Divã Boletim: desejo, culpa e “mães fálicas”… Quando o amor repete a lenda do Cabeça de Cuia

A Coluna Divã, assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, publica relatos reais de leitores, enviados de forma anônima. Em meio ao excesso de informação que circula nas redes, o espaço se propõe a ouvir, refletir e oferecer um olhar psicanalítico sobre experiências cotidianas. Leitores interessados em participar podem enviar seu relato para o e-mail contato@boletimbrio.com ou pela página no Instagram @boletimbrio. O anonimato é garantido.

Relato enviado por um leitor anônimo*

Tenho 30 e poucos anos e, há algum tempo, me aproximei de uma mulher mais velha, viúva, com três filhos. Nosso vínculo começou com gestos de solidariedade, após o marido dela falecer, durante um momento muito difícil da vida dela, e fomos nos tornando inseparáveis. Ela passou a confiar em mim para tudo: cuidar das meninas, fazer companhia, estar presente nos momentos mais íntimos e vulneráveis. Com o tempo, eu me apaixonei, mas nunca tive coragem de dizer. A relação, no entanto, era marcada por uma intensidade desgastante, uma espécie de dependência e possessividade de ambos. Acredito que, da parte dela, sempre foi amizade. Quando nos afastamos, a depressão que sempre senti só me afundou mais ainda. Nunca consegui falar sobre isso com ninguém.

Hoje, tento me reconstruir emocionalmente, mas continuo me envolvendo com mulheres emocionalmente indisponíveis ou em relações complicadas. A última com quem me envolvi é casada, vive um relacionamento aberto e, embora passemos muito tempo juntos (até trabalhávamos no mesmo lugar), sinto que estou repetindo um padrão: me apaixonando por histórias difíceis, por relações que nunca podem ser inteiramente minhas. Sinto falta de uma parceira de verdade, de construir algo possível, mas parece que só sei desejar o impossível. Me pergunto se é isso que, no fundo, me atrai: a dor, o desafio, a ausência. Tá difícil me entender.

Análise do psicanalista Lamartine Guedes:

Estátua do Cabeça de Cuia na zona Norte de Teresina (Foto: reprodução)

Você padece de um complexo que diz respeito à cultura maternal machista de Teresina, um complexo que está relacionado à lenda do Cabeça de Cuia, e as mães fálicas e filhos homens frágeis do Piauí.

A lenda do cabeça de cuia fala da relação de uma mãe fálica vingativa versus um filho sem pai. A mãe maltrata o filho, descontando raiva por ele lembrar o pai… Até uma tragédia acontecer: ele mata a mãe com um fêmur de boi que a mãe jogou pra ele comer.

O complexo de Édipo tipo o do cabeça de cuia acontece quando mães fálicas e filho frágil não conseguem se apartar, o que gera condições amorosas incestuosas que causam defesas, e como na lenda do cabeça de cuia, relações afetivas ambivalentes (amor/ódio) que podem levar inclusive ao matricídio.

O complexo de Édipo matriarcal é a matriz da teoria psicanalítica e diz sobre a formação do software (Alma/desejo) que põe o hardware (corpo/comportamentos) em movimento. Ele é o delicado processo pelo qual a criança passa de construção de sua subjetividade via afetos ambivalentes, 1º: paixão pela mãe. 2º: abandono desta paixão em consideração ao pai e deslocamento da mesma para a figura de mulheres possíveis.

Quando a mãe é muito dominadora/castradora/fálica/tirânica, a criança se fixa nela por medo/alienação e só consegue buscar protótipos amorosos meio incestuosos em mulheres que são cover da mãe, no seu caso, mulheres mais velhas com ou sem filhos. Você lembra aquele bebê da família dinossauro, o Baby, que rejeitava a presença de qualquer outro ser que não fosse a mãe. Sua frase de efeito era: “não é a mamãe!”, seguida de ato de bater com a frigideira em qualquer outro tipo de gente que aparecesse.

Você adquiriu um ardor obsessivo, que faz você obcecado por mulheres que representam mães. Só que o casamento/relacionamento com “mães”, é um “incesto” (simbolicamente comum no Piauí) que, como lembra a lenda necromítica do cabeça de cuia, acabam em tragédia.

Personagem “Baby” rejeitava qualquer um que não fosse a mãe (Foto: Reprodução)

Após o menino passar pelo Édipo (formação da identidade sexual/social, por volta dos oito anos), ele pode ter acesso a qualquer mulher, menos a mãe. Você, por relações infantis, ambivalentes e de desamparo (mãe fálica/devoradora e pai, provavelmente, fragilizado), só se sente confortável com o protótipo de amor que lembre sua mãe e seu inconsciente dá um jeito de você “casar” com mulheres que, como sua mãe, são interditadas/ difíceis de lidar, tomando-o refém do seu desejo incestuoso e criando um sintoma mãe e filho que atrapalha a possibilidade de uma relação conjugal. Isto ficou claro no seu primeiro relacionamento, onde a sua mãe/paixão tinha filhos, você a amava como mulher, mas ela o amava como filho: o que gerou insatisfação, dor e o término de relação fadada ao impossível. Ela te via como filho, era sua amiga e na impossibilidade de conjunção carnal vocês terminaram a relação depois de um grande desgaste e ao preço de uma grande depressão desenvolvida por você fruto desta situação agonizante.

No seu primeiro caso você repetiu de forma clara o padrão/paixão por “mulheres/mães”(até filhos ela tinha). O seu segundo exemplo/envolvimento amoroso foi com uma mulher casada, o que mostra que suas pulsões amorosas de repetição mortífera estão agindo, pois mais e mais você se aproxima de uma tragédia incestuosa mítica: A “mulher/mãe” verdadeira é aquela que tem um marido (figurativamente seu pai?) onde você entra na relação para tomá-la dele. Segundo este raciocínio inconsciente você poderá, um dia, estar de frente a uma situação de perigo onde até a possibilidade de duelo mortal pode ser possível.

Para você ter uma parceira de verdade você tem que trabalhar este seu “inconsciente pulsional infantil” dominado por uma moral tirânica matriarcal teresinense (piauiense) que levou você ao destino edípico/cabeça de cuia trágico de só conseguir amar a mãe e rejeitar as outras oportunidades amorosas. (Neste caso as mães fálicas do Piauí são as causadoras da tragédia).

Para superar este dilema e amar uma mulher de forma não incestuosa, você terá que matar simbolicamente dentro de você a imagem de sua mãe. Superar a “grande mulher fálica” (protótipo do seu amor incestuoso) e ascender a uma mulher comum, mãe dos seus filhos, acredito que seja sua meta. Para isto você precisa da contribuição de um analista que ajude você a vencer este processo trágico que martiriza seu ser.

Por fim (ou será por começo?), parodiando o Baby do seriado da Família dos Dinossauros e parafraseando Freud, te dou um conselho: toda vez que se interessar por uma mulher mais velha e que lembre sua mãe, recorde-se desta análise textual e diga para si mesmo: “preciso arrumar uma mulher que não lembre minha mãe…” e saia sutilmente de perto da mulher por você sintomaticamente sintonizada.

Boa sorte na sua empreitada amorosa!

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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