“Quando eu era criança, já tinha mania de desligar o som da TV e ficava imitando as vozes dos desenhos animados. Eu sempre quis interpretar”. A lembrança de infância do professor de teatro é uma pista da vocação que se consolidaria anos mais tarde. Quando Moisés Chaves começou a sonhar em ser artista, ainda menino na Teresina das décadas de 1970 e 1980, a cidade oferecia poucas referências para quem desejava essa carreira. Não havia escolas de teatro, a informação circulava com dificuldade e a formação profissional dependia muito mais da insistência individual do que da existência de um mercado estruturado.
De lá para cá, integrou por 25 anos o Grupo Harém de Teatro, uma das companhias mais conhecidas do Nordeste, e participou de montagens como Raimunda, Raimunda (1986), A Força do Advogado Patheliu (1987), Ferret’s: A História de uma Cor (1988), Raimunda Pinto, Sim Senhor (1992) e Auto do Lampião Além (2000). Em 2016, assumiu a direção e a coordenação do Grupo de Teatro da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), função que exerceu até 2024, quando passou a liderar atividades teatrais no Instituto Federal do Piauí (IFPI).

Ainda adolescente, foi pela dança que ele encontrou o caminho mais próximo da atuação em Teresina. Mais tarde, buscou praticamente toda a formação artística disponível na capital, passando por cursos com alguns dos principais nomes das artes cênicas piauienses e integrando a primeira turma formada pela Escola de Teatro Gomes Campos, em 2007. “Depois que eu me formei, em 2008, com o sonho na cabeça, pego um avião e vou embora pro Rio de Janeiro achando que no dia seguinte eu ia ser contratado pela Rede Globo. Coisa nenhuma, minha irmã. Eu fui trabalhar no Sobrado Cultural, em Botafogo, trabalhei com a Patrícia Mendes no Rio durante um tempo, e em 2016 eu volto para o Piauí pra assumir o teatro da Uespi”, brincou.
Aos 60 anos de idade e 45 de carreira profissional, a história de Moisés atravessa um período em que o teatro piauiense saiu da escassez de formação profissional para a consolidação de escolas, grupos e, mais recentemente, de um mercado audiovisual em expansão. As opiniões do artista, entrevistado esta semana pela Todavia, ajudam a compreender também alguns dos principais dilemas enfrentados por quem escolhe viver da arte no estado.
Como viver de arte no Piauí?

A pergunta sobre como se tornar ator no Piauí inevitavelmente leva a outra: é possível viver dessa profissão no estado? Para Moisés, embora os caminhos de formação estejam mais estruturados do que no passado, a sobrevivência financeira ainda representa um dos maiores obstáculos para os artistas.
“Se você tentar sobreviver somente com o trabalho de ator, praticamente, não diria impossível, mas é muito difícil”, avaliou.
A fala reflete uma realidade comum a muitos profissionais da cultura. A atuação costuma ser combinada com outras atividades, como ensino, direção, produção cultural ou trabalhos em diferentes linguagens artísticas.
“Eu sobrevivo do meu trabalho, eu não tenho um emprego pra sustentá-lo. Eu sobrevivo das aulas que eu ministro, eu sobrevivo dos filmes que faço. Então eu sou um artista piauiense que honra essa profissão com muito orgulho. Quero que meus alunos não sofram o que eu sofri pra sobreviver como artista do Piauí”, pontuou.

O cinema piauiense pode mudar as regras do jogo
Se o teatro foi, durante décadas, o principal espaço de atuação para artistas cênicos no estado, Moisés pontuou que o cinema vem alterando significativamente essa lógica. Nos últimos anos, o audiovisual piauiense passou a conquistar maior visibilidade nacional, inclusive com premiações de destaque. Assim, vem também ampliando a produção local e criando novas oportunidades para atores, roteiristas, técnicos e diretores. O próprio Moisés afirma estar vivendo uma fase de aproximação com essa linguagem e se preparando para novos trabalhos no cinema.
“Com o advento do cinema, do cinema piauiense em franca expansão, pode ser que agora o mercado se estabeleça, se firme. Então essa geração nova desses meninos que estão se formando pela escola de teatro, que estão egressos de grupo de teatro, a vida deles é muito mais fácil hoje em dia do que a nossa geração, porque realmente não tem mais só o teatro, tem a possibilidade do cinema e da televisão também. Ainda tem a questão do YouTube, das redes digitais, agora tudo é muito rápido”, destacou.
Além do cinema, ele cita as redes sociais e as plataformas digitais como espaços que passaram a absorver profissionais que antes dependiam exclusivamente do teatro. Na prática, isso significa que a carreira artística deixou de estar concentrada em um único formato.
“Artista da terra é minhoca”
Entre as críticas feitas por Moisés, uma das mais contundentes diz respeito à forma como os artistas locais são vistos e tratados. Ao ser perguntado sobre o que o Piauí precisa para fortalecer a cena artística, respondeu:
“Mudar o tratamento dado ao chamado artista da terra, que é uma expressão que eu particularmente odeio, porque artista da terra é minhoca”, disse.
Na avaliação do professor, ainda existe uma cultura de prestigiar mais quem vem de fora do que quem constrói carreira localmente. O problema, segundo ele, não se limita ao reconhecimento simbólico, mas alcança também as condições de contratação e remuneração.
“Enquanto não houver um respeito, um reconhecimento, uma valorização e um investimento nos artistas piauienses locais, não vai muito longe não”, pontuou.

Moisés também criticou a ideia de que a participação de artistas locais em eventos públicos ainda é tratada, muitas vezes, como concessão ou vitrine, e não como trabalho profissional. Para ele, a ausência de remuneração adequada compromete a própria consolidação de uma cadeia cultural no estado. A forma como os cachês são definidos revela a diferença de tratamento entre artistas de fora e profissionais piauienses.
“Você analisa pelos cachês pagos. Uma pessoa de fora ganha um cachê estratosférico, enquanto aos artistas locais é dado um tratamento desrespeitoso, eu diria. Por exemplo, eu não faço nenhum festival no Piauí. Eu não faço, porque eu acho que é vergonhoso você pagar para trabalhar. Então eu fico muito triste em não poder estar fazendo os festivais, porque não acontece, não há respeito, não há valorização, não há reconhecimento por parte do governo. É como se fizesse um favor e não é um favor”, disse.
Ainda é preciso sair do Piauí para fazer carreira?
Durante muito tempo, migrar para Rio de Janeiro ou São Paulo foi visto como um passo quase obrigatório para quem desejava construir uma carreira artística. Moisés seguiu esse caminho quando deixou o Piauí após concluir sua formação. Para os dias atuais, ele faz pontuações para a nova geração.
“Hoje em dia, você morando em um lugar que tenha acesso à internet e um bom aeroporto, você vai para o mundo inteiro”, destacou. “Eu acho que você não precisa mais sair do seu lugar para trabalhar. Eu consigo morar no Piauí e trabalhar no mundo”, completou.
Embora reconheça que os grandes centros ainda concentrem parte importante da indústria cultural brasileira, Moisés acredita que a centralização perdeu força e que a permanência no estado deixou de ser um obstáculo intransponível.

Os nomes que ajudaram a construir o teatro piauiense
Ao falar sobre referências, Moisés cita os nomes da geração anterior à sua e destaca especialmente Arimatan Martins, fundador do Grupo Harém de Teatro. “Para mim, é o grande divisor de águas da história do teatro piauiense”, disse.
Também menciona Aci Campelo, associado à implantação da Escola de Teatro, e Lari Salles, figura que considera fundamental para a formação artística de sua geração.
Entre os contemporâneos, amplia o olhar para além do teatro e cita artistas como Patrícia Mellodi, Paulo Reis e Cyntia Silva.

Por que os piauienses vão pouco ao teatro?
O Piauí tem, sobretudo em Teresina, estruturas importantes para as artes cênicas, entre elas o Theatro 4 de Setembro, o Teatro do Boi e o Teatro João Paulo II. Mesmo assim, ir ao teatro ainda não faz parte da rotina de boa parte dos piauienses. Perguntado pela Todavia sobre essa distância entre a existência dos espaços e a formação de público, Moisés avaliou que o problema não é estrutural os espaços existem, mas está mais ligado ao hábito cultural.
“A gente não está habituado, toda semana, a ir assistir um espetáculo de teatro, sair para comer uma pizza depois da peça, né? A gente não tem esse costume, não está habituado. Quando eu vou para o Rio para a minha temporada carioca, eu assisto no mínimo dois espetáculos por semana. Eu tenho tudo que eu não vejo durante um ano em Teresina, eu vejo em 40 dias no Rio de Janeiro. Então isso tem contribuído muito. É necessário que você assista. Se você não vê o trabalho dos outros, não reconhece o trabalho dos outros, a sua carreira não vinga”, pontuou.

A constatação ajuda a fechar um ciclo presente em toda a sua trajetória. Se no passado o desafio era encontrar formação para quem queria fazer teatro, hoje a discussão parece envolver outra questão: como criar condições para que artistas consigam não apenas produzir, mas também encontrar público e sustentabilidade econômica para permanecer em cena.



