“Perdi o grande amor da minha vida e não consigo amar mais ninguém”: e agora? A Psicanálise explica 

A Coluna Divã, assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, é um espaço dedicado à reflexão sobre as questões humanas que atravessam o cotidiano. Em meio ao fluxo acelerado de informações, a coluna propõe um olhar sensível e aprofundado sobre relacionamentos, conflitos familiares, dilemas emocionais e os desafios da vida afetiva.

Os textos são construídos a partir de relatos enviados pelos leitores. Com absoluto sigilo e respeito à privacidade, cada história é transformada em uma análise psicanalítica que ultrapassa o caso individual e dialoga com experiências compartilhadas por muitas pessoas.

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Relato enviado por um leitor anônimo

Vivi um grande amor há muitos anos, mas fui eu quem traiu a confiança daquela mulher e, de alguma forma, destruí aquilo que havíamos construído. O relacionamento acabou, a vida seguiu para ambos, mas nunca consegui deixar de sentir que perdi algo extremamente valioso por causa das minhas próprias escolhas. Com o tempo, passei a carregar a sensação de que deixei escapar o amor da minha vida.

Ao longo dos anos tive outros relacionamentos, conheci outras pessoas e tentei seguir em frente. Ainda assim, nenhuma história despertou em mim o que eu sentia por ela. O sentimento é que aquele amor era raro e que, quando o perdi, perdi também a chance de viver uma vida que poderia ter sido muito diferente. Existe uma comparação inevitável entre o que vivi com ela e tudo o que veio depois, e quase sempre essa comparação termina com a impressão de que nada alcançou a mesma profundidade.

O mais difícil é que, se dependesse apenas de mim, eu gostaria de reviver aquela história. Mas ela não quer mais isso, e eu compreendo. Hoje ela está em outro relacionamento, aparentemente feliz, e às vezes vejo fotos dela vivendo uma vida que um dia imaginei compartilhar. Nesses momentos, o arrependimento ganha força. Não é apenas a saudade do que tivemos, mas a dor de perceber que as consequências das minhas escolhas talvez tenham me afastado definitivamente da mulher que considero ter sido o amor da minha vida. Carrego a sensação de perda, a consciência dos meus erros e o receio de nunca mais amar alguém da forma como a amei.

Análise do psicanalista Lamartine Guedes: 

Caro leitor, você divide com alguns personagens da literatura e da mitologia a história de amores impossíveis devido à imaturidade, impotência e medo de compromisso, que geram inibições sexuais e afetivas e resultam em ruínas de amores felizes. É como se você e estes personagens tivessem um “destino” para amar, colocar tudo a perder e se lamentar, o que gera situações de luto e melancolia.

Freud já dá uma dica sobre a dificuldade, na melancolia, de o sujeito lidar com o objeto amoroso, sempre o colocando além do horizonte. Lembra da música de Roberto Carlos, “Além do Horizonte”, que diz: “…além do horizonte deve ter algum lugar bonito para se viver e amar em paz”? Bem, além do horizonte fantasioso existem duas coisas: o nada, o vazio, e a falta de paz.

Thomas Shelby e Grace Shelby na série Peaky Blinders

Isto fica bem caracterizado na sua história de traços histéricos de pôr a fila amorosa para andar, como se a próxima mulher fosse ser, esperançosamente, sempre a melhor. Esta mulher perfeita nunca chega, vindo então a queda da fantasia de perfeição e o consequente abandono da mulher amada, seguido pela solidão.

Dentre estes personagens mitológicos, há um bem emblemático no mundo ocidental que ilustra sua situação: Eros, do mito grego “Eros e Psiquê”. Eros era um semideus, metáfora da hipervalorização do homem patriarcal e do machismo, que se apaixonou pela mais bela das mortais do seu tempo: Psiquê, a razão.

Aqui, de cara, vemos o caráter fleumático e traumático dos amores masculinos e o caráter racional e castrado do amor feminino, paixão masculina versus razão feminina. Isto talvez porque a mulher lide melhor com a castração e os limites, na maioria das vezes, e por não estar submetida a uma ordem amorosa castradora tão rígida quanto a do homem.

No mito, o deus Eros impõe regras para Psiquê, regras que, se burladas, acabariam com seu casamento. A regra era que ela tinha que amá-lo sem nunca ver seu rosto. Psiquê, tomada pela curiosidade, numa bela noite acende uma vela e vê o rosto do marido. A partir daí, o casamento termina e Eros abandona Psiquê.

Mas o que está por trás da quebra do casamento, da união de Eros e de você, leitor? A resposta é clara: a incapacidade de certos homens de manter relações próximas e sentimentos quando a máscara de perfeição exigida da mulher cai ou quando ele descobre que aquela mulher não o salvará da dor e da morte.

Freud fala que esta fantasia de salvação do desamparo pela mulher amada é vivenciada pelo homem em três momentos, com três mulheres diferentes: a mãe, a esposa e, por fim, a mãe-terra, que lhe dará o amparo final.

Mas surge a questão ligada a Eros e a você: por que vocês não casam? Por que estão sempre buscando os braços de outras mulheres em um verdadeiro ciclo de repetição? A resposta já foi dada, em parte, acima: a rejeição em aceitar a verdade da vida. Nada nos salva da dor, da morte e do desamparo.

Assim, Eros, leitor do Piauí, trago agora explicações sobre seu comportamento e o de seu par mitológico. Quando vocês eram crianças, adquiriram um traço histérico de inconformismo diante da realidade da finitude e colocaram nas mãos da “mãe” a missão de amparo e amor perfeito. Este idealismo da mãe e da mulher os faz amar e vivenciar apenas mulheres que portem a máscara da perfeição.

Lembra da série “Família Dinossauro”, em que o Baby, filhote de dinossauro, bate com a frigideira em qualquer um que ouse se aproximar dele e que não seja sua mãe?

Estamos diante de certos homens e de sua dificuldade, ou impotência, de realizar e concretizar o ato amoroso e ultrapassar o modelo materno, o incesto simbólico, em seus relacionamentos.

O homem que não é bem castrado, aqui especificamente você, Eros e o Baby Dinossauro, é levado a apresentar traços histéricos de competição e insegurança quanto ao seu falo, seu poder, seu valor, de conquistar e manter um amor. Esta competição amorosa com o pai e o incesto simbólico com a mãe constituem um modelo de amor que gera sintomas de base que, levados à vida adulta, produzem a inibição e a paralisação amorosa que você, leitor, relata até aqui.

Assim, indico que você repense melhor sua condição estrutural amorosa e se afaste da intimidade e da simbiose simbólica com a mãe, promovendo a erosão de todas as suas fantasias de que sua mãe, ou sua mulher, é perfeita e de que existem mulheres perfeitas no mundo.

Lembre-se: você vive como Eros, deus do amor, viveu, buscando na mulher a máscara do amor idealizado, o amor infantil, que o protege e impede de encontrar a mulher, Psiquê, humana, que lhe dará consolo, alento e companheirismo diante da impossibilidade de cura do desamparo ao qual estamos todos condenados, saber que nenhum outro, nem mesmo Deus, é capaz de evitar nosso destino final: dor e morte.

Preste atenção: a vida é uma estrada de mão única, e o carro da sua vida tem faróis para iluminar o futuro, aquilo que vem pela frente. Espero que tenha coragem de ligar estes faróis, conte com a ajuda deste texto e de um analista, e perceba a possibilidade de um encontro em que possa dizer:

“Não é a mamãe, mas, por isso mesmo, desejo e quero ficar com ela.”

Boa sorte no seu intuito de encontrar um amor maduro que não seja um semblante de perfeição. Eros conseguiu este intento ao ajudar Psiquê a cumprir suas tarefas, dadas por Afrodite, deusa do amor, para que ela fosse digna de casar com seu filho. Ele deixou de lado seus conflitos e expectativas fantasiosas adquiridas pelo excesso de mãe, que o faziam projetar na esposa um ser sagrado, bloqueando seu desejo carnal e invalidando, ou inibindo, o casamento.

Por fim, ou será por começo?, você tem a chave e o conhecimento para, com a ajuda deste texto e de uma análise, se desbloquear, acender os faróis e superar a impotência psíquica em que se encontra por não conseguir integrar amor e desejo em uma única mulher. Lembre-se: o fruto do casamento real e autêntico de Eros e Psiquê é sua filha, Prazeres, que só virá para você se viver o presente amoroso sem culpas.

Lembre-se também de trabalhar para ascender a um amor verdadeiro, pois, sem amor, não existe paz.

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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1 comentário

  • Tiago Bruno Oliveira

    A coluna faz uma leitura interessante ao mostrar que o sofrimento do leitor não nasce apenas da perda da antiga companheira, mas também da dificuldade de aceitar os limites da realidade. Na psicanálise, isso se relaciona com a castração, entendida como a aceitação de que ninguém é perfeito e de que não existe um amor capaz de eliminar toda falta ou sofrimento. Enquanto ele permanece preso ao ideal do passado, impede a si mesmo de construir novos vínculos reais.
    Essa questão também aparece no filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, em que Joel insiste em preservar um amor idealizado, mesmo depois do fim da relação. Assim como o leitor, ele precisa abandonar a fantasia de um amor perfeito para conseguir seguir em frente. Gostei muito da coluna porque ela usa exemplos da mitologia, da cultura popular e da psicanálise de forma clara, tornando um tema complexo mais acessível e provocando uma boa reflexão sobre o amor e o amadurecimento.

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