Amor pelo pai e a mulher do coração congelado de medo; o caso da Frozen do Piauí

Assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, a Coluna Divã traz relatos reais enviados por leitores de forma anônima. O espaço se propõe a ser um ponto de escuta sensível em meio ao excesso de informações que circulam pelas telas e redes.

Com uma abordagem psicanalítica, Lamartine interpreta conflitos afetivos, dilemas familiares e questões subjetivas trazidas por quem escreve, sempre com a garantia de anonimato.

Leitores interessados em ter suas histórias analisadas na coluna podem enviar relatos para o e-mail contato@boletimbrio.com ou pela página no Instagram @boletimbrio.

Relato enviado por uma leitora anônima

Foto: reprodução

Desde criança, sempre fui muito apegada ao meu pai. O significado de amor para mim sempre foi ele. Essa relação foi a minha maior referência de vínculo emocional. E mesmo hoje, já adulta, percebo que esse vínculo continua ocupando um espaço na forma como me relaciono com o mundo, com outras pessoas e, talvez, até comigo mesma.

Quando criança, eu sentia muito medo de que algo acontecesse com ele, medo de perdê-lo. Esse medo era real, constante, e chegou a interferir no meu dia a dia. Prejudicava minha ida à escola, minha concentração, meu bem-estar. Precisei, ainda muito nova, fazer acompanhamento psicológico para tentar desenvolver mais autonomia e lidar com essa angústia. De certa forma, funcionou. Mas esse medo, mesmo transformado, nunca desapareceu por completo.

Hoje entendo que esse sentimento está ligado ao significado que meu pai tem na minha vida: símbolo maior de afeto, proteção e amor incondicional. Mesmo com o passar do tempo, com o afastamento natural e as mudanças na nossa relação, essa sensação de perda ou o medo dela permanece. Imagino que esse tipo de medo possa ser comum entre filhos, especialmente conforme envelhecemos e percebemos a fragilidade das figuras que sempre foram nossas bases.

Quero compreender o que esse apego diz de mim e o que, talvez, eu ainda precise elaborar internamente para não seguir vivendo sob a sombra da perda de algo que ainda está presente.

Mulher teresinense de 28 anos

Análise do psicanalista Lamartine Guedes

Cara Frozen do Piauí (te chamarei assim!), você me lembra a personagem central do filme Frozen, Elsa. Assim como a princesa, você parece carregar uma síndrome de fragilização pessoal e apego ao pai, conhecida na psicanálise como Complexo de Electra. Na infância, pela carência afetiva e fragilidade emocional de seu pai, você acabou presa a ele, sendo usada como ponto de apoio.

Um pai inseguro quanto a seus afetos e ações pode, inconscientemente, transferir à filha a responsabilidade por suprir suas necessidades emocionais. Isso, no seu caso, dificultou uma relação plena com sua mãe, prejudicou o desenvolvimento da sua capacidade de se relacionar com os outros e te fez congelar diante dos enfrentamentos e conflitos da vida. Ser o sustentáculo emocional de alguém, especialmente do próprio pai, é uma carga muito pesada e injusta para uma criança.

A personagem de Frozen, da Disney, era exatamente assim. Filha mais velha, com um pai que tinha dificuldades amorosas com a mãe e que, por isso, transfere à filha a missão de cuidar dele e, depois, de todo o reino. O medo dessa responsabilidade fez com que ela se tornasse fria, desenvolvendo o sintoma simbólico de congelar tudo ao seu redor. Qualquer tipo de sentimento, vulnerabilidade ou aquecimento emocional parecia reprovável, já que ela precisava manter-se firme e inabalável para não decepcionar o pai.

Foto: reprodução

Frozen também teve dificuldades de aceitar o destino tradicional do feminino: casar, amar um homem, ter um filho. Como resultado de tanto medo, ela congela seus sentimentos. E quando seu sustentáculo o pai morre, ela foge de si mesma e dos outros, isolando-se em um castelo defensivo de gelo.

Sua história, Frozen do Piauí, de adiar o crescimento e o enfrentamento do mundo adulto, também lembra a música de Cássia Eller: “Quem sabe ainda sou uma garotinha…” Você parece ecoar o verso: “Peço a Deus um pouco de malandragem (coragem), pois sou criança e não conheço a verdade, eu sou poeta e não aprendi a amar.” Sua vida, fixada no pai, fez com que seu ego se tornasse inseguro, medroso, congelado de medo, apoiado nele como uma bengala. Daí o receio de perdê-lo, pois você sente que, sem ele, tudo pode desabar.

Foto: reprodução

A morte do pai, no conto de fadas da Disney, desencadeia uma série de tragédias na vida da personagem. Tragédias causadas pelo medo paralisante de enfrentar a vida sem ele…

Você, assim como ela, por um apego excessivo ao pai e dificuldade de internalizar seu lado feminino, tornou-se uma “monstra do gelo”: autosuficiente na aparência, mas distante do mundo ao redor. O outro o parceiro amoroso que não é o pai começa a parecer um perigo. E na ausência do pai, o mundo se torna assustador. O coração congela de medo, e a defesa é o isolamento.

Lembra da cena clássica de Frozen em que ela canta “Livre estou”? Mas livre de quê? A resposta parece clara: livre da necessidade de enfrentar a vida sem o pai, livre da obrigação de se bancar emocionalmente e assumir seu destino feminino, o de alguém que ama, se relaciona e se permite sentir.

A personagem só se liberta da maldição de ser a “monstra do gelo” quando faz um gesto verdadeiro de amor por alguém que ama: sua irmã. Todos lembram do momento em que ela se sacrifica para salvá-la. E é aí que aparece o caminho possível para descongelar o coração: acreditar no amor do outro e permitir-se apostar no poder transformador do afeto, esse amor que aquece e derrete até os corações mais congelados.

Você, Frozen do Piauí, também precisa “matar” simbolicamente o pai ou seja, deixá-lo de ser o centro de tudo e abandonar o medo de viver experiências amorosas sem a presença dele. Assim como Elsa se liberta pelo amor à irmã, você precisa vencer seus próprios medos e se reconciliar com o amor da mãe tanto a mãe que você teve quanto a que você deseja ser. E isso nos leva a uma pergunta fundamental: você já pensou em ser mãe? Talvez esse lado seu mereça ser mais explorado.

Foto: reprodução

Distribua o amor idealizado e retido que foi projetado apenas no pai para outras direções: para a mãe, para um filho, para o trabalho, para o próximo e, por fim, para um parceiro. Abra-se para um amor que venha de outro lugar.

A Frozen do filme não chega a esse ponto: ela não se casa nem tem filhos, mas, com o coração descongelado, decide ser mãe do seu povo e assume com coragem o governo do próprio reino. Ela se autoriza a ocupar um novo lugar.

E você? Vai ser mãe como?

Ser mãe, para a psicanálise e para o mundo, é o ato de cuidar. E há muitas formas de viver essa maternidade simbólica. Para isso, é preciso apenas descongelar o coração e perder o medo de amar. Lembre-se do que disse Freud: “O amor é a única moeda que, quanto mais se oferta, mais se ganha de volta.”

Saia, então, desse castelo de gelo no qual você mesma se colocou. Torne-se adulta. Aceite sua condição feminina, sua condição de mulher. Descongele seu coração. Faça as pazes com o mundo ele pode ser bom, desde que você deseje e trabalhe para que ele seja.

Experimente amar e você verá que será amada. Faça isso, e uma revolução tropicaliente invadirá você. O amor é uma força da natureza e talvez seja a única saída que nos resta, para você e para toda a humanidade.

Boa sorte na sua missão de aquecer e derreter o próprio coração.

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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