A Coluna Divã, conduzida pelo psicanalista Lamartine Guedes, oferece um espaço de acolhimento e escuta sensível em meio ao ritmo acelerado das informações cotidianas. É aqui que dilemas familiares, desafios afetivos e questões pessoais ganham leitura à luz da psicanálise, sempre preservando o anonimato de quem compartilha sua história.
Os textos que compõem a coluna nascem das contribuições dos próprios leitores. De forma sigilosa, eles relatam suas experiências, que se transformam em reflexões capazes de dialogar com a vivência de tantos outros.
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Relato enviado por uma leitora anônima
Desde muito nova, percebo que minhas escolhas amorosas seguem um padrão curioso, talvez até previsível. Sempre me interessei por homens mais velhos, por figuras de referência, por quem parecia carregar o mundo nos ombros. Professores, líderes, pessoas que de alguma forma ocupavam o lugar de quem ensina, orienta, acolhe. E, ironicamente, muitas vezes, de quem também se distancia.
Cresci em uma família equilibrada, com pais presentes e uma relação boa com o meu pai. Presenciei um casamento saudável e tenho uma mãe que hoje talvez nutra outros sonhos que se dissociem do casamento, que ela mantém.
Se venho de um lar estável, principalmente na infância, por que insisto em me aproximar de pessoas que, de algum modo, me colocam no lugar do desamparo? Talvez porque o amor, quando idealizado, tem o poder de repetir o que a gente precisa compreender e não o que a gente já resolveu.
Tenho aprendido, aos poucos, que o equilíbrio que carrego da minha família não me protege dos tropeços do coração, mas me dá base para aprender com eles. O que isso diz sobre mim e sobre o que pode ter dado “errado” na minha história?
Análise do psicanalista Lamartine Guedes:
A Pollyana Moça do Piauí e seu jogo do contente!
Cara Pollyana do Piauí, te chamarei assim porque você lembra a personagem do famoso livro didático/docilizador das mulheres: Pollyanna Moça. Você, sua mãe e a Pollyanna Moça são herdeiras de um destino/educação feminina que induz (no mundo patriarcal) as mulheres a serem belas, recatadas e do lar — e a se apaixonarem e morrerem pelo marido: o famoso destino de gênero/social hétero.

O mundo, em conformidade com o patriarcalismo e o heterossexismo, impõe ao feminino o destino de se sujeitar, amar, seguir, perdoar, honrar, idealizar e, por fim, casar com um homem — e, de quebra, ainda salvá-lo do destino preconceituoso que a sociedade machista impõe a ele: o de provar sua virilidade.
A Pollyanna e seu “Jogo do Contente” trazem a impactante máxima da subjugação do feminino: aguentar todos os abusos em silêncio, se subjugar aos ditames do homem e ainda ser feliz.
Não é à toa que é um jogo em que vence aquela que é mais otimista, sonhadora e que mais finge estar tudo bem.
Pollyana do Piauí, você diz que foi criada nos moldes da T.F.P. (Tradição, Família e Propriedade) e que seu pai foi exemplo de patriarca. Você herdou a vontade de buscar um homem que tenha características dele, e aí começa seu amor de perdição: o anseio de achar um homem, como diz a saudosa Rita Lee, “lindo, fiel, gentil e tarado”.
É, minha cara, está difícil. Bem-vinda ao mundo moderno, um mundo em que os homens estão cada vez mais narcisistas e objetificando as mulheres.
(Lembra da Barbie? Símbolo da mulher-objeto idealizada pelos homens do mundo atual?).

Assim, cara Pollyana, a estranheza sentida por você surge por dois motivos:
1º — você repete um padrão antigo e busca homens que lembrem seu pai (líder/forte);
2º — este tipo de homem está em declínio.
Hoje, o que te assusta são essas duas fontes de estranheza que, em síntese, fazem você idealizar homens que não existem e que, em sua maioria, vivem em outra realidade.
Você deve lembrar do famoso seriado da TV brasileira Os homens são de Marte. Pois bem, eles são mesmo de Marte, e seu pai (homem antigo/tradicional) é uma exceção.
A realidade que se desenha é esta: você ama homens de modo antigo e demanda deles, em sua fantasia, algo que eles não podem te dar, o amor perfeito.
Aqui remeto você à flor amor-perfeito, que simboliza o amor romântico, duradouro e a fidelidade. A própria flor, combinada em três cores, parece formar um rosto sorridente.
Lembra do Jogo do Contente?
Pois bem, o amor perfeito só existe na flor. Na realidade, o amor moderno está repleto de contradições e imperfeições. Aliás, também é preciso saber que o verdadeiro amor é imperfeito.
Fácil é amar o próximo como a ti mesmo — semelhante a você mesmo, concorda? Difícil mesmo é amar o diferente.
E aqui voltamos ao seu questionamento: sua idealização não deixa você “casar” com os homens de Marte (homens imperfeitos, em crise machista, infantilizados, decorrentes dos desarranjos que o feminismo trouxe para eles).
Lembre-se: no mundo moderno, o amor é um desafio, e o Jogo do Contente tem seu preço, o de minimizar as questões negativas e os problemas reais que a vida impõe.
Os homens são de Marte foi um seriado de TV que parodiou o livro famoso de John Gray, publicado em 1992, e traz a metáfora de que as diferenças psicológicas e emocionais entre homens e mulheres são reais, fazem parte da vida e trazem muitos problemas para ambos.
Os homens são de Marte e as mulheres são de Vênus vivem, amam e sentem de forma diferente, o que exige de ambos marcharem e construírem caminhos de comunicação e diálogo que os transformem e os levem para a Terra, a conjunção amorosa.
Veja: a tão sonhada terra prometida, o amor perfeito, só virá à custa de trabalho e esforço para lidar e amar a diferença.
A ideia é que o conhecimento e o amor às diferenças ajudarão você a viver em harmonia, ou a conseguir ver os homens com seus defeitos e diferenças, e mesmo assim conseguir amar e ficar ao lado deles.
Aconselho você a buscar entender seu mundo de Vênus e o mundo de Marte dos homens. Saiba que o amor se alimenta da diferença, e como seria chato ter que amar o igual! Seria monótono e sem graça.
O amor nasce da escuta e do diálogo entre mundos diferentes; compreensão empática e aceitação geram afeto e vontade de ficar.
Busque desenvolver essas qualidades, abandone preconceitos patriarcais e modelos pré-formados de homens que você adquiriu na infância e que a tornam um tanto machista.
Lembre-se: cristalizar moldes rígidos não leva ao amor, e sim à tirania do controle sobre o outro.
Aqui reside o seu mal-estar e o que deu errado na sua história: você ama de forma rígida, idealizando um homem (pai) que não existe, a não ser nas suas fantasias, preconceituosas e patriarcais.
Deixe seu preconceito de lado, flexibilize sua busca amorosa aceitando e integrando as diferenças entre Vênus e Marte.
Dessa forma, cara Pollyana do Piauí, posso te dizer, por fim (ou por começo?), algo para ajudá-la: os homens são de Marte; portanto, não perca tempo. Junte sua bagagem emocional e vivencial e parta para lá. Aprenda a viver e amar em Marte, na diferença (porque só existe a diferença) e seja feliz!





