Roupa Nova, Maurício Manieri, Zé Ramalho e Titãs: Teresina ama os grandes hits e tem público, sim, para atrações nacionais

“Primeiro, a música tem letra, tem melodia e passa um sentimento bom, né? São canções que me fazem voltar no tempo. Trazem uma memória afetiva muito forte da infância, da família, de tudo isso junto”, a fala é da professora e psicóloga, Sileyane Sampaio, 48 anos, ao ser questionada pela Todavia sobre o tema central da edição desta semana: Teresina tem mesmo público para os grandes sucessos dos anos 80, 90 e 2000?

Professora e psicóloga é grande fã de shows em Teresina (Foto: Arquivo pessoal)

Grande fã de sucessos das décadas passadas, ela não falta shows e cita Titãs, Lulu Santos, Legião Urbana e Roupa Nova. A resposta da professora é afiada e não vacila na defesa dos clássicos brasileiros:

“O último que fui foi o do Roupa Nova, em novembro do ano passado. Foi emocionante, porque muitas músicas deles marcaram novelas. E naquela época eu era muito noveleira. Ouvir essas músicas me transporta direto pra aqueles momentos, como se estivesse no sofá com minha mãe de novo e a TV ligada. Uma das que eu mais gosto é A Viagem, mas também tem aquela que diz ‘porque os corações não são iguais’… São músicas que me dão um gostinho bom, um prazer em ouvir. Estão na minha playlist diária até hoje”, contou.

E, de fato, há estudos científicos que explicam porque algumas marcas, e nesse caso bandas, atravessam gerações: elas se entrelaçam com aquilo que construímos como memória afetiva. São lembranças de domingos felizes com nossos pais, daquele show em que demos nosso primeiro beijo, de uma noite inesquecível com os amigos. Nomes que sobrevivem com carinho ao tempo em nossas mentes não o fazem apenas por qualidade técnica ou apelo comercial, mas porque se tornaram parte da nossa história.

Nos anos 70, por exemplo, foi lançado um desafio entre a Coca-Cola e Pepsi: um teste às cegas que mostrava que, no paladar isolado, muitos consumidores preferiam o sabor da Pepsi à Coca-Cola. O sucesso da campanha levou a Coca-Cola a reformular sua receita em 1985, lançando a “Nova Coca”. Mas o tiro saiu pela culatra: o público rejeitou a mudança e exigiu a volta da fórmula original. O motivo? A Coca-Cola havia deixado de lado o que realmente importava, que era a sua conexão emocional com os consumidores. Enquanto a Pepsi vencia no sabor técnico, a Coca-Cola vencia na conexão emocional, nos rituais de família, nos comerciais natalinos e nos momentos de celebração. A marca, na verdade, vende emoção. E emoção, como se sabe, não se troca por outra receita.

Em propaganda de 1995, Coca-Cola aposta em sentimento (Foto: reprodução)

Você pode até não perceber, mas também é assim com nossas músicas favoritas

Assim, também acontece com músicas que foram as favoritas de nossos pais e quase passadas, como se fosse uma herança e, agora, também seguem sendo as nossas. É como canta o próprio Roupa Nova, em A Viagem, grade sucesso de 1994 e uma das canções favoritas de Sileyane: “Coisas do passado são alegres quando lembram, novamente as pessoas que se amam”.

E, apesar das canções estarem cada vez mais em um formato “TikTok”, onde até o refrão passa a ser pensado para caber em 30 segundos, o mundo em uma pós-pandemia, onde teve que ficar quase dois anos em completo isolamento, como se tem visto, tem buscado cada vez mais por essa conexão e leveza. E muito. É por isso que a coluna acha tão apropriado falar sobre esse tema.

E por falar em rede social, a última grande trend viral consistia, justamente, em colocar as letras de músicas atuais, principalmente, o funk, através do uso de Inteligência Artificial, nas batidas que marcara o período da Jovem Guarda. A atriz global, Larissa Manoela, foi uma das que entrou na trend, e fez uma “dancinha” vestida como a sua personagem da novela das 6h, “Êta mundo melhor”, a Estela. “Funk de época ela pode, né?”, escreveu a atriz.

E, como você verá a seguir, a música é realmente viciante:

@larissamanoela

ESTELA MULHER 😱🌟🤣 Funk “de época” ela pode neh? Hahahah

♬ Popotão Grandão (1982) – BLOW RECORDS & Mc Neguinho do ITR

Teresinense compartilha gosto musical entre gerações, aponta músico

Mas, e Teresina, onde está em meio a esse grande público que já demonstramos que existe? Bem, Teresina também tem seu reflexo nesse espelho. Como observa o músico Zé Roraima, a cena musical da capital piauiense não ficou parada no tempo. Mas, ele cita que há algo que resiste e pulsa: a relação entre gerações.

Roraima é um dos muitos artistas que começaram sua trajetória ainda em um Piauí onde a música local era distribuída em fitas demo, vendida após o show e tocada nas rádios comunitárias. Hoje, divide palco e bastidores com nomes da nova geração, mostrando que há espaço para o novo sem esquecer de onde se veio.

“Assim como eu, há outros artistas com mais, ou menos tempo de estrada,  como André de Sousa, Julio Medeiros, Machado Jr, Edvaldo Nascimento, Mirton, Geraldo Brito, Vavá Ribeiro, Galvão Jr, Fabio Crazy, Gonzaga Lu, Lily Araujo, Elayne Leonel, Soraya Castelo Branco, Sergio Matos, João Claudio, Maestro Aurélio Melo,…São exemplos de músicos que continuam atuantes com as novas linguagens, produzindo e dialogando bem com a nova geração inovando e enriquecendo a música piauiense. E sim, aprecio quando posso todos esses nomes nos palcos. A grande dificuldade são as coincidências nos horários das apresentações que é bem comum”, brincou.

Músico Zé Roraima (Foto: Germano Portela)

Ele vê com bons olhos os projetos que criam pontes entre as gerações, como o Sintonia, de Ricardo Totte. A ideia é celebrar artistas piauienses com uma carreira consolidada, criando uma relação entre novos cantores que interpretam músicas do artista homenageado e o público.

“Sempre tem gente nova e muito talentosa trabalhando com a gente e com isso acabamos também aprendendo com eles. Mas mesmo assim, alguns artistas da nova geração podem não ter consciência da importância dos artistas que vieram antes deles. É fundamental reconhecer e respeitar a contribuição dos pioneiros e mestres da música, pois eles abriram caminhos para as novas gerações. Afinal de contas, a música é uma arte que se constrói sobre as bases estabelecidas pelos que vieram antes”, avaliou Zé Roraima.

A nova lógica do mercado musical em Teresina: das apresentações intimistas a grandes shows

O produtor musical Elimar Anuque viveu de perto o auge das bandas de baile em Teresina. Começou nos anos 80, tocou até 2012 e hoje trabalha com produção em estúdio, mas carrega na memória uma época em que os músicos eram os protagonistas das noites da cidade. “Naquela época, você ia pra uma festa e o que tinha era a cerveja e a banda. As pessoas iam pra dançar e pra ver o conjunto tocar. Era uma coisa tremenda”, descreveu.

Mesmo sem defender que tudo dependa de apoio governamental, ele acredita que a cena local precisa ser revitalizada com espaços, agenda e valorização. “As bandas de antigamente andavam com os próprios pés. Tocavam para as prefeituras, para eventos, tinham contrato fechado para o ano todo. Hoje o que a gente vê são mais apresentações de grupos de duplas ou de trios, em restaurantes, bares, algo mais intimista”, disse.

Top Gun e Os Brasinhas (Foto: Montagem)

Hoje, segundo ele, a cena musical local se concentra em apresentações menores, com duplas e trios em restaurantes e eventos mais intimistas. “A receptividade existe, o público ainda aplaude, mas não tem mais aquele glamour de antes. Antes tinha assédio, tinha fascínio. Hoje é outra lógica” , disse. Elimar cita bandas como Top Gun e Os Brasinhas, que são sucesso de público e mantêm viva a memória musical tocando sucessos das décadas passadas, mas reconhece: “Hoje em dia, o que funciona agora são os grandes shows de fora, com estrutura e nomes, grandes palcos que captam a atenção do público mais novo”, disse.

Elimar Anuque (Foto: Arquivo pessoal)

O público sabe o que quer, pede e comparece quando recebe resposta a altura!

Exemplo disso são os grandes shows que, vez ou outra, tomam conta de Teresina e arrastam multidões. Mart’nália, por exemplo, abriu a temporada 2025 do Projeto Seis e Meia com casa cheia no Theatro 4 de Setembro. Zeca Baleiro e Lulu Santos também encantaram plateias locais, assim como Humberto Gessinger e, mais recentemente, Zé Ramalho. No último Salão do Livro do Piauí, o clamor nas redes sociais foi quase grande: queriam Alcione como atração de encerramento. E não é saudosismo. É resposta de que Teresina tem sim público, da geração millennial à geração Z, para todo tipo de música.

Esse apetite cultural tem muito a ver com a própria natureza da cidade. Teresina não tem praia, não tem serras ao redor, tampouco atrativos turísticos típicos de lazer e férias prolongadas. Seu turismo é majoritariamente de negócios (congressos, simpósios, eventos institucionais) e isso acaba fazendo com que os grandes shows sejam um “verdadeiro acontecimento” na cidade.

E, como já é de costume, a Todavia faz o dever de casa, e antecipa duas grandes atrações que desembarcam em Teresina e prometem movimentar a cena musical da capital.

Foto: reprodução

No dia 6 de agosto, é a vez do grupo Roupa Nova, já citado por fontes desta edição, subir ao palco com seus clássicos que marcaram gerações. Já no dia 4 de outubro, Maurício Manieri apresenta a turnê Classic Super Hits, com um repertório que reúne sucessos como “Minha Menina”, “Bem Querer”, “Pensando em Você” e “Primavera (Vai Chuva)”.

A chegada desses nomes reforça a força do mercado de shows na cidade. E, como mostrou esta reportagem, o público teresinense tem se mostrado atento, exigente e presente. Pede, valoriza e lota os espaços, sempre que a cidade responde à altura.

Foto: reprodução/ Twitter/ X

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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