De 20 livros por mês a ouvir jogadas de xadrez para dormir: os superdotados invisíveis do Piauí

A palavra superdotação tem habitado um território quase folclórico no imaginário da sociedade. Prodígios, gênios capazes de realizar cálculos matemáticos na casa dos milhões, de cabeça e em segundos, geralmente exibidos como curiosidades em programas de televisão. No Piauí, como no restante do país, essa imagem ainda persiste. Mas ela já não dá conta da realidade.

Há hoje uma geração de adultos piauienses, de perfis diversos, que começa a se reconhecer ou a ser reconhecida, muitas vezes tardiamente, como pessoas com altas habilidades, palavra de um vocabulário que, só recentemente, passou a circular fora dos ambientes acadêmicos e clínicos. Nesta edição da Todavia, o leitor entendera do que trata esse termo, acompanhando relatos de quem o vive e avaliação de profissionais. Mas, adiantando o conceito, a superdotação é uma condição em que indivíduos demonstram potencial ou desempenho excepcional em áreas como intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, combinadas ou isoladas.

No estado, algumas dessas trajetórias intelectuais fora da curva permanecem discretas ou anônimas, outras ganharam maior visibilidade em razão dos espaços que seus protagonistas alcançaram.

Governador do Piauí nunca falou sobre, mas é exemplo típico de superdotado

Rafael Fonteles na adolescência (Foto: reprodução/ YouTube PT)

Um exemplo é o do atual governador do Piauí, Rafael Fonteles. Ainda na adolescência, começou a dar aulas, aos 17 anos, foi contratado como professor pelo Instituto Dom Barreto. Aos 18, abriu um cursinho pré-vestibular. Em seguida, obteve aprovação em primeiro lugar geral no vestibular da Universidade Federal do Piauí (UFPI), concluiu o curso de Matemática em dois anos, com desempenho máximo e mestrado em Economia Matemática no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), também na metade do tempo. Ao 29 anos, assumiu a Secretaria de Fazenda do Piauí, o que o projetou para a cadeira do Executivo.

Rafael Fonteles nunca tratou publicamente do tema, nem há qualquer diagnóstico divulgado. Ainda assim, essa trajetória ajuda a ilustrar o que podem ser as altas habilidades na área acadêmica, por exemplo.

Rafael Fonteles (Foto: Governo do Piauí)

Whindersson Nunes: ” Ainda criança, consertei um contrabaixo e aprendi a tocar sozinho”

No outro extremo está Whindersson Nunes. Nascido no interior do estado, na cidade de Bom Jesus, tornou-se um dos maiores youtubers do país sem jamais corresponder à imagem clássica e esteriotipada do superdotado. Humorista, criador popular, artista de massa, Whindersson sempre foi lido como talento nato, até agora, nunca como alguém dotado de altas habilidades cognitivas. O diagnóstico veio quando ele mesmo revelou ter feito testes neuropsicológicos que avaliaram seu quociente de inteligência (QI), chegando ao índice de 138. A descoberta ocorreu durante um período de internação em uma clínica para tratamento da dependência de álcool.

O número normal de QI é considerado entre 90 e 110, com a média populacional definida em 100.

“Quando falei sobre isso, muita gente veio dizer ‘Whindersson, você um de nós’. Me senti como se estivesse entrando para os X-MAN. A superdotação deixa a gente melhor em algumas coisas e ruim em outras, como manter um casamento”, brincou fazendo referência fim do seu, muito comentado, casamento com a cantora Luiza Sonza. “E isso se você descobrir cedo. Eu descobri com 30 anos. Quando eu era criança, quando consertei um contrabaixo e aprendi a tocar sozinho, meu pai que fazia os exercícios dele para moer cana e depois ir para a escola, olhava para aquilo e dizia ‘é o mínimo’. Vai até que ele também é [superdotado] e nunca soube?”, comentou em vídeo que postou nas redes sociais.

Whindersson Nunes em diferentes fases da vida (Foto: reprodução)

Ele chegou a incluir comentários sobre o diagnóstico em seu espetáculo “Isso não é um Culto”, na última apresentação que fez em Teresina, no mês de novembro. “Mas, gente, nessa escala aí, eu estou entre os mais burros dos mais inteligentes”, falou arrancando risadas do público presente. Sua diferenciação intelectual se manifesta no palco, na velocidade de raciocínio e na construção narrativa.

Enquanto parte do humor contemporâneo ainda se apoia em roteiros fáceis, quase sempre associados a apelos sexuais ou estereótipos de gênero, o piauiense construiu um repertório capaz de tratar temas como saúde mental, vícios e relacionamentos com sensibilidade e sem recorrer à caricatura. Uma forma de inteligência que, por muito tempo, permaneceu fora dos enquadramentos tradicionais e, justamente por isso, demorou a ser reconhecida.

Whindersson Nunes (Foto: reprodução)

Advogado e ex-secretário tem laudo de superdotação: “O cérebro não para”

Entre as pessoas do Piauí com superdotação e altas habilidades diagnosticada, está também o advogado Alano Dourado, ex-secretário estadual de Educação, durante a gestão do ex-governador Zé Filho, em 2014. A descoberta da superdotação, no caso também veio a partir de um hábito antigo: estudar, ler conteúdos diversos e ir atrás de temas que despertavam curiosidade. Foi nesse passa-tempo que, no fim de 2022, ele passou a se reconhecer nas descrições teóricas sobre altas habilidades e buscou especialistas.

Também tocou em um tema importante quanto a vivência de pessoas com altas habilidades: mesmo nas melhores escolas de Teresina, o tema é pouco tratado e desenvolvido.

“Pesquisei sobre bons profissionais no Brasil, e fiz o teste com a dra. Denise Arantes Brero, no Núcleo Paulista de Altas Habilidades e Superdotação. Em seguida fui apresentado ao doutor em Neuropsicologia Fabiano de Abreu, que atende em Portugal e acompanhou um teste genético em mim que foi feito em Harvard. Também converso bastante a respeito com a dra. Nathalie Gudayol, excelente profissional. Todos tem excelentes conteúdos gratuitos no Youtube. O grande desconhecimento do assunto me chamou atenção e comentei muito com amigos médicos e psicólogos: ora, estudamos em excelentes colégios, mas para todos nós este importante tema nunca foi abordado. Daí a necessidade da divulgação de conteúdos como este para que possamos identificar nossas crianças o quanto antes e não desperdiçar nossos talentos”, contou.

O laudo identificou um funcionamento cognitivo significativamente acima da média, de 146, mas ele faz questão de desfazer a leitura simplista que, muitas vezes, costuma acompanhar esse tipo de informação. Ele pontuou que, no Brasil, há um contingente de adultos superdotados que nunca foram avaliados e que acabam recebendo diagnósticos equivocados. Também revelou à Todavia que, no seu caso, as altas habilidades aparecem em áreas específicas, o que desmonta a ideia de talento universal.

“É importante primeiro dizer que estes resultados não são garantia de sucesso nenhuma, e que no Brasil temos milhões de adultos superdotados que nunca fizeram os testes e que por vezes são mal diagnosticados com TDAH, segundo os profissionais da área. Quanto aos resultado, o laudo da Dra. Denise Arantes identificou QI 146 e altas habilidades nas áreas acadêmica, criativa-produtiva e liderança. Não foi identificado nas áreas artística nem motora, acho que é por isso que não sei dançar nem desenhar nada“, brincou.

Alano Dourado (Foto: reprodução)

Repete jogadas de xadrez na mente para relaxar e dormir

Ao falar das dificuldades, Alano descreveu uma experiência comum a muitos adultos com altas habilidades. “O cérebro não para. Da vontade de ter um botão pra desligar porque se torna cansativo, especialmente quando estamos focados em algo, por conta da alta intensidade com abordamos as coisas”, resumiu.

A intensidade do pensamento, a dificuldade de desligar e o cansaço mental são desafios constantes. Para conseguir relaxar e dormir, ele conta que recorre a estratégias pouco convencionais, como ouvir narrações de partidas de xadrez e reproduzir mentalmente os lances.

A dificuldade com estímulos e a “Síndrome do Impostor” em superdotados

A sensibilidade a estímulos também aparece como obstáculo no dia a dia. Ambientes muito barulhentos ou com excesso de informação visual são evitados sempre que possível. Ainda assim, ele ponderou que a sua atuação profissional autônoma o ajuda a contornar algumas situações, também no que diz respeito à dificuldade com rotinas rígidas.

“Além disso evito ir pra shopping e lugares muito agitados por conta da sensibilidade a barulho e ao excesso de informação, mas da pra ir de vez em quando. E na infância achava que não merecia os resultados que alcançava, porque pensava ser sorte ou que tinha me esforçado pouco. Chamam de Síndrome do Impostor”, pontuou.

A Síndrome do Impostor é um padrão psicológico onde a pessoa duvida das próprias conquistas e talentos, sentindo-se uma fraude que será “desmascarada”, mesmo diante de provas de seu sucesso.

Perguntado sobre a decisão de revelar o seu diagnóstico, Alano pontuou que falar publicamente sobre superdotação exige coragem: “O assunto porque no Brasil é tema desconhecido e tangencia a arrogância, prepotência, cercado de estigmas. Enquanto que é apenas uma condição de indivíduo atípico, que nasceu com o cérebro diferente, que não tem nenhuma garantia de sucesso em nada e que tem suas dificuldades inerentes da condição, por isso requer educação especial”, disse.

Piauí tem centro dedicado a pessoas superdotadas

(Foto: Gabriel Paulino/Ascom Governo)

Esse cenário, no entanto, começa a mudar. Ele citou como avanços recentes a reforma do Núcleo Estadual de Atenção às Altas habilidades, feito pelo Governo do Estado. Em atividade desde 2008, esse espaço fica localizado na Rua Hermínio Conde, 1185, Bairro Tabuleta, e é um espaço voltado para o atendimento de estudantes com potencial elevado, de quatro a 16 anos, tanto de escolas públicas quanto privadas.

A iniciativa é voltada para o desenvolvimento dos estudantes em diferentes áreas, como Língua Portuguesa, Matemática, Música, Artes Visuais, Física/Robótica, Educação Física e Língua Estrangeira (Inglês). 

Outro ponto destacado por Alano foi a realização de uma audiência pública sobre o tema na Câmara Municipal de Teresina, por iniciativa do vereador Venâncio Cardoso (PT). “Foi muito bonito ver o engajamento dos pais, trocando experiências e relatando desafios”, afirmou.

Aos 42 anos, o advogado reconhece que o diagnóstico chegou tarde para transformar sua trajetória pessoal, mas foi decisivo para o autoconhecimento e, sobretudo, para o impacto coletivo. “O mais importante foi superar o receio de falar sobre isso”, disse. A partir dessas conversas, ele relatou que amigos passaram a identificar sinais em seus próprios filhos e a buscar orientação adequada.

Para ele, esse é o ponto central de toda essa discussão: identificar cedo, evitar sofrimento e não desperdiçar talentos.

“Foi como se várias peças se encaixassem”, diz jornalista sobre laudo de altas habilidades

Pessoas superdotadas são, em média, de 2% da população mundial, conforme projeções da Mensa, associação de membros com alto QI presente em 100 países que identifica e fomenta o desenvolvimento da inteligência. No Brasil, a entidade estima que existem 4 milhões de pessoas com essas características. Porém, sem contar com políticas públicas para mapeá-los em diferentes faixas etárias e áreas do conhecimento, a contagem no país se restringe ao ambiente escolar. O Censo Escolar de 2024 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) mostra que a quantidade de alunos com altas habilidades acadêmicas matriculada em escolas públicas e particulares soma 44 mil, número que pode ser muito mais alto.

O boletim brio conversou com alguns deles que vivem no Piauí. A maior parte dessas pessoas não correspondem à caricatura do gênio isolado. São empresários, gestores públicos, artistas, professores, servidores. A percepção ao entrevistá-los é que a superdotação, nesses casos, não é privilégio nem salvo-conduto. É algo que os auxiliou onde chegaram, sim, mas também foi fonte de conflito interno, sofrimento psíquico e exaustão (experiências frequentemente vividas em silêncio, segundo relatos ouvidos durante a apuração).

A Todavia entrevistou uma jornalista piauiense, que preferiu manter o anonimato. Segundo contou, poucos amigos próximos e alguns familiares apenas sabem que passou por avaliação neuropsicológica e recebeu o laudo de altas habilidades.  A busca pelo diagnóstico começou depois de uma suspeita inicial de estar no espectro autista. A partir daí vieram leituras, acesso a conteúdos na internet podcasts, artigos, fóruns, uma imersão, até a busca pelo exame, de fato, atravessada pela necessidade de entender a própria trajetória. Uma das obras que a ajudaram a entender a condição foi o livro “Deu zebra! Descobrindo a Superdotação”, de por Sophie Prignon e Thais Mesquita.

“Meus amigos, alguns amigos próximos e alguns familiares próximos sabem que eu fiz o teste, que deu altas habilidades de superdotação, mas, em geral, eu não acho necessário falar da minha neurodivergência. Por quê? Porque eu tenho medo que as pessoas recebam negativamente, como se eu estivesse tentando dizer que tenho mais habilidades, que sou melhor do que as pessoas. Que isso volte para mim como um sentimento negativo ou uma projeção desse tipo. Enfim, acho melhor evitar”, afirmou.

Foto: reprodução

Hiperfoco em livros: “Já li 18 em um único mês”

Entre as curiosidades que ajudam a compreender o hiperfoco em pessoas superdotadas, a rotina da própria entrevistada chama atenção. Leitora voraz, ela consome em média dois a três livros por semana, chegando facilmente a dez ou doze títulos por mês, número que já ultrapassou 18 livros em períodos de hiperfoco intenso. Para dar conta, outra característica da sua neurodivergência, criou uma rotina rígida, com horários bem definidos e tarefas organizadas, onde também costuma cronometrar tudo que faz no relógio do celular.

A jornalista relatou que os testes que confirmaram o diagnóstico foram feitos com uma psicóloga especializada, fora do estado. Testes como esse costumam custar, em média de R$ 5 mil a R$ 6 mil. Foram de três a quatro meses de avaliações, em sessões espaçadas. No dia do resultado, assim como contou ela chorou. Ela não era autista, como um dia suspeitou. O laudo apontava altas habilidades, com QI de 133,  acima do 98º percentil, ou seja, é mais alto que 98% da população. 

“Foi como se várias peças se encaixassem”, disse relembrando de momentos da infância, escolhas profissionais, pontos altos e baixos que vieram com a superdotação, como exaustão física após interações, necessidade de pausas, irritação. “Eu sentia que ora estava a 300 km/h e mundo a 8 km/h e ora que o mundo estava a 300 km/h e eu a 20 km/h”, completou sobre o sentimento.

Pensamento rápido, facilidade em fazer conexões e esgotamento após interações

Foto ilustração (Fonte: Freepik)

Ela seguiu explicando que o laudo foi uma tradução da própria vida. Ela interpretou o diagnóstico como uma reorganização narrativa e não como uma medalha. Um ponto final para dúvidas antigas e uma explicação para a sensação constante de não se ajustar aos ambientes, de operar em um ritmo diferente, que era frequentemente interpretado como falha pessoal. O laudo deslocou essa culpa.

“Eu acho que o grande sofrimento, às vezes, da pessoa que tem altas habilidades de superdotação sem o diagnóstico, é que você não tá adequado e adaptado a um ambiente e você acha que o problema é você. Na verdade, o problema não é você, nem são as pessoas, você é diferente […] Apesar da minha profissão, que requer interações sociais, por telefone, presenciais, eu gosto e faço isso com maior prazer. E me entrego muito. Mas justamente por ter esse pensamento acelerado e fazer uma série de conexões entre os assuntos, as pessoas e os temas, isso gasta uma energia mental muito grande. Então eu termino essas interações com muito conteúdo de qualidade no meu trabalho, mas muito esgotada, fisicamente mesmo”, descreveu.

Há também uma dimensão de gênero. Atuando em uma área predominantemente masculina, ela aprendeu a moderar a exposição da própria inteligência. “As pessoas podem suspeitar, imaginar, mas, de fato, eu prefiro preservar isso”, ponderou sobre não revelar sua identidade.

De hiperfoco a sentir-se fora do lugar: as características mais frequentes em superdotados

Esta edição da Todavia reúniu relatos de pessoas com altas habilidades e superdotação para ir além da imagem folclórica do gênio, realmente compreender como essa condição se manifesta na vida real, com potenciais, mas também com conflitos, dúvidas e desgaste emocional. Outro objetivo é também ajudar outros piauienses que se reconhecem em certos traços, sentem-se deslocados ou questionam o próprio funcionamento, muitas vezes sem saber por onde começar a busca por um diagnóstico. A partir dessas escutas, organizamos dez características recorrentes, extraídas diretamente das experiências narradas pelos entrevistados até aqui, que ajudam a traduzir o que significa viver com altas habilidades:

1-Pensamento acelerado, compreende o que o outro falou muito rápido e costuma ficar entediado durante conversas, aulas ou apresentações

2- Quando algo desperta interesse, a pessoa mergulha profundamente (livros, xadrez, pesquisa, música, escrita). Quando sente que dominou perde o interesse e parte para a próxima “obsessão”.

3- Sensação frequente de não pertencimento. A pessoa entende o grupo, apenas não se reconhece nele.

4- Alta sensibilidade emocional e intelectual. A pessoa tem uma percepção aguçada de injustiças e consegue ler rápido contradições, subtextos e ambiguidades.

5- Conversas longas, reuniões ou trocas profundas drenam energia. O superdotado costuma performar bem socialmente, mas paga o preço depois.

6- Dificuldade em “desligar” o cérebro para descansar ou dormir.

7- Síndrome do impostor persistente. Por dominar tarefas com facilidade, sente que não mereceu os resultados.

8- Podem ser brilhantes intelectualmente e imaturos ou atrapalhados em outras áreas, à exemplo de um acadêmico brilhante, mas péssimo dançarino.

9- Incômodo com barulho excessivo, ambientes caóticos, excesso de informação visual.

10- Descoberta tardia do próprio funcionamento e por isso sente culpa por “ser diferente”.

A Todavia apurou, junto a psicólogos e pacientes, que o custo médio para buscar o diagnóstico de altas habilidades ou superdotação no Piauí gira em torno de R$ 2 mil, valor considerado entre os mais baixos praticados para esse tipo de avaliação. Conforme explicado durante as entrevistas, o preço varia de acordo com a complexidade do processo, que não se resume a um único teste por envolver entrevistas clínicas, aplicação de diferentes baterias cognitivas, observações comportamentais e análise da história de vida do paciente.

Outro fator é a formação do profissional responsável pela avaliação, ou seja, quanto maior a especialização e a experiência no atendimento a essa neurodivergência específica, maior tende a ser o valor cobrado e também maior é o tempo de espera para conseguir uma hora marcada com o profissional, justamente pela qualificação técnica exigida para um diagnóstico preciso.

Altas habilidades não significam apenas “ser muito inteligente”, diz psicóloga

Durante décadas, a superdotação ocupou um lugar ambíguo no debate público brasileiro, tanto romantizada, quanto silenciada. Romantizada pela ideia do gênio e silenciada porque tudo o que foge a esse padrão passa por julgamentos. Na prática clínica, no entanto, a realidade se apresenta de forma mais complexa. A psicóloga Nara Gisele de Araújo, diretora clínica do Centro em Análise do Comportamento (CAC), descreve as Altas Habilidades ou, como estamos chamando nesta edição da Todavia, superdotação, como um funcionamento cognitivo que atravessa não só a inteligência, mas a forma como o sujeito percebe, sente e organiza o mundo ao redor.

Pessoas com altas habilidades tem o funcionamento cognitivo significativamente acima da média em uma ou mais áreas do desenvolvimento humano. Isso pode aparecer na inteligência geral, no raciocínio lógico, na linguagem, na criatividade, na liderança, na memória ou em talentos específicos, como música, matemática ou artes.

“É importante desfazer um equívoco comum de que as altas habilidades não significam apenas “ser muito inteligente”. Essas pessoas costumam ter um cérebro que funciona de forma mais rápida, intensa e profunda. Pensam muito, fazem conexões complexas, percebem detalhes que passam despercebidos para a maioria e isso impacta não só a aprendizagem, mas também as emoções, os relacionamentos e a forma de estar no mundo”, disse.

Psicóloga Nara Gisele de Araújo (Foto: reprodução)

O ponto central, segundo ela, é que esse funcionamento carrega intensidade. Velocidade. Profundidade. E, com isso, consequências emocionais e relacionais que raramente aparecem no debate público. Ao reduzir a superdotação a uma vantagem permanente, invisibiliza-se o custo subjetivo desse modo de funcionamento. Nara observou que muitos adultos chegam ao consultório não em busca de reconhecimento, mas de explicação, depois de uma vida inteira tentando se adaptar a ambientes que não foram desenhados para eles.

Questionada pelo boletim brio se a demora na procura pelo exame, ela confirmou que ainda existe um certo tabu pairando sobre o tema:

“Historicamente, o Brasil associou superdotação a uma ideia elitizada ou romantizada do ‘gênio’, o aluno perfeito, aquele que tira notas altas e não dá trabalho. Quem não se encaixa nesse estereótipo, aquelas pessoas sensíveis, ansiosas, questionadoras ou com dificuldades emocionais, acabam invisibilizadas. Muitos adultos chegam ao diagnóstico depois de uma vida inteira se sentindo ‘fora do lugar’, intensos demais, sensíveis demais ou inadequados, sem entender o porquê. Existe, sim, um tabu: falar de altas habilidades ainda é confundido com vaidade, privilégio ou exagero, quando, na prática clínica, vemos o quanto a falta de reconhecimento pode gerar sofrimento psíquico”, explicou.

O resultado desse silêncio passa por um sofrimento psíquico. Nara Gisele de Araújo descreveu que muitos adultos com altas habilidades não identificadas crescem acreditando que há algo “errado” com eles. De acordo com ela, relatos de ansiedade crônica, depressão, sensação de inadequação, esgotamento emocional e dificuldades relacionais são comuns nesses pacientes. Quando a pessoa não entende por que pensa diferente, sente diferente e reage diferente, ela aprende a se adaptar à força, mascarando quem é. Assim, tem um custo emocional alto, avalia a psicóloga. Por isso, ressaltou que é importante buscar o diagnóstico para que possa entender a própria história.

Outro fator que contribui para o apagamento é a chamada dupla excepcionalidade, quando altas habilidades coexistem com outras neurodivergências, como TDAH, TEA nível 1 ou transtornos de humor. Nesses casos, o potencial passar despercebido, eclipsado por dificuldades comportamentais ou emocionais.

“Isso torna o diagnóstico mais complexo, porque uma condição pode mascarar a outra. Um adulto com altas habilidades e TDAH, por exemplo, pode ser visto apenas como desorganizado ou instável, quando, na verdade, possui um alto potencial cognitivo não reconhecido. Clinicamente, isso exige uma avaliação cuidadosa e um plano de intervenção que considere potencial e vulnerabilidades ao mesmo tempo, sem romantizar nem patologizar”, declarou.

Também perguntada sobre o processo de teste para o diagnóstico da superdotação, a psicóloga confirmou que a avaliação, quando finalmente acontece, raramente é simples. Não há teste rápido nem diagnóstico instantâneo. Trata-se de um processo longo e técnico. Por ter que ser realizado em diferentes sessões, demanda dinheiro e disponibilidade de tempo.

“A avaliação não é um teste único. Ela envolve entrevistas clínicas detalhadas, análise da história de vida, instrumentos cognitivos padronizados, avaliação emocional e, muitas vezes, observação comportamental. O processo costuma levar algumas sessões e precisa ser conduzido por profissionais capacitados para esse tipo específico de perfil. O custo ainda é alto porque exige formação especializada, tempo clínico prolongado e instrumentos específicos. Além disso, infelizmente, o sistema público ainda não absorveu a avaliação de altas habilidades como uma demanda de saúde e desenvolvimento, o que limita o acesso para grande parte da população”, pontuou.

Ao ser questionada sobre a orientação para pessoas que suspeitam de ter superdotação, mas, ainda não tem o laudo ou não tem condições financeiras para busca-lo, a psicóloga pontuou que ele é importante em contextos formais de escola, trabalho, adaptações, mas a vivência subjetiva não depende de um papel para existir. O reconhecimento interno já é um primeiro passo importante.

“Para quem se identifica com esse perfil, mas não tem acesso à avaliação, o caminho recomendado é buscar psicoeducação, acompanhamento psicológico sensível à neurodiversidade e ambientes que respeitem ritmos, limites e potencialidades. Entender-se muda a forma de se cobrar, de se relacionar e de se cuidar”, apontou..

Superdotados não deveriam ter que “pagar o preço” da excepcionalidade

Foto ilustração (Fonte: freepik)

“A solidão é a sorte de todos os excepcionais”, escreveu o filósofo Arthur Schopenhauer. No caso das pessoas neurodivergentes, sobretudo daquelas com altas habilidades, essa solidão aparece, principalmente, como incompreensão: o esforço contínuo de se ajustar a ambientes que não reconhecem ritmos diferentes de pensamento, sensibilidade e percepção.

Durante décadas, a superdotação foi tratada como curiosidade, privilégio ou exagero. O que este conjunto de relatos revela é outra coisa. Trata-se de uma condição humana, atravessada por potencial, mas também por desgaste, sofrimento psíquico e silenciamento.

Reconhecer as altas habilidades e superdotação é nomear o que sempre existiu. É permitir que crianças não atravessem a infância achando que são “difíceis demais” e que adultos não passem a vida inteira acreditando que há algo errado com eles. Talento não reconhecido não se perde apenas individualmente, ele se dissipa socialmente. E toda sociedade que trata os seus excepcionais como exceções, em vez de sujeitos reais, paga o preço desse desperdício.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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