“Se você não for gay petista, está sendo gay de forma errada”: o que pensa André Nogueira, gay de direita do Piauí

“Eu tive a oportunidade de falar melhor com ele (Bolsonaro) e disse que era um gay nordestino, pobre de direita, do Piauí, que estava ali para entregar um abraço dos piauienses”. 

Foi assim que o estudante de Gestão Pública, André Nogueira (PP), pré-candidato a deputado estadual, hoje com 27 anos, se apresentou ao então recém-empossado presidente Jair Bolsonaro (PL) em Brasília, em janeiro de 2019. Segundo ele, fenômeno no Instagram nesse nicho político, com mais de 400 mil seguidores, foi convidado como um dos influenciadores para a posse. Não deu certo comparecer, mas, o encontro aconteceu pouco tempo depois no “cercadinho”, espaço que se tornou ponto frequente de contato entre apoiadores e o capitão do Exército que ocupava o cargo mais importante do país.

Na ocasião, André afirmou que Bolsonaro o recebeu bem e o chamou para gravar um vídeo com ele. “Ele brincou comigo e gravamos o vídeo falando ‘imbrochável, imorrível e incomível?’”, relembrou. 

“Eu vim lá do Piauí, porque eu te amo mesmo, presidente”, continuou André no vídeo, arrancando um sorriso de Bolsonaro. Nas imagens, aparece com uma camisa com o rosto do ex-presidente com óculos estilo “turn down for what”. 

André Nogueira e Bolsonaro em 2019 (Foto reprodução)

A medalha “imbrochável, imorrível e incomível” de Bolsonaro 

Depois, já morando em São Paulo, André voltou a encontrar Bolsonaro. Segundo ele, recebeu do ex-presidente uma medalha de honra entregue a apoiadores próximos. “Ele me deu uma medalha porque ele tem um carinho muito grande por mim”, explicou. André diz manter proximidade com integrantes da família Bolsonaro e cita também a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. A mesma medalha foi dada a figuras como o presidente da Argentina, Javier Milei, o jogador Neymar e Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD.

“Eu acho muito especial a forma como eles me tratam, porque muita gente fala que eles não gostam de gay, mas, o que a gente não gosta mesmo é dessa imposição, quando você quer impor, gritar que quer respeito, acaba tendo um efeito inverso”, explicou. 

Ainda falando de política, André contou que já havia pensado anteriormente em ser candidato a vereador, mas considerava que ainda “não estava pronto”. Chegou a se filiar ao PL, porém, deixou a sigla por divergências internas. 

André Nogueira ganhou medalha de Bolsonaro (Foto reprodução)

Por que ser um candidato gay de direita no Piauí?

André Nogueira e Bolsonaro (Foto montagem)

A decisão de retornar ao Piauí e disputar a política local, acrescentou, aconteceu após um jantar com Bolsonaro em São Paulo, pouco antes da prisão do ex-presidente, determinada no contexto das investigações e condenações pelo Supremo Tribunal Federal (STF), relacionadas à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

“Eu falei: ‘presidente, eu quero ser candidato’. Aí ele disse assim: ‘e por que você não volta pro Piauí ao invés de ser candidato aqui em São Paulo?’”, relatou. “Eu disse: ‘se o senhor acha melhor, se tiver o seu apoio, eu vou pro Piauí’. E ele respondeu: ‘meu apoio você sabe que tem.’”, descreveu o diálogo que afirmou ter com Bolsonaro. 

André pontuou que, depois da conversa, decidiu deixar São Paulo. “Eu larguei tudo lá, vendi tudo que eu tinha e vim com a cara e a coragem pro Piauí.” Segundo ele, o retorno aconteceu em junho do ano passado. Durante a entrevista, ele também citou lideranças da direita piauiense, como o ex-prefeito Joel Rodrigues (PP), pré-candidato a governador, e o senador Ciro Nogueira (PP) de quem partiu o convite para o partido. 

André ao lado de Ciro e Joel (Foto montagem)

As redes sociais ganharam protagonismo nas eleições e passaram a influenciar diretamente a formação das chapas proporcionais. Partidos de direita e de esquerda têm buscado influenciadores digitais para disputar vagas no Legislativo, apostando em nomes que já chegam à campanha com visibilidade, público fiel e capacidade de mobilização. A estratégia responde a uma mudança no comportamento do eleitor e na própria dinâmica da campanha. 

No segmento LGBTQIAPN+, uma reportagem da Folha de S.Paulo mostrou como partidos de direita têm buscado ocupar pautas ligadas à diversidade e às discussões de gênero sob uma ótica conservadora, um campo historicamente associado à esquerda. A movimentação reflete uma tentativa de disputar novos públicos, ou seja, eleitores. (Leia aqui)

Trabalhou como palhaço no Centro, fez personagem na TV e passou fome em São Paulo  

Josefa e Willame Nogueira, pais adotivos de André (Foto montagem)

A história de André até aquele encontro em Brasília, porém, começou antes da política nacional e de ter seu público engajado nas redes sociais. Nascido em Teresina e criado parte da infância em Porto Alegre do Piauí, ele contou ter sido adotado aos três meses de idade por um carroceiro e uma dona de casa. “Através da pescaria eles conseguiram me criar”, disse. Mais tarde, a família se mudou para a capital piauiense, onde André cresceu na Vila Irmã Dulce. 

Vivendo em um lar evangélico, ele diz ter crescido em um ambiente conservador. “Minha mãe é evangélica. Meu pai não era, mas sempre me criaram com princípios e valores conservadores”, avaliou. A infância, segundo ele, foi inteiramente em escolas públicas.

Aos 16 anos, começou a trabalhar vestido de palhaço no Centro de Teresina. “Eu ficava vestido de palhaço vendendo bombom na Praça da Bandeira”, lembrou. O trabalho, segundo ele, ajudava na renda da família. Foi durante esse período que acabou sendo visto pelo humorista Roberto Gomes, que interpreta o personagem Kátia Picolé, que o convidou para integrar programas humorísticos da  TV Meio Norte.

André em sua passagem na TV em 2015 (Foto montagem)

Na televisão, André chegou a interpretar “Blonquite”, personagem inspirada, segundo ele, “na mulher simples do interior, a mulher da roça”. Participou dos programas Escolinha do Riso e Pracinha do Riso, atrações populares da emissora local. “Foi ali que eu me apaixonei pela televisão”, diz.

Depois da experiência na TV, iniciou de maneira mais firme na política. Passou a atuar em portais de notícias e páginas de cobertura sobre bastidores da televisão piauiense. Mais tarde, aproximou-se da política institucional como assessor parlamentar e começou a trabalhar em campanhas eleitorais. A nova etapa o levou para Fortaleza, onde trabalhou como garçom enquanto participava de grupos políticos ligados à direita. Em seguida, mudou-se para Brasília e depois para São Paulo.

Em São Paulo, relatou ter enfrentado dificuldades financeiras. “Eu passei fome no Brás”, pontuou. Segundo André, durante esse período chegou a fazer vaquinhas online. 

Hoje, com quase meio milhão de seguidores nas redes sociais, produz conteúdo político e humorístico voltado principalmente ao público conservador. “Todo assunto que tá em alta eu falo sobre isso”, revelou. Segundo ele, o crescimento nas redes veio da cobertura de eventos ligados à direita e da proximidade com Bolsonaro. “Todo evento da direita eu tava dentro. Fazia vaquinha, pegava voo e ia cobrir”, respondeu. 

De Michele e Flávio a Nikolas, André reúne registros com lideranças da direita (Foto montagem)

Durante a entrevista à apuração, enquanto narrava sua trajetória pessoal e política, André Nogueira contou ter sido notificado em uma ação judicial movida pela vereadora Keitchele Lima da Silva. O processo tem origem em um vídeo publicado por André, no qual ele reagiu a uma declaração da parlamentar sobre o período do governo Bolsonaro, quando ela afirmou ter passado fome e recorrido a ossos para se alimentar. Polêmico e Bolsonarista de carteirinha, na ocasião, André fez um comentário associando a fala ao corpo da vereadora, em tom considerado ofensivo por ela, que acionou a Justiça.

“Não queria que minha sexualidade entrasse na frente do meu nome”

Ao falar sobre os movimentos LGBT, ele diz ter sofrido ameaças após se posicionar politicamente contra pautas defendidas por esse segmento. “Eu já sofri diversas ameaças de morte”, diz. Questionado pela Todavia sobre o fato de pessoas LGBT serem historicamente mais associadas a movimentos progressistas e à esquerda, André pontuou nunca ter se identificado com esse campo político. 

“Eu acredito que o respeito tem que ser conquistado. Não devemos impor. Sim, devemos respeitar, mas, ninguém é obrigado a concordar com tudo. Então, nunca gostei dessa imposição que o movimento LGBT faz para conquistar espaço. Eu sempre quis dizer que eu não era o gay André. Eu não queria que minha sexualidade entrasse na frente do meu nome, que meu nome virasse um sobrenome”, afirmou. “Eu acredito que é desnecessário você colocar uma placa no rosto e ficar gritando eu sou gay e eu acho que o o movimento LGBT faz isso e quando eu falei isso publicamente, eu recebi várias ameaças”, defendeu. 

André Nogueira (Foto reprodução)

“Se você não for um gay petista, você está sendo gay de forma errada”

Ao longo da entrevista, André fez críticas diretas ao movimento LGBT e à esquerda, que, segundo ele, não aceitariam divergências políticas vindas de pessoas homossexuais conservadoras. 

Eles têm um discurso muito bonito de dizer ‘ninguém solta a mão de ninguém’. Mas só se você seguir a cartilha ideológica deles. Se você discordar, se você não for um gay petista, simplesmente você está sendo gay de forma errada”, disse. 

André Nogueira (Foto reprodução)

O influenciador também afirmou que encontrou mais acolhimento entre grupos da direita conservadora. “Foi dentro da direita que eu conquistei respeito, carinho, apoio e consegui crescer principalmente. Porque eu nunca fui de esquerda e eu só recebi ódio deles”, declarou. 

André promete investida contra financiamento da Parada Gay e diz que crianças trans não existem 

Como pré-candidato a deputado estadual, André diz que se chegar a uma cadeira da Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi) vai defender pautas conservadoras. Entre elas, a proibição do uso de recursos públicos para financiar a Parada do Orgulho LGBT em Teresina, evento historicamente organizado pelo Grupo Matizes e que, nos últimos anos, passou também a conviver com divergências internas e iniciativas ligadas à Secretaria de Estado da Cultura do Piauí, como o Parada Day. 

“Um dos meus primeiros projetos é justamente proibir que dinheiro público seja gasto patrocinando esse tipo de evento”, afirmou. 

Outra proposta defendida por ele é a proibição da presença de crianças em paradas LGBT, bem como o pré-candidato também reiterou a visão de que ‘criança trans não existe’. “Criança tem que ser criança, tem que brincar”, diz. 

André também disse que pretende atuar contra o que chama de “ideologia de gênero” nas escolas estaduais e defender pautas ligadas ao liberalismo econômico, como redução de impostos e menor participação do Estado.

André em cobertura de evento (Foto reprodução)

 O personagem improvável da direita piauiense

A pré-campanha de 2026 já está a pleno vapor. Candidatos montam estratégias, ajustam narrativas e escolhem as bandeiras com as quais pretendem manter ou conquistar novos eleitores. Alguns aparecem com histórias novas, outros, com discursos tão antigos que qualquer eleitor acima de 50 anos em conversa com alguém da geração Z poderia dizer: “quando eu era da sua idade, já ouvia a mesma coisa”.

A Todavia, no entanto, não é uma coluna de política. Tampouco se dedicará a cobrir a disputa proporcional ou a fazer perfis de pré-candidatos. Este, no entanto, é um espaço para histórias que provocam, mostram deslocamentos culturais, expõem contradições do tempo e ajudam a compreender movimentos sociais e políticos mais amplos.

É por isso que a história de André Nogueira aparece aqui. Um personagem que reúne periferia, humor popular, internet, conservadorismo e identidade LGBT em uma combinação pouco comum no debate público piauiense. O interesse, neste caso, o fenômeno que ela expressa e a expectativa sobre que isso representa para o Piauí. 

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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