Divã Boletim: “Eu tenho uma stalker” e a paixão masculina por mulheres perversas

A Coluna Divã, assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, traz relatos reais de leitores enviados anonimamente. Esse é um espaço único de escuta em meio ao boom de informação que corre pelas telas. Quer ter sua história analisada por aqui? Envie seu relato para o e-mail: contato@boletimbrio.com ou para a página de Instagram @boletimbrio. Garantimos o anonimato.

Relato enviado por um leitor anônimo*
Durante a faculdade, vivi uma amizade que parecia ter vindo para durar. Forte, cúmplice, intensa. Mas com o tempo, os sinais de que algo não ia bem começaram a se tornar impossíveis de ignorar. Descobri que ela falava mal de mim pelas costas e criava situações de enfrentamento gratuito. E por mais que algumas pessoas alertassem que talvez fosse inveja, por algum tempo eu insisti em acreditar no lado bom dela, nos momentos em que a amizade era leve.

A convivência, no entanto, foi ficando insustentável. Era como se houvesse duas versões da mesma relação: uma de afeto, e outra marcada por tensão, competição e desgaste. Pela primeira vez, entendi na pele o que é viver uma relação tóxica. E quando tentei, pela última vez, buscar uma reconciliação, tudo terminou em mais uma briga. Ali eu entendi: eu precisava me proteger. Decidi parar de falar com ela. Foi como me afastar de uma fumaça tóxica, sufocante.

Os anos passaram. Mesmo sem contato, ela continuou me stalkeando — por perfis falsos, por redes vinculadas a seu nome, por meios indiretos que me causam desconforto e até me assustam. Ela já manteve contato e tentou reatar a amizade com pessoas próximas, mas a mim nunca dirigiu uma palavra. Há uma certa dúvida que permanece: que tipo de fantasia ou ressentimento essa pessoa pode ainda alimentar a meu respeito e por quanto tempo?

Foto ilustrativa

Recentemente, conheci alguém com quem tive um breve vínculo afetivo… e curiosamente passei a sonhar com ela. O que não acontecia antes. Foi aí que percebi o quanto essas relações deixam marcas no inconsciente. Como experiências tóxicas, especialmente as que vêm disfarçadas de amor ou amizade, seguem nos acompanhando em forma de alerta, de trauma, de eco?

Os sonhos seriam um alerta do meu inconsciente? Um pedido de atenção? As relações tóxicas nem sempre terminam quando a gente se afasta. Muitas vezes, elas seguem dentro de nós, nas memórias, nos gatilhos, nos sonhos. São marcas que ficam. Marcas silenciosas que, vez ou outra, batem à porta da alma pedindo para ser cuidadas.

Análise do psicanalista Lamartine Guedes1:

Você AMA como foi AMADO

Ao abrir os olhos para o mundo, a criança se relaciona com os primeiros amores, protótipos de objetos desejáveis no futuro. Mais tarde, a tendência a reproduzir relações passadas inexoravelmente acontece, e o adulto, por deslocamento, saboreia os afetos bons ou ruins, os carinhos e agressões, na figura de outras pessoas que não sejam seus familiares, de acordo com suas fantasias, e põe em prática desejos que falam do seu ser.

Freud, em seu texto O infamiliar, nos fala de sentimentos que nos levam a nos aprisionar por alguém ou a realizar coisas estranhas, inconscientemente familiares — no seu caso, amar mulheres tóxicas.

A “amizade/paixão” tóxica que diz experimentar teve como significante máximo em seu discurso: a traição. A sua ex-amiga/paixão, tão sofridamente perdoada e compreendida, traía você, fazendo-nos crer que, no passado, você sofreu traições (mãe ou cuidadores) por parte de pessoas que moldaram suas pulsões amorosas e que o levaram a um circuito masoquista de ser traído, apanhar, sofrer e ter, mesmo assim, compaixão por certas mulheres que não merecem o seu sentimento.

Aliado a isso, você parece ter tido uma educação cristã, que impulsiona a uma moral ideológica masoquista de oferecer a outra face.

Esses dois fatores deixam você atraído e desarmado diante das mulheres perversas, que inconscientemente busca, e culminam em suas pulsões masoquistas de amar mulheres que o ferem, levando-o a temer seus desejos e suas escolhas.

Do lado da sua amiga/paixão (modelo de amor), percebemos que ela é uma mulher sádica, machista, revanchista, magoada pelo masculino — dessas que acham que homem não presta e que são todos iguais.

Ela parece amar odiar os homens e o ataca inconscientemente por dois motivos: 1º, por querer provar que você não é diferente dos outros homens; e 2º, por não se permitir perceber que se apaixonou por você.

A gente ama como foi amado, e provavelmente ela foi vítima de decepções masculinas (pai, familiares, irmãos, namorados) e de relacionamentos abusivos e machistas. Fechando o quadro perverso a que foi psicossocialmente submetida, ela desenvolveu fantasias e desejos de aniquilamento dos objetos “amorosos” abusadores, o que explica sua fixação em você — pois você ela não conseguiu destruir. Ela aprendeu a amar assim: usando o outro como objeto e depois descartando-o. É a famosa Viúva Negra, hoje em dia tão comum em nossa sociedade.

A atriz Scarlett Johansson que interpreta a “Viúva Negra” no cinema – Foto: Reprodução

O amor tem seu lado sombrio, e você também tem o seu. Seu masoquismo casa com o sadismo dela, e por pouco vocês não namoraram.

Você relata que sonhou com ela, e o sonho é, comprovadamente, uma realização de um desejo — um “aviso” de que você, talvez, faz escolhas amorosas parecidas a ela para colocar no lugar dela, o que lhe dá medo. Esse sonho, na verdade, é um aviso do seu inconsciente, dizendo que, caso você não faça análise, encontrará sua ex-amiga/paixão traidora no corpo de outra mulher, alimentando seu gozo por mulheres sádicas.

Enfim, dou-lhe um conselho: vá ao analista, descubra seus verdadeiros desejos e tente conciliá-los, pois, hoje, você padece de uma repetição mortífera (pulsional) que o leva ao encontro de mulheres que o traem, o decepcionam e que não valem a pena para você gastar o seu bem mais precioso: o seu tempo.

Lembre-se: o amor sado/masoquista é um inferno – e acaba em dor e perda.

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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