O caso dos Don Juans piauienses que dizem amar as esposas, mas não conseguem deixar de traí-las

A Coluna Divã, assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, é um espaço de escuta cuidadosa e acolhimento em meio ao fluxo intenso das informações do dia a dia. Nela, conflitos familiares, impasses afetivos e questões íntimas são abordados sob a perspectiva da psicanálise, com absoluto respeito ao anonimato de quem compartilha sua vivência.

Os textos que dão vida à coluna surgem a partir das histórias enviadas pelos próprios leitores. De forma confidencial, esses relatos são transformados em reflexões que ecoam experiências comuns e ajudam a iluminar sentimentos e situações vividas por muitas pessoas.

Quem quiser participar pode enviar seu relato para contato@boletimbrio.com ou entrar em contato pelo Instagram @boletimbrio.

Relato enviado por um leitor anônimo

Sou casado há alguns anos. Temos uma família linda e com filhos. Eu amo a minha esposa, amo de verdade. Casei querendo estar casado para vida inteira. Mas, mesmo assim, eu não consigo deixar de trair. Passei um longo período lutando contra isso. Mas não tem jeito, eu sempre acabo me envolvendo com outras mulheres. E isso não é falta de amor. Não quero perder meu casamento. Só que, ao mesmo tempo, não consigo parar.

De onde vem esse comportamento que eu não consigo controlar, apesar do amor que sinto? Qual conselho você pode me dar?

Relato de um homem, que tem mais de 40 anos, profissional liberal de Teresina.

Análise do psicanalista Lamartine Guedes: 

Caro leitor, você fala de algo que acomete aos homens desde que o patriarcalismo surgiu na face da Terra: a prisão de tornar-se macho (diferente de tornar-se homem) e provar socialmente uma virilidade truculenta.

Resumindo sua carta, você diz está preso a uma obrigação moral de ser “homem” com H. Estes são os atributos do homem macho com H no mundo patriarcal: meninos não choram, fazem sexo sem amor, são donos das mulheres, usam as mulheres como objeto e são os donos do pedaço. Assim nasce a construção do “monstro MACHO” patriarcal que tem por essência o ódio a mulher e a natureza.

Como dizia a música de Luiz Gonzaga: homem com H (parodiando o macho e seu machismo) e imortalizada na voz de Ney Matogrosso, esse compromisso moral é uma prisão quase inescapável numa sociedade feita por homens patriarcalistas ignorantes, sedentos de poder. Sabemos que a constituição psíquica do homem patriarcal leva, preconceituosamente, o homem a ser frio, travar sentimentos e gozar com o poder: econômico e sexual. Daí, até as aberrações sociais, é um pulo: feminicídio, guerras, competição, fome, latifúndio, morte do outro, etc.

Os jogos são vorazes e parecem sem saída (nasceu com genitália masculina, está no jogo). Se ficar, o bicho pega. Se correr, o bicho come. Mas o que mesmo essa música: homem com H, paródia crítica do macho nos tempos atuais, quer dizer?

Ela nos diz que os homens com H nascem matando o feminino/sensivel dentro deles. Daí, para a matança do sensível fora deles é um pulo, como citamos acima. Psicossocialmente, o homem com H: pega,mata e come, tipo o carcará do sertão. Veja: não há dó, pena ou culpa no carcará e nem há de haver no Carcará com H.

É assim que, por desculpa preconceituosa de sobrevivência/competição psíquica/social, o homem patriarcal arcaico vende o seu valor humano, a sua alma: pelo poder. Poder ser MACHO, Carcará com H, é a missão/educação que é veiculada pelo social. E, a partir daí, o homem com H, escravo do sistema patriarcal e do capital, passa a ser um Carcará com H cujo lema de ordem é: pega, mata e come. Essa tradição moral, carcará com H, é dura de escapar. E quanto mais arcaica, preconceituosa e moralista é a sociedade, maior será o Carcará.

Você, leitor, é mais um Carcará com H, que se forma abusando das sensibilidades para não morrer de fome, para não ficar fora do social. Mas se questione: essa promessa moral patriarcal precisa mesmo ser tão radical e destrutiva a ponto de levar aos abusos resumidos nos significantes: guerra, fome, assassinatos, desamor?

No seu caso leitor, no âmbito particular, você não foi tão bem doutrinado na escola do carcará com H. Restou em você a divisão e a ambivalência. Você não matou por completo o seu lado sensível; restou para você a ambivalência de viver em dois mundos: o mundo machista e o mundo sensível, desconstruído.

Seu relato leva a crer que você se arrepende de ser esse homem machista e que gostaria de viver sem trair a confiança de quem mais ama, mulher e filhos. No entanto, você também relata que não consegue. Psicologicamente, os homens carcarás com H são submetidos a forças morais que os dividem (na maioria das vezes sem culpa) em dois lados: um que escolhe uma mulher para amar e outro que escolhe outra(s) mulher(es) para o sexo. Essa escolha moral, educacional, coloca em jogo uma prova de virilidade e formata a subjetividade do macho.

Com o tempo, essa divisão é naturalizada socialmente e psiquicamente e o homem de valor passa a ser aquele que consegue ser o carcará com H: frio, calculista e certeiro no seu ato de poder/dominação/destruição que no âmbito pessoal o impulsiona a ser um garanhão. Você já deve ter ouvido aquelas mães machistas dizerem, com orgulho: “…Quem tiver suas éguas que as prenda em casa, pois meu filho é um garanhão e está solto”.

Trago essa frase tão estereotipada para mostrar quão machista é o mundo em que vivemos e como o machismo é tão escancarado que até certas mães (mulheres), o reproduzem. Aliás, esse fenômeno é comum em sociedades patriarcais e arcaicas: as mulheres machistas.

Assim, ser homem Carcará com H é a prisão/condição social a que os homens são submetidos e o preço a ser pago por todos os candidatos a virar este homem com H é o de tornar-se machista, sádico, frio, cruel, competitivo e seco de sentimentos. Assim, caro leitor, você é mais um preso a esta realidade Carcará com H, que leva a uma sociedade de violência ao feminino. Você reprimiu seu lado sensível feminino e virou um monstro sádico, atacando do alto da sua coroação de macho todas as fragilidades que lembram a sua própria, recalcada.

A origem do ódio masculino ao gênero feminino e à natureza está na sua formação patriarcal machista, que obriga o homem a ser Carcará om H, ou seja, tira dele o direito ao afeto e aos sentimentos.

Você foi educado para a prisão de separar sexo/prazer de amor/afeto/sentimento, uma educação moralista que vai de encontro à saúde mental e psíquica. Pois bem, lembre-se do que Freud dizia: a saúde mental está intimamente ligada à união entre sexo e amor.

No seu caso, caro leitor, você virou, a contragosto, um carcará com H, um obcecado por trair, fruto da sua educação machista. Toda essa realidade competitiva e moralista o levou a ser um compulsivo, viciado em mulher e em traição, um Carcara com H do Piauí, que: pega, mata e come.

Você vive na prisão moral de transar compulsivamente com mulheres para dar satisfação à sociedade. Você mesmo relata da sua angustia de transar/trair e de não conseguir sair deste esquema, plantado no seu eu desde que você nasceu com a genitália masculina. Transar compulsivamente com mulheres por obrigação moral/sexual é uma drogadiçao, pois sexo só é bom quando é por amor e quando não é uma obrigação. Lembre-se, sexo por obrigação, que não agrada a pessoa, leva ao vício sexual, que pode ser tão grave quanto as outras drogas.

Dessa forma, você sofre de compulsão sexual e drogadição. A drogadição acontece toda vez que o objeto domina o sujeito, levando-o repetidamente a fazer algo que ele não queria e que, de alguma forma, irá destruí-lo como sujeito, tornando-o uma coisa.

Veja: o compulsivo, o adicto, é um traumatizado. E, no seu caso, é o trauma de ter que virar um Carcará com H, obcecado por sexo e traição, para provar macheza e poder para a sociedade. Você, sem perceber, esta numa prisão moral de cumprir a saga de ser um ser truculento. Fica uma questão: foi o meio social que o construiu assim ou você que se deixou ser assim?

Resta outra questão: até quando você vai permanecer assim? Até quando você aguentará essa drogadição sexual que o leva à ansiedade e à depressão de uma vida vazia? Você, leitor, me pede um conselho. E conselho não funciona bem na psicanálise. O que posso fazer é interpretar, pontuar coisas, como fiz, para que você possa, em particular, elaborar melhor sua vida, de preferência com a ajuda de um analista.

Observe estes tópicos de pontuação/reflexão que te ajudarão a quebrar as amarras desta prisão e trabalhar seu preconceitos:

Primeiro, você é vítima de uma sociedade machista, que diz que o homem deve se construir como uma coisa, um monstro social.

Segundo, só você mesmo pode desconstruir tantos anos de doutrinação equivocada sobre o que é ser homem.

Terceiro, ser esse homem Carcará com H, frio e impessoal, leva ao adoecimento.

Quarto, lembre-se dos sintomas inconscientes a serem trabalhados: traumas de infância por viver num ambiente machista e medo do lado sensível.

Quinto, lembre-se que a cultura heteronormativa exagera na busca por poder e competição causada pela lógica darwiniana da sobrevivência, tornando a humanidade desumana.

Sexto, lembre-se dos sofrimentos que você causa a você e a todos envolvidos: mulheres, esposas e filhos.

Sétimo, tente agir e buscar ajuda para cuidar dos seus conflitos, desejos e fantasias emocionais inconscientes, que você não está conseguindo elaborar.

Lembre-se: essas causalidades, entre outras, podem ser melhor trabalhadas em uma análise pessoal. Assim, boa sorte na sua tarefa de desconstruir o seu caráter machista, Carcará com H. Lute pela quebra dos seus preconceitos, assim, quem sabe, você se libertará das amarras condicionais sociais alienantes que o fazem sofrer.

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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