Exclusivo: última foto flagra empresário do “Pagode do Chico” negociando Land Rover na avenida Maranhão antes de fugir

“Chegou o ponto X mesmo, foi quando ele desativou o telefone corporativo, desativou o Instagram da empresa, desativou o Instagram pessoal dele e desativou o número dele também e parou de responder todo mundo”.

A declaração é de uma das vítimas de Francisco das Chagas Chaves da Silva, conhecido simplesmente como Chico, sobre os acontecimentos deste ano. Foi quando ele, que se apresentava como “trader”, desapareceu ao lado da namorada, Kayra Cardoso, levando junto mais de R$ 100 milhões captados de empresários do Piauí e do Maranhão e até de Minas Gerais. Dinheiro que agora teria sido transformado em “criptomoeda”, segundo apurou a Todavia. A imagem obtida com exclusividade abaixo registra uma das últimas vezes em que Chico foi visto em Teresina.

Na ocasião, estava em um boteco, na Avenida Maranhão, zona Norte, onde negociou um carro, uma Land Rover. O veículo foi usado por ele para deixar o estado. A suspeita das vítimas, inclusive comunicada à polícia, é de que tenha passado pelo Paraguai ou Argentina, rumo à Europa, possivelmente, para Portugal.

Chico teria negociado carro para fuga em bar da Av. Maranhão (Foto enviada a Todavia)

Sumiram também os sonhos de mais de 400 pessoas, investidores diretos e indiretos (estes últimos aplicavam valores menores por meio da chamada ‘banca’ de outro investidor) algumas agora afundadas em dívidas, depois de venderem casas, pegarem empréstimos bancários e até recorrerem a agiotas, confiando nas promessas de retorno rápido feitas pelo “trader”.

Aqueles que apostaram tudo na Xtreme Trader, empresa de Chico, estão até mesmo trabalhando como motorista de aplicativo para manter a sobrevivência. O maior dos investimentos entre as vítimas foi contabilizado por R$ 4 milhões, mas, há também somas de R$ 500 mil a R$ 300 mil por pessoa.

“É algo que destruiu vários sonhos, pessoas que já atentaram contra a própria vida, venderam casas e carros […] Eu já escutei áudio de criança chorando, dizendo que não tem o que comer em casa. Já chegamos no ponto de fazer vaquinhas. Tem que ter muito estômago até para falar. De março pra cá começou a atrasar os repasses, sob a justificativa de que a empresa [Xtremer] sofreu um bloqueio. Mas, sem nunca provar. A gente foi pesquisar, quem está dizendo ai que as vítimas são pessoas leigas, não são. Constatamos que esse bloqueio se tratava de uma falácia. Uma parte desse dinheiro ele perdeu e a outra ele fugiu. Cada vítima tem uma família, então, são muitas pessoas afetadas”, declarou uma das vítimas com a voz embargada.

Vítima durante reunião com a polícia (Foto: Paula Sampaio)

Rolex, bebidas caras, carros de luxo e reuniões com clientes

Foto enviada à Todavia

Chico, era o tipo de sujeito, segundo apurou a coluna, sabia criar “ilusões” para atrair quem queria perto de si. Fazia questão de abrir marcas de whisky dos mais caros, como Blue Label e Gold Label, contam testemunhas. Vestia-se com camisas bem passadas, barba feita, roupas caras e um relógio que ostentava como um título de nobreza: um Rolex.

Montou um império em cima da promessa de “trader profissional” e “rentabilidade segura”, onde se vendia como corretor de investimentos. Tinha formação como educador físico e também era o organizador do “Pagode do Chico”.

A Extreme Trader, empresa de fachada, funcionava há mais de três anos, e tinha um escritório bonito e bem estruturado no Shopping Cocais em Timon. Também contava com outros dois sócios e uma secretária: Igo, Helisson e Mônica. Em relação à família, ele foi descrito como alguém “apegado” aos entes queridos mais próximos.

Chico ao lado da mãe e sócios da empresa (Foto enviada à Todavia)

Captava investidores com anúncios nas redes sociais, eventos na própria casa em Timon, onde tinha carros de luxo na garagem do tipo BMW. Além do famoso boca a boca. “Traz um amigo”, dizia Chico aos já convertidos.

“A piscina da casa dele tinha aquelas telas gigantes”, relatou uma fonte que já esteve algumas vezes com o suposto trader. “Ele fazia festas com todos os investidores, fazia questão de pagar tudo”, pontuou.

O drama atinge servidores públicos, médicos, empresários, professores. “Não era nenhum leigo. A maioria das pessoas era bem esclarecida”, disse uma das vítimas.

Prints de divulgação do Chico como “trader” nas redes sociais (Foto enviada à Todavia)

Esquema de “alavancagem”

Chico, segundo denunciam as vítimas, recorria a uma estratégia conhecida como alavancagem, apresentada por ele como um método para multiplicar os lucros dos investidores: os rendimentos prometidos eram “reinvestidos”, impedindo que o dinheiro saísse da empresa e alimentando a impressão de prosperidade.

“Ele não fez isso de uma hora pra outra. Não foi como se tivesse acontecido algo repentino que o obrigou a fugir. Segundo informações que a gente conseguiu, desde o ano passado já vinha saindo muito dinheiro da empresa, o nosso dinheiro, na verdade. Foi aí que ele começou a ter dificuldade para pagar todo mundo. Porque, na realidade, o negócio já estava funcionando como uma pirâmide financeira. O dinheiro dos novos investidores era usado para pagar os antigos”, relatou.

Foto: reprodução/ redes sociais

Comissão de 10 vítimas é ouvida pela polícia

Após ser indagado pela Todavia, uma ligação do delegado-geral da Polícia Civil do Piauí, Luccy Keiko, alinhou uma reunião entre as vítimas e o delegado Luciano Alcântara na tarde da segunda-feira (23). O encontro aconteceu no auditório da sede do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

O delegado entrou na sala com um bloco de anotações em mãos e conversou por quase 3h, ouvindo os relatos das pessoas lesadas. A maior parte das vítimas não quis conceder entrevistas ou permitiram qualquer registro em imagens. Mas, além do golpe, havia algo em comum entre todas elas, um olhar pesado e cansado, como quem não tem uma boa noite de sono há dias.

Delegado Luciano Alcântara (Foto: Paula Sampaio)

Luciano Alcântara confirmou que a polícia já recebeu formalmente, pelo menos, 80 denúncias relacionadas ao caso do Chico. O investigado atuava sob o rótulo de “trader”, um termo comum no mercado financeiro que, na prática, designa alguém que negocia ativos. No entanto, a complexidade da fraude e a forma como os recursos eram captados levantam suspeitas de que o caso vá além do simples estelionato.

“Nós temos indícios de que pode ter ocorrido um crime de estelionato, mas em uma modalidade diferenciada, com pena mais severa. Trata-se do estelionato relacionado à gestão ou oferta de serviços envolvendo valores mobiliários, como ações da bolsa. Nesse caso, as vítimas acreditam que ele atuava como se fosse um gestor financeiro, sem a devida autorização legal”, pontuou.

Enquanto o estelionato comum tem pena de um a cinco anos, essa modalidade específica pode levar a uma pena de quatro a oito anos de reclusão, justamente por envolver o manuseio indevido de investimentos e o uso da estrutura do mercado financeiro para aplicar o golpe.

Polícia investigará se há mais envolvidos

Em resposta a Todavia, o delegado não descarta a possibilidade de que outras pessoas estejam envolvidas na operação. Apesar do investigado ser o principal sócio da empresa, ele contava com pessoas para promover eventos, captar clientes e realizar atendimentos.

“Esse não é um crime que normalmente se comete sozinho. Alguém operava junto, auxiliava na divulgação, na captação, na logística. O que estamos investigando agora é quem era apenas funcionário e quem realmente participou com conhecimento do golpe”, disse.

Ao falar sobre os próximos passo, o delegado também confirmou que pode levar a bloqueios de contas e sequestro de bens, desde que fique comprovada a origem ilícita do dinheiro.

Namorada, Kayra Cardoso teria desaparecido junto com Chico (Foto: reprodução)

Mas por que as vítimas confiaram tanto dinheiro com o Chico?

O que permitiu que tantas pessoas fossem enganadas, sobretudo, o fato de que, no início, algum lucro foi entregue aos primeiros investidores. Quem começou com quantias modestas acabou reinvestindo valores maiores, à medida que o suposto trader conquistava confiança e acumulava indicações. Os chamados “rendimentos” eram pagos via PIX, direto na conta dos clientes.

Para o gestor financeiro, Jonas Carvalho, CEO da empresa Hike Capital, esse já um sinal para ficar alerta. “Não se transfere dinheiro direto pra conta de ninguém. Isso já é um dos sinais clássicos de golpe”, explica Jonas. “Esses esquemas ping-pong funcionam assim: a pessoa diz ‘me dá 100 mil que no mês que vem eu te devolvo dois, depois cinco’, como se fosse simples. Mas investimento sério não funciona desse jeito”, avaliou.

Jonas aponta também que prometer 3%, 5% ou 10% ao mês, é totalmente fora da realidade do mercado financeiro brasileiro, que trabalha com taxas muito mais modestas.

Jonas Carvalho (Foto: reprodução)

Outro ponto: prometer dinheiro garantido em investimentos é um dos maiores indícios de fraude. O mercado financeiro não garante rendimentos fixos elevados, principalmente em renda variável. Jonas alerta que, quando alguém fala em “garantia”, é preciso ligar o alerta imediatamente.

Ele reforça que qualquer pessoa que opera com investimentos deve estar registrada na CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Bons profissionais têm formação sólida.

Segundo Jonas Carvalho, um dos fatores psicológicos que favorece a ação dos golpistas é o desejo de enriquecimento rápido, algo que contraria a lógica real do mercado. Ele cita Warren Buffett, tido como o investidor mais bem-sucedido da história, que disse: “Ninguém quer ficar rico devagar”. Esse imediatismo e a promessa de lucros fáceis criam o ambiente perfeito para o golpe.

Jonas termina explicando o que realmente é um trader: um profissional que compra e vende ativos, geralmente em instituições financeiras sérias, lidando com operações complexas e de alto volume. Os golpistas, porém, se apropriaram desse termo para parecer sofisticados e legítimos, quando, na prática, usam gráficos e jargões apenas como cortina de fumaça.

“Conceitualmente é um negociador, ele vai fazer vendas, ele vai fazer compras. Só que esses golpistas usam esse nome do trader, porque eles vendem esse sonho do gráfico, do sobe-desce. Eles trazem essa complicação do mercado financeiro que não é real, porque a volatilidade não é uma questão. A questão é o valor que você está ganhando versus o preço que você está pagando”, pontuou.

Será esse o maior golpe de estelionato do Piauí?

Golpes se sustentam em promessas de lucro fácil, mas também na construção de uma imagem sedutora, de sucesso e proximidade. As vítimas não enxergaram um golpista ali. O drama vivido por centenas de famílias serve de alerta: no universo dos investimentos, desconfie de quem oferece retorno alto demais com risco baixo demais. E, sobretudo, lembre que, muitas vezes, o prejuízo vai além do dinheiro afeta relações, sonhos e a própria segurança para aqueles de quem você gostaria de cuidar.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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