“Eu estava andando na rua, comecei a sentir uma dor de cabeça que não passou. Tomei remédio, não passou. Eu resolvi ir no hospital. Eu tomei mais uns três remédios, não passou, até que eu desmaiei dentro do pronto-socorro. Acordei dentro de um quarto daqueles com o meu peito já raspado e cheio de elétrons, meu pai na porta querendo entrar, as pessoas não deixando ele entrar”, o relato é do engenheiro civil e empresário que atua no Piauí, Marcelo Rigo, e aconteceu há 20 anos quando passou uma semana internado por “estresse”.

Na época, aos 23 anos, ainda não era empresário. Era um universitário que cuidava de 20 obras, tinha três telefones e começava a trabalhar às 07h e não tinha hora para terminar. O único feriado do ano em que não trabalhou foi o Domingo de Páscoa.
“Passei uma semana fazendo exames. No hospital, os donos da empresa que eu trabalhava me ligavam. O médico uma hora pegou e falou assim, ‘me dá esses três celulares aqui’, ligou pro dono e falou assim, ‘ó, o celular dele está comigo e eu estou desligando’. Eu pensei que eu ia ser demitido”, relembrou Marcelo Rigo.
APAGÃO INTERNO
Em 2005, quando esse episódio aconteceu, a Síndrome de Burnout ainda não tinha essa denominação. Ela passou a ser classificada como uma doença ocupacional apenas em 2022. Imagine pilotar um avião no modo automático por um longo período. Você está ali, mas não sente mais o controle. A máquina, por mais eficiente que seja, precisa de você: da reação e da sua humanidade. Mas, sem perceber, você já perdeu a capacidade de identificar que está operando no automático. É aí que o desastre se torna iminente e visível. O corpo te avisa. Mas o “colapso” começou muito antes, silenciosamente, dentro de você.
A Síndrome de Burnout é esse apagão interno: invisível à primeira vista, mas devastador. Segundo dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), ela atinge cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros e tem como principal gatilho o excesso de trabalho.
“O médico falou assim: ‘quer um conselho?’. Eu falei que sim e ele: ‘troca de emprego’. Isso me marcou muito, assim, sabe? Que ele falou, ‘você quer melhorar?’ Eu falei, ‘quero’. Ele falou: ‘troca de emprego, entendeu?’. Então, assim, se você me perguntar qual foi o meu tratamento: trocar de emprego. Três meses depois eu troquei de emprego. Eu saí dali determinado a sair daquela empresa. Falar sobre isso é muito importante, quando você divide e não tem vergonha de tratar esse assunto. A maior lição que eu tirei disso tudo é nem tudo vale a pena pelo que você quer. Você precisa olhar, analisar e ter calma”, revelou Marcelo Rigo.
“UTI MENTAL”
Em março deste ano, a empresária piauiense e influenciadora digital, Mikaella Britto, dividiu com seus seguidores o processo de descoberta do diagnóstico da Síndrome de Burnout, em outubro de 2024. Ela chegou a ter uma crise de choro na academia, após se sentir mal.

“Eu tive um gatilho depois de um evento que a gente fez, que foi muito grande. No fim das contas, eu estava exausta, muito cansada. Era um sábado e eu estava muito exausta. No domingo, eu passei o dia muito mal, com sensações de uma pessoa depressiva, entristecida, não queria sair da cama e meu marido percebia que algo não estava legal. Eu esquecia certas coisas. Eu comecei a falar sobre doenças para o meu marido, que eu tinha certeza que eu estava com alguma doença grave. Eu estava com perca de memória, teve um dia que eu quase bati o carro. Eu estava no automático”, relatou a influenciadora Mikaella Britto.
Além das funções como empresária e influenciadora, Mikaella Britto também é mãe. E como muitas mulheres, sente os efeitos da cobranças externas que sobrecarregam sobremaneira a figura feminina. O Burnout é multifatorial, ainda que tenha como causa determinante o excesso de trabalho.
“Eu costumo dizer que o Burnout é uma UTI, mas é uma UTI mental. É uma UTI de você dizer assim: ‘ninguém está conseguindo abrir meu cérebro para ver o quanto ele está embaralhado, ele está ruim’. Mas se a gente olha uma pessoa caída no chão depois de um acidente, a gente diz ‘eu tenho certeza que aquela pessoa vai para UTI’. O problema do Burnout é que ele não transparece. A gente vive uma rotina no piloto automático. E muita das vezes a gente justifica o próprio Burnout, que é o mais doido”, citou a empresária.
UM TEMPO FORA DA INTERNET
Mikaella Britto conta que tomou remédio para tratar ansiedade e decidiu passar um tempo afastada das atividades de trabalho para cuidar de si.
“O que vai fortalecer é a terapia, é reorganizar a agenda, é melhorar tudo isso. Na época, eu passei uma semana sem rede social, sumi literalmente porque eu precisava. Tive uma equipe fantástica, ninguém mandava mensagem pra mim, as pessoas só mandavam mensagem pro meu marido. Ninguém levava problema pra mim. Eu vi sobre o que é uma cultura forte e respeitosa. Todo mundo fala sobre uma cultura forte, mas ninguém fala sobre cultura respeitosa. A cultura respeitosa, ela vem respeitar os limites das pessoas, entender as dores, identificá-las e respeitá-las”, afirmou a influenciadora.
“MEU CORPO TREMIA E EU QUERIA ABRAÇAR TUDO”
A confeiteira e educadora física, Katia Monte, chegou a ficar internada no ano passado após o diagnóstico da Síndrome de Burnout. Ela achava que estava infartando, com dor no peito e tremores pelo corpo, quando os exames não apontavam nenhuma causa física para os sintomas. Sentia dores de cabeça com frequência.

“Eu tive que me afastar do trabalho. Comecei a tomar medicação, depois iniciei a terapia. A vigilância é constante. Ele não desaparece, ele já está ali, instalado. E se você não começa a cuidar, a tratar, a dar atenção pra isso, a mudar a rotina mesmo, ele volta. O meu aprendizado foi o seguinte: as pessoas sempre diziam que eu parecia a “mulher-maravilha”, um super-homem mesmo, sabe? Porque eu queria abraçar tudo. E aí eu aprendi que eu preciso delegar. Eu não posso fazer tudo sozinha. E isso, pra mim, é muito difícil”, relatou a confeiteira à coluna.
“APRENDI COM MINHA FAMÍLIA A SER PAU PARA TODA OBRA”
Para sair desse quadro de saúde, Katia reduziu as horas e dias de trabalho. Os casos citados acima têm muitas características em comum. A ambiência, a cultura corporativa, familiar e o que se espera de um ‘um homem bem-sucedido’ ou de uma ‘mulher forte’, muitas vezes leva a um cenário de adoecimento psíquico. Como as doenças psicológicas não são visualizadas a olho nu, são constantemente desmerecidas, estigmatizadas e subestimadas socialmente.
“Eu vim de uma família em que a mulher tem que ser forte, independente, como dizia a minha avó: “pau toda obra”. Então eu cresci com essa ideia de que tenho que dar conta de tudo, que sou capaz, que vou conseguir tudo. Mas às vezes… você não é. Às vezes, você simplesmente não é. E, quando você ultrapassa o seu limite, aí ele [o Burnout] vem. E quando vem… Olha, eu digo de coração: eu não desejo isso pra ninguém. É uma sensação muito, muito ruim. Você se sente impotente. Impotente mesmo. Eu ainda estou nesse processo de aprendizado, de conviver com isso. Ainda estou aprendendo a delegar mais”, pontuou Katia Monte.
“REMEDIAR O BURNOUT É MUITO COMPLEXO”
A ciência já reconhece que a Síndrome de Burnout leva à depressão e à ansiedade. Antes da classificação pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2022, como uma doença ocupacional, a Medicina tratava o estresse ou algum distúrbio neurovegetativo. Hoje, o mundo caminha para mais consciência sobre a atenção e a prevenção ao Burnout. O médico psiquiatra Ralph Webster explica que o diagnóstico clínico vem primariamente, com a perda de produtividade. Os sintomas físicos aparecem primeiro do que os sintomas mentais.

“Remediar burnout é um negócio muito complexo, porque envolve muitas vezes mudanças de condição de trabalho. O diagnóstico geralmente é do médico clínico. Na verdade, o Burnout quando chega no psiquiatra ou no psicólogo, já está grave. Mas o médico de saúde ocupacional, o médico do trabalho ou um clínico da empresa ele era quem deveria estar dando diagnóstico naquelas pessoas que começavam a cair a produtividade e que começavam a ter atestados repetidos. Então, às vezes, o problema é esperar que a pessoa vá para um psiquiatra ou psicólogo porque você já perdeu praticamente o funcionário”, esclareceu o psiquiatra.
MEDO DE PERDER O EMPREGO
Uma realidade muito frequente nos consultórios e que dificulta o tratamento do Burnout é o medo de perder o emprego. Atestados psiquiátricos, sugestões para redução de carga horária ou de função, ainda são questões que comumente são recebidas com resistência por parte do mundo corporativo.
“A história talvez mais característica do Burnout é quem bate meta, bater meta talvez seja a coisa mais associada. Porque as metas são impostas por alguém que não as cumpre. As metas são impostas aos funcionários para fazerem coisas que cada vez garantam maior produtividade a uma empresa e maior o ganho aos patrões, principalmente. Então essa pressão para produzir ela uma hora vai esgotar o funcionário”, narrou o psiquiatra Ralph Webster.
PACIENTES CONFUNDEM COM TDAH
Além disso, os sintomas são subjetivos. A dificuldade de concentração e a perda de produtividade estão entre os sintomas mais frequentes e que geram muitas dúvidas nos pacientes. Para isso, é preciso aprender a trabalhar e investigar as causas práticas e inconscientes que sustentam essa tendência de comportamento.
“Às vezes, as pessoas acham que estão é com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) que não consegue se concentrar e fazer as coisas, não consegue mais produzir como antes. Antes de vir os sintomas depressivos propriamente dito da tristeza e do choro, a pessoa tem essas perdas de concentração e essas desatenções de, por exemplo, não saber nem o que estava fazendo. A pessoa simplesmente está começando a desligar a sua capacidade de atenção, é quase neurológico isso”, considerou Ralph Webster.
Práticas de atividade física, meditação e desconexão dos gatilhos que geram ansiedade e aumentam a “pressão” com o que o indivíduo vive são as mais recomendadas. Ainda assim, vale destacar, o quanto ainda não são democráticas ou acessíveis a homens e mulheres que se submetem a rotinas exaustivas para conseguir o sustento da família ou ascender financeiramente.
SOFRIMENTO COM MEDIDA
Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, tem uma frase famosa: “qual a sua responsabilidade na desordem que você se queixa?”. E não, o questionamento não é uma insinuação sobre a culpa individual para um problema social que atinge cada vez mais pessoas. Mas um lembrete, para cultivar os espaços de lazer e prazer que lhe cabem, para cultivar os silêncios necessários, as horas sem rolar o feed ou olhar o WhatsApp, aquele plantão que talvez você consiga trocar. O país é desigual, alguns são atingidos mais do que outros. Mas a saúde é um bem caro demais, universalmente.
No livro Burnout, das escritoras Emily Nagoski e Amelia Nagoski, há uma interessante reflexão sobre o sofrimento, que, por si só, não tempera o caráter ou não nos faz mais dignos do triunfo: “O que nos deixa mais fortes é o que nos acontece depois que sobrevivemos àquilo que nos matou. O que nos deixa mais fortes é o repouso. O repouso acontece, muito simplesmente, quando paramos de usar uma parte nossa exausta, desgastada, danificada ou inflamada, para que ela possa se renovar”. Vamos?



