O Piauí vive um momento de maior visibilidade no cenário nacional, com um potencial turístico amplamente reconhecido, ainda que enfrente desafios históricos relacionados à infraestrutura, à promoção dos destinos e ao reconhecimento interno de suas próprias riquezas. Nesse fluxo de avanços e entraves, a rede hoteleira do estado também passou por transformações significativas: enquanto novos empreendimentos surgiram, outros precisaram se reinventar para atender às exigências de um mercado cada vez mais globalizado, tecnológico e orientado por novas formas de consumo.
O perfil do hóspede mudou, segundo os empresários da rede hoteleira, hoje mais conectado, exigente e atento a serviços que vão além da hospedagem tradicional, como conectividade, experiências e estruturas complementares, a exemplo de academias de ginástica (agora requisito obrigatório para parte da clientela). Diante desse cenário, a coluna traz duas listas que apresentam ao leitor os hotéis com diárias mais altas de Teresina, a capital, e de Barra Grande, vilarejo em Cajueiro da Praia, um dos destinos turísticos mais disputados do Piauí. E destaca também estabelecimentos que se sobressaem pelo melhor custo-benefício nas duas cidades. Antes disso, trazemos um termômetro do setor com a visão de nomes experientes no ramo.
Como unir tradição e inovação na hotelaria
Fundado em 2001, o Metropolitan Hotel Teresina tem à frente o empresário Danilo Damásio e reúne a experiência de um dos empreendimentos hoteleiros mais tradicionais da capital. Segundo ele, em entrevista ao Boletim Brio, o hotel preserva sua identidade, ao mesmo tempo em que apresenta condições competitivas dentro do atual cenário da hotelaria local.

“O Metropolitan Hotel acompanha ao longo dos anos as transformações de Teresina e do mercado. Nosso diferencial está justamente entre tradição e atualização constante. O hóspede se tornou muito mais informado, comparativo e exigente, lê avaliações e chega com expectativas bem claras. As plataformas digitais deram mais poder e voz ao cliente, o que nos fez olhar ainda mais para a qualidade do serviço, não só para a estrutura. No turismo de negócios, percebemos uma busca maior por agilidade, conectividade, conforto funcional e flexibilidade. Hoje o hóspede quer eficiência, mas também valoriza experiências simples, como um bom café da manhã, silêncio para descansar e um atendimento resolutivo”, contou Danilo Damásio.
Ideia é manter um hotel economicamente sustentável sem perder a essência
“O maior desafio é equilibrar custos cada vez maiores, necessidade constante de inovação e rentabilidade, sem perder a identidade construída ao longo do tempo. Para ser sustentável, o hotel precisa de gestão profissional, investimento em pessoas, tecnologia e experiências que façam sentido para o hóspede. Mas a essência (o cuidado com quem se hospeda, o atendimento humano e a reputação construída) continua sendo o principal ativo. Quem conseguir preservar isso, com certeza estará preparado para o futuro”, defendeu Danilo Damásio.
Redes hoteleiras que chegam impactam efetivamente os hotéis tradicionais?
Quanto à concorrência que chega ao Piauí agregada em redes de hotelaria, o empresário minimizou o impacto prático.
“O único diferencial de uma grande rede para um hotel local é tão somente a força comercial junto a grandes operadoras. É mais fácil ser recebido por uma grande operadora de turismo para apresentar um hotel quando se oferece opções de hospedagens em diversas cidades, e não em apenas uma. Já para o cliente, optar por um hotel local, administrado mais de perto pelos donos, é uma experiencia mais agradável. Como a hotelaria de Teresina é voltada para negócios, alguns hospedes que nos visitam possuem limitadores de tarifas, o que os conduzem para hospedagens mais baratas. Mas uma grande parcela dos nossos visitantes, procuram hospedar-se em estruturas hoteleiras requintadas que traduzam, em certa medida, a importância do hospede e do negócio que vieram fazer”, narrou o proprietário do Metropolitan Hotel.
A Barra Grande que os donos de hotéis conhecem
A decisão de investir em Barra Grande começou a ser desenhada entre 2015 e 2016, período em que visitas técnicas à região revelaram um mercado promissor e com elevado potencial de crescimento. No centro desse movimento está Danilo Fiuza, presidente da Associação de Empresários e Empreendedores de Cajueiro da Praia e fundador do Hotel Caminho da Praia, que apostou no desenvolvimento sustentável do destino e na profissionalização da hotelaria local ao abrir o negócio.

“Os principais desafios do setor são infraestrutura e mão de obra. Embora a gente tenha visto alguns investimentos pontuais de infraestrutura, a gente ainda tem a dificuldade de acesso à água com facilidade. Muitos, inclusive, não têm fornecimento de água habitual e têm que optar por usar poço ou coisa do tipo, caminhão-pipa, e a questão da qualidade do fornecimento de energia elétrica, que é um problema por muitos anos, principalmente nos dias de grande movimentação. E isso é o que muitas vezes complica muito a gente, porque a gente se prepara muitos dias, muitos meses, para receber o turista naquela época e, exatamente na época que é para dar tudo certo, a gente tem falta de energia, queima de equipamentos. Aqui, para mim, é comum queimar frigobar, queimar ar-condicionado, queimar bomba. Eu já perdi a conta de quantos aparelhos eu perdi. Na verdade, não tenho nem como aumentar a minha diária para compensar essa perda. É uma coisa, assim, incalculável”, relatou ao Boletim Brio, Danilo Fiuza.
Outro ponto relevante, é que depender exclusivamente dos períodos de alta temporada compromete sobremaneira a sobrevivência comercial dos empreendimentos. Muitas parcerias se formam com pessoas que atuam em Jericoacoara (CE); no Maranhão, em Atins, em Barreirinhas, numa espécie de rede de cooperação criada pelos próprios empreendedores.
“Quando eles estão fazendo o passeio, quando eles sabem que a pessoa vai passar por Barra Grande, eles indicam a minha pousada, eles indicam o almoço, eles indicam o café da manhã que eu vendo, e eu dou desconto para eles, às vezes, uma bonificação, quando há essa indicação direta, quando esse turista me procura. Então você tem que adotar estratégias para criar um ecossistema que se retroalimenta. Se você ficar esperando esse turista vir apenas nos meses de maior movimentação, o negócio não se paga”, destacou o empresário do litoral.
Empresariado cobra comunicação antecipada sobre eventos no litoral
Na avaliação de Danilo Fiuza, o litoral do Piauí ainda vem sendo explorado de forma pouco estratégica, sobretudo pela ausência de uma comunicação integrada entre o Estado, os municípios e o setor empresarial. Segundo ele, essa falta de alinhamento compromete o planejamento turístico.
“A gente, muitas vezes, fica sabendo de alguns eventos um pouco em cima da hora. Às vezes, a gente não sabe se o planejamento de trânsito, qual a antecedência, a gente não sabe qual é o mapa de eventos que vão acontecer para poder se programar, e isso, às vezes, causa um pouco de choque nas possíveis programações que a gente pode fazer. Eu acredito que isso tem muito a ver com o processo de comunicação, seja do Estado, seja do município, seja de alguns empresários, inclusive, que falta um pouco desse canal fácil de comunicação para que a gente tenha acesso aos eventos, às programações, a tudo que vai acontecer ao longo do ano, às divulgações de feiras culturais, de festas, de eventos gastronômicos e uma série de outras coisas”, mencionou Danilo Fiuza.
Municípios com maior protagonismo
A professora de Turismo da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), Gracimar Tavares, avalia que o Estado atravessa um momento de fortalecimento das políticas públicas voltadas ao turismo, sobretudo no âmbito municipal. Para ela, há uma compreensão mais clara do turismo como vetor de desenvolvimento econômico, um movimento relativamente recente, mas que já começa a apresentar resultados no Piauí.

“Isso gera, nos municípios, uma vontade maior de se promover também. É o caso de Coronel José Dias, por exemplo, que antes a gente só conhecia a Serra da Capivara por São Raimundo Nonato, era a única entrada. Só que o Parque Nacional da Serra da Capivara fica nos dois municípios. Então, hoje, por exemplo, a gente vê e ouve muito falar sobre Coronel José Dias, que é a outra entrada do parque. Isso é exatamente o que a gente percebe dentro desse desenvolvimento econômico. Outro aspecto que contribui muito para isso é que a gente passa a ter destinos em rotas internacionais. Barra Grande e São Raimundo Nonato são destinos que visam um público de fora daqui”, frisou Gracimar Tavares.
“Barra Grande não é pensada para os piauienses”
“Trancoso, na Bahia, é um destino que não é barato, é um destino caro e que não quer ficar barato. Quando ele aumenta o valor, ele segmenta o mercado que quer atrair. Eu lembro que a primeira vez que fui a Trancoso alguém comentou: ‘Ave Maria, mas esse acesso é tão ruim. É uma cidade tão boa, por que não melhora esse acesso?’. Porque a cidade não quer o público de massa. Se asfaltar a estrada, vai permitir ônibus de excursão, vai permitir que muito mais gente vá e ela [a cidade] não quer isso. Muitas vezes, a forma que um destino tem de segmentar o público que ele quer é pelo preço. Barra Grande, como eu te falei, é um destino internacional, com público segmentado, e esse público paga o preço que ela cobra. Para a nossa situação econômica aqui no Piauí, é caro, é verdade. Mas, para o público que ela quer, não é. A gente vai porque gosta, mas não é um destino feito para nós. É um destino planejado para quem vem fazer kitesurf, para quem vem de fora, para quem quer exclusividade, porque isso vende e vende bem”, opinou a professora de Turismo da Uespi, Gracimar Tavares.
Tem turismo em Teresina, sim!
O turismo ainda é associado, no imaginário coletivo, a destinos naturais como praias, cachoeiras e montanhas. Em Teresina, no entanto, a dinâmica se estabelece a partir de outros segmentos. A atividade contempla múltiplas frentes, como turismo de saúde, de negócios, de eventos, ecoturismo, turismo religioso e de lazer. Mas, é o turismo de eventos e de negócios, que constituem o principal eixo da atividade turística na capital.

“Eu lembro que a primeira vez que entrei em um hotel e percebi que a gente tinha eventos todos os dias em Teresina, com ocupação hoteleira alta de março a novembro, fiquei impressionada com a quantidade de gente de fora. A gente não tem essa noção. O nosso turismo aqui na capital é um turismo de negócios e eventos, que ficou adormecido por muito tempo porque não tínhamos um Centro de Convenções estruturado. Depois da reforma, a quantidade de eventos só aumentou. A gente teve mais shows, mais peças de teatro, muito mais atividades do que antes. Isso é uma tendência natural. Os eventos corporativos são responsáveis por grande parte da ocupação hoteleira. Por isso, surgem novos hotéis. Esse segmento de negócios muitas vezes fortalece mais a economia do que o lazer. Aqui, o padrão segue voltado para esse tipo de turista que prefere uma sala de negócios a uma academia ou uma piscina”, analisou Gracimar Tavares.
Piauí para todos
A notícia é boa: os avanços no turismo piauiense não se resumem a campanhas publicitárias ou publiposts pagos nas redes sociais, mas se manifestam como uma realidade observada e relatada por empresários do setor e por especialistas na área. O Piauí tem avançado de forma significativa, embora ainda enfrente profundos gargalos estruturais acumulados ao longo de décadas, cuja superação exige planejamento contínuo e não ocorrerá de maneira repentina.
O fortalecimento do turismo passa, necessariamente, pela combinação entre iniciativas privadas, inseridas em um ambiente empreendedor favorável, e políticas públicas capazes de fomentar o setor de forma sustentável. Também é fundamental ampliar o acesso ao lazer, ao conhecimento e à valorização do patrimônio natural e cultural do Piauí, garantindo que o turismo não seja um privilégio restrito, mas uma experiência possível também para os próprios piauienses, inclusive aqueles com menor poder aquisitivo. Como? Bom, gestão pública requer criatividade.
Critério editorial das listas a seguir
As listas seguem critérios técnicos, e foram elaboradas a partir do cruzamento de múltiplas fontes. Entre elas, estão plataformas nacionais de avaliação de hospedagem, a exemplo do TripAdvisor, além da análise comparativa de preços, índices de custo-benefício e a leitura integrada de dados disponíveis ao público. Também foram considerados aspectos como comunicação, reputação e a percepção pública desses hotéis, aquilo que se constrói, de forma espontânea, na chamada “boca do povo”.
Como princípio editorial inegociável, é importante destacar que nenhum estabelecimento pagou para integrar a lista, que preserva seu caráter informativo, independente e comprometido com o interesse do leitor.
Barra Grande, Cajueiro da Praia – PI
Cinco hospedagens com maior diária
Koloa Concept Hotel
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 2.349.
Manati
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 1.382.
BobZ Boutique Resort
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 1.148.
Pousada BGK
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 1.076.
Arrey Boutique Hotel
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 782.
Cinco hospedagens com melhor custo-benefício
Mero Hotel Boutique
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 682.
Chic Hotel Boutique
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 740.
Pousada Lá em Casa
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 492.
Pousada Paraíso da Barra
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 490.
Caminho da Praia
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 480.
Teresina – PI
Cinco hotéis com maior diária
Monã Hotel
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 1.276.
Metropolitan Hotel
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 663.
Uchôa Teresina Hotel
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 458.
Blue Tree Towers Rio Poty
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 429.
Alfa Hotel Teresina
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$429.
Cinco hotéis com melhor custo-benefício
Luxor Hotel (Rede Andrade)
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 199.
Ibis Teresina
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 276.
Arrey Executive
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 328.
Arrey Express
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 291.
Hotel Cortese
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$ 276.
Portofino Hotel
O valor de uma diária para dois adultos custa em média R$230.
*Os valores sofrem variações em função da sazonalidade, da antecedência da reserva e da dinâmica do mercado.



