Divã Boletim: “O amor tem o seu preço”: os dilemas da paixão de uma mulher por uma garota de programa

O Boletim Brio estreia uma coluna semanal em que trará relatos reais de leitores enviados anonimamente, seguido de uma resposta escrita por um psicanalista convidado. Esse é um espaço único de escuta em meio ao frenesi informativo.

Em uma era marcada por crises de saúde mental, solidão digital e relações cada vez mais fragmentadas, os leitores não buscam apenas notícias—eles procuram reflexão e acolhimento. Nossa proposta é transformar questões íntimas em debates públicos, mostrando que angústias individuais muitas vezes refletem mal-estares coletivos.

Envie seu relato para o email: contato@boletimbrio.com ou para a página de Instagram @boletimbrio. Garantimos o anonimato.

Relato enviado por Anna Karenina*

Me apaixonei por uma mulher que, só mais tarde, descobri ser garota de programa. Quando a conheci, o que me chamou atenção foi a forma como ela vivia, sem medo, com uma liberdade até imprudente, algo que eu secretamente admirava, talvez por viver o oposto: uma rotina carregada de responsabilidade, autocontrole e performance.

Quando estávamos juntos, eu sentia que podia ser eu mesmo, sem filtros. E ela dizia sentir o mesmo. No começo, era tudo leve, divertido, envolvente. Eu tentava acreditar que seria só isso. Alguns encontros casuais, boas conversas, risadas. Fiz um grande esforço para me manter distante. Mas já havia ali, desde o início, um sentimento de ciúmes e de exclusividade.

Quando descobri que ela fazia programas, tentei me convencer a seguir com leveza, como se esse detalhe não devesse mudar nada. Mas mudou. Não por moralismo, mas porque me doía perceber que aquilo parecia vir de um lugar de insegurança, de falta de amor-próprio. E ver alguém de quem eu gostava se colocando nessas situações mexia comigo. As relações que ela mantinha com outros homens, muitas vezes abusivas ou desrespeitosas, me faziam questionar meu próprio papel ali: eu era assim também? A essa altura, já estávamos confusos demais, machucados demais. E mesmo depois de tanto carinho trocado, nos afastamos. Faz anos que não nos falamos, mas ainda penso nessa história com frequência. Fico tentando entender o que isso revelou sobre mim, sobre o amor, sobre os limites entre cuidado e controle, e sobre o que eu realmente buscava naquela relação.

Análise do psicanalista Lamartine Guedes1:

Ana Kareenina, você padece, junto com sua ex, da cultura moralista do seu lugar. Fica claro que vocês dois possuem um machismo arraigado enquanto sintoma. Esse é um fruto desta cultura que reprime a mulher e diz que ela só pode ser “livre” se virar garota de programa. Esta liberdade vigiada, depreciativa, levada pelo patriarcalismo/machista rebaixa e humilha a mulher (explicação dos motivos de você achar que sua ex tinha baixa autoestima).

As garotas de programa sofrem de rebaixamento moral/social/psíquico. No campo do inconsciente, devido o pai da sua ex provavelmente ter sido muito cobrador e moralista da sua virgindade/integridade, um sintoma mais grave foi causado. Sua ex, com medo do olhar paterno, incestuoso, machista, abusivo e de posse do corpo dela, foi remetida a um impulso viciante de traição a favor de outros homens, e do seu equilibrio psíquico.

Por sua vez, você traz também uma marca traumática do machismo, da exclusividade e fidelidade da mulher (tolhendo, assim, a liberdade da sua ex). O medo de amar e o medo de ser livre, de aceitar o outro com suas diferenças e os seus desejos. Você se apaixonou pela sua ex e na hora de amar, ficar do lado dela e tentar promover mudanças no sintoma dela e no seu, você, machistamente, achou mais fácil abandoná-la (Muitos homensm fazem isso).

Seus sintomas (seu e de sua ex) foram opostos e complementares e vocês viviam como um casal cujo falso moralismo falou mais alto que o amor e cujo destino sintomático de vocês duas foram cristalizados, sem chance para o amor e a mudança. Isto mostra que ambas não estavam preparadas para o amor, pois, no amor verdadeiro o amante vive a liberdade com a amada, fazendo escolhas, admitindo perdas, diminuição de preconceitos e sintomas que favorecessem vocês a ficarem juntos. Vocês não conseguiram passar de paixão para o amor (enfrentamento/trabalho/mudança), o que significou o término da relação.

Enfim, você e sua ex deveriam na época buscarem fazer, cada uma individualmente, análise pra varrer traumas e preconceitos e amadurecerem juntas a paixão de vocês. A dica de fazer análise continua: tratar sintomas de submissão e machismo (respectivamente) será a chance de vocês lograrem aprender a amar e evitar repeticoes de relações sintomáticas futures. Lembre-se: muitos perseguem a paixão do amor, mas poucos a vivem realmente. Lembre-se também que sem amor não há paz.

Espero que com estas pontuações vocês busquem meios para amadurecerem e aprenderem mais a amar. Desejo para vocês boa sorte nas suas próximas tentativas amorosas.

*O relato neste boletim é real enviado por um internauta sob o pseudônimo de Ana Kareenina.

  1. LAMARTINE GUEDES ↩︎

Psicólogo/Psicanalista/clínico, especialista, mestre e doutor em Psicanalise pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Professor da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e vice-coordenador do Corpo Freudiano, em Teresina.

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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