Os baby boys teresinenses: a omissão dos homens que alimentam fantasias femininas e somem

A Coluna Divã, assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, é um espaço dedicado à escuta sensível em tempos de excesso de informações. Ali, conflitos afetivos, dilemas familiares e questões subjetivas ganham interpretação à luz da psicanálise, sempre com o compromisso do anonimato.

Os relatos que dão vida à coluna são enviados pelos próprios leitores, de forma confidencial, e transformam-se em reflexões que dialogam com experiências comuns a muitos.

Quem desejar participar pode encaminhar sua história para o e-mail contato@boletimbrio.com ou pela página no Instagram @boletimbrio.

Relato enviado por uma leitora anônima

Durante um evento conheci um rapaz. Pessoalmente, tivemos poucas interações, mas depois ele pediu para me seguir nas redes sociais e começamos a conversar.

No início, eu não dava muita atenção, respondia de forma superficial. Com o tempo, fomos nos conhecendo melhor e chegamos a marcar um encontro. No entanto, no dia combinado, ele desmarcou alegando um problema. Mesmo assim, seguimos conversando. Ele começou a pedir satisfações sobre minhas atitudes, falava o que fazia ou deixava de fazer e, ao mesmo tempo, se mostrava interessado em me ver.

Quando viajou, enviava mensagens constantemente, relatando a viagem, falando sobre a vontade de ter um relacionamento e ficando “chateado” sempre que eu sugeria calma. Depois, simplesmente desapareceu e voltou dias depois, repetindo o discurso de querer me ver, mas desconversando perto dos momentos combinados. Sugeri que tivéssemos uma conversa séria para não perdermos tempo — e ele sumiu novamente.

Decidi me afastar. Não respondi mais. Meses depois, nos reencontramos por acaso, ele me mandou mensagem, mas não dei retorno. Voltou a falar comigo, puxando assunto. Respondi e retomamos contato, mas sem aprofundar. Ainda assim, ele insistia em me cobrar presença, dizia que não queria que eu sumisse e garantia que não iria sumir. Novamente marcamos de sair, mas ele desapareceu na véspera. Desde então, não nos falamos mais. Às vezes, ele curte meus stories e depois retira a curtida.

Ele tem uma vida movimentada, cercada de amigos e festas. Eu sou mais reservada. Diante de tantas idas e vindas, atitudes contraditórias e sinais confusos, fico me perguntando: isso era desejo genuíno ou apenas fantasia? E por que não concretizar?

Análise do psicanalista Lamartine Guedes: Amor de Perdição ou Os Brutos Também Amam? (O amor machista no Piauí)

Cara leitora: o mundo patriarcal/capitalista piauiense é mais tradicional e preconceituoso em relação ao amor verdadeiro, tornando-o, como diria Bauman, líquido e fugaz.

Classifico o amor, sem romantismo estrutural, em dois tipos: Amor de Salvação e Amor de Perdição. Ambos existem e fazem parte de uma mesma moeda. Basta o sujeito girá-la novamente e o jogo amoroso entra em movimento: salvação ou perdição? Só o encontro, o destino dirá.

O Amor de Salvação vai de encontro aos ditos e regras patriarcais, passa por cima das contravenções, vê o outro como ele é, realiza trocas, é altruísta. É querer estar junto e ver o outro bem.

O Amor de Perdição é turbinado pelo capitalismo, narcísico, usa o outro como se fosse apenas um objeto, um troféu que lhe empresta status. Este amor é o mais recorrente atualmente e o nomeio de Amodio, pois um amor com tamanha liquidez de mercado e relação de objeto acaba em tragédia ou decepção — por vezes, acompanhado de ambos.

Assim, salvamos o significante “amor”, o amor mesmo, aquele dos Cânticos dos Cânticos, que se diferencia do Amodio (o amor narcísico tão em moda nos tempos atuais).

É sempre bom lembrar, como dizem os Cânticos: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor, nada seria”. Com esse entendimento, analisei o seu caso, leitora, e fica claro que você passa pelo mesmo dilema de muitas mulheres que querem amar, mas estão impossibilitadas, pois o mundo moderno não produz em quantidade suficiente homens maduros que saibam amar.

Para o sujeito masculino moderno (em geral machista, porque ainda são criados no Piauí/Brasil para serem assim), é vergonhoso demonstrar amor ou envolvimento. Amor de verdade é coisa de homem feito; algo que, na nova era narcísica, está cada vez mais raro. Só aparecem os “Baby-Boys”, os garotos ou os machistas regados por Amodio.

Me chamou a atenção, leitora, você dizer que conheceu e se enamorou por um rapaz que ensaiou algum tipo de envolvimento, mas logo depois sumiu. Depois, você relatou que ele se irritava quando você o convocava para um encontro sério, uma conversa de adulto, início de um possível compromisso de namoro que não se concretizou. Fica visível que esse “rapaz” é alguém que não amadureceu no amor (um Baby-Boy?): vive ensaiando amores de perdição, infantes e imaturos. Esse tipo de amor envolve posse (pois é inseguro e narcísico) e tende ao controle, à subjugação do outro e até à violência. Você percebeu traços desse amor nas atitudes dele.

O que parece é que esse rapaz viu em você a possibilidade de um Amor de Salvação, a chance de deixar de ser rapaz e se tornar homem, capaz de amar e ser amado. O Cântico dos Cânticos fala desse momento de paixão: “Mas quando vier o que é perfeito (o Amor), então o que é em parte será aniquilado”.

O Cântico é um dos poemas mais sublimes que existem falando sobre o que é o amor, e em relação à ordem natural de um amor de salvação masculino… ele diz: “Quando eu era menino, sentia como menino, mas, ao chegar a ser homem, deixei as coisas de menino”.

Pois bem, leitora, sem perceber você apontou que ele não fez a operação de virar homem e continuou menino quando não teve coragem de sair e tentar algo com você, exercendo seu Amor de Perdição — imaturo, incompleto — o que o torna um Baby-Boy. Preso às redes inconscientes da moral e do machismo local, ele não teve forças para sair da vida de “macho alfa”, em que se vê como pavão e vive de aparências, futilidades, gozos passageiros e provas de masculinidade que mais tarde resultam em vazio existencial. Você percebe isso quando relata que ele leva uma vida movimentada, cercada de amigos e festas, mas dá sinais confusos e desaparece. Isso mostra seu descontentamento com essa vida mundana e mista, da qual foi incapaz de abrir mão diante de você e da promessa de um amor verdadeiro.

Infelizmente, leitora, o Amor de Salvação não é para todos. Ele exige altruísmo, sacrifícios e autenticidade, valores que o mundo narcísico atual não apenas não valoriza como também reprime.

O que você viveu, da parte dele, foram fantasias e desejos de um encontro diferente, de uma vida com um amor de verdade — abortado antes mesmo de acontecer. O medo do menino (seu paquera) de viver uma paixão adulta e mudar seu estilo de vida o impediu de seguir adiante. As mudanças assustam e dificultam o amadurecimento dos rapazes e, no mundo machista em que vivemos, muitos deles não mudam, tornando-se eternos Baby-Boys.

Do seu lado, e ao lado de muitos homens desconstruídos e não neurotizados pelo machismo, fica a forte frase dos Cânticos dos Cânticos: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três. Mas o maior deles é o amor”.

Espero que você fique bem, não perca a fé e a esperança de buscar um grande amor e que seus encontros e sua lucidez a desviem do Amor de Perdição e a façam encontrar um Amor de Salvação. Lembre-se também (parodiando os Cânticos dos Cânticos): “Não adianta conquistar um companheiro sem amor de salvação, pois um amor assim torna-se, com o tempo, perdição e nada de bom trará”.

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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