeu a se defender e se vê viciada nos desafios e críticas que a vida apresenta. “Com minhas falhas, ainda assim tenho direito a um espaço no mundo”, afirma. E é com essa certeza que pretende seguir disputando cada espaço possível.
QUAL É O FIO CONDUTOR DAS HISTÓRIAS?
O que há em comum nos caminhos da política e da comunicação: são lugares de visibilidade, escuta e autoridade simbólica. A política pode funcionar como um “espaço do Outro”, onde o sujeito tenta capturar o olhar do Outro.
O comunicador político lida com a palavra como ferramenta de poder, mas também como um modo de se constituir subjetivamente.
São sujeitos que, por meio da palavra, buscam costurar lacunas vividas ao longo de suas histórias. Suas vozes não surgem do nada: elas brotam de contextos marcados por experiências e realidades onde, muitas vezes, falar foi um ato de resistência, e ser ouvido, um privilégio conquistado com luta.
AS RESPOSTAS POSSÍVEIS
Se, para alguns, a voz nasceu em uma casa onde se debatia política desde cedo, para outros, ela veio da ausência total, da necessidade de criar, do zero, um espaço de escuta e reconhecimento. E, nesse processo, muitos deles se tornaram “figuras suficientemente boas” para os outros: referências simbólicas de cuidado, proteção ou presença. Tornaram-se pais, no sentido simbólico do termo. Não por idade, mas por função. A função de sustentar um olhar sobre o mundo, de transmitir um código de orientação coletiva.
E são ouvidos porque representam aquilo que falta em muitos espaços: alguém que traduz o sentimento de um povo ou uma época. Suas falas não são neutras. Elas carregam afeto, cicatriz, senso de justiça, e, sobretudo, desejo. Desejo de fazer valer a própria existência e, junto com ela, a de todos que os escutam.



