A Coluna Divã, conduzida pelo psicanalista Lamartine Guedes, abre um espaço de acolhimento e escuta atenta em meio ao turbilhão de informações do dia a dia. É aqui que dilemas familiares, conflitos afetivos e questões íntimas são analisados sob a perspectiva da psicanálise, sempre resguardando o anonimato de quem escreve.
Os textos que alimentam a coluna nascem dos próprios leitores. De maneira confidencial, eles compartilham suas vivências, que se transformam em reflexões capazes de conversar com as experiências de muitos outros.
Quem quiser enviar sua história pode escrever para contato@boletimbrio.com ou entrar em contato pelo Instagram @boletimbrio.
Relato enviado por um leitor anônimo
Oi, queria fazer um relato de forma anônima…
Fui a uma festa com meu ficante há algum tempo, no show de um cantor que eu gostava muito. Ele fez questão de me levar, porque iria sozinho. Quando chegamos ao local, ele começou a dizer que estava cansado e que já queria ir embora.
Quando o show começou, fomos para a frente, bem na grade. Ficamos abraçados, nos beijando, eu e ele filmando o show. Em determinado momento, já cansados, decidimos ir embora. Depois, ele postou um vídeo e marcou o ex com a seguinte mensagem: “faltou você aqui comigo”.
Quando questionei por que ele fez isso comigo, ele disse que eu estava surtando e que não precisava passar por aquilo. Até hoje isso me machuca, porque foi alguém de quem eu gostei muito e que ainda não consegui superar. Por que ele fez isso comigo e agiu como se não fosse “nada”?
Análise do psicanalista Lamartine Guedes:
Oscar Wilde e o retrato de gays em chamas…
Caro anônimo, bem-vindo ao amor que não ousa dizer o nome: o amor homoafetivo masculino. Sua carta me lembrou o célebre escritor Oscar Wilde, que produziu um clássico da literatura retratando, ainda hoje, uma face do sujeito homoafetivo moderno: o narcisismo e seu gozo desenfreado por beleza, juventude e vaidade — O Retrato de Dorian Gray.
O livro é um tratado sobre a ganância e a vaidade humanas, típicas do mundo masculino de Wilde. Em síntese, narra a vida de um jovem que vende sua alma ao diabo em troca de juventude eterna e prazeres mundanos, adquiridos à custa do sofrimento alheio — um verdadeiro protótipo de amor narcísico e machista.

O narcisista não enxerga ninguém além de si mesmo; para ele, o outro existe apenas como objeto de satisfação. Ele goza do outro e da dor do outro, usando-o como um simples instrumento.
Apesar de o sujeito homoafetivo masculino estar, de certa forma, próximo do feminino, o machismo e o heterossexismo persistem em larga escala, puxando o cordão do preconceito no mundo gay: preconceito corporal, discriminação etária, racismo, misoginia, transfobia, bifobia e uma série de outras formas de opressão — sendo a mais cruel de todas a homofobia.
Sim, pasmem: existem gays, e em grande número, inconscientemente homofóbicos em relação a si mesmos e à condição do outro. Um termômetro disso é o excesso de sexo casual no estilo “Dorian G(r)ay”: sexo em que o outro é apenas uma extensão, uma prótese, um fetiche, um objeto de uso masturbatório que, após o gozo, é imediatamente descartado e esquecido.
É importante destacar: quando o outro homoafetivo é reduzido à categoria de objeto, significa que o amor verdadeiro não existe — o que existe é o amor a si mesmo, a busca pela satisfação das próprias necessidades. Lembra de Oscar Wilde? E do amor que ele localizou no meio gay, aquele que não ousa dizer o nome por vergonha e preconceito? Entre as formas de homofobia, a mais cruel é a praticada pelos iguais: aqueles que, supostamente, deveriam defender a própria comunidade, mas que, na prática, reproduzem o machismo heterossexista.

Esse tipo de amor narcísico, em que o outro não é visto, leva a uma espécie de dependência, um vício, uma fixação sexual e um gozo desenfreado que adoece e deprime. Quando alguém se afunda nos prazeres exacerbados do sexo sem afeto, sexo sem nome, a questão central é essa “drogadição”: o objeto (o sexo) passa a dominar o sujeito, lançando-o numa roda-viva de busca de prazeres que não satisfazem e que exigem sempre mais, transformando a vida em martírio.
Fechar-se nesse processo de gozo sem limites é abrir-se para a dor existencial de se perder como pessoa. Esse movimento aparece hoje nas festas de swing masculinas — e também no meio heterossexual —, disseminadas em clubes onde verdadeiros labirintos são criados para desfiles de corpos e sexo anônimo, fenômeno especialmente visível nos grandes centros e símbolo da modernidade da sexualidade objetal, sem nome, tão em voga nos tempos atuais.
Voltando a Wilde, caro leitor, Dorian G(r)ay era exatamente assim: conquistava por meio de abusos, buscando posição, status e aproveitamento do outro. Em troca, o diabo lhe garantia beleza e juventude eternas.
Mas, caro anônimo, o que o pacto de Dorian Gray tem a ver com a comunidade gay atual? A resposta é clara: Dorian Gray fez um pacto com Lúcifer; muitos gays, hoje, fazem um pacto de conveniência com o sistema sexual machista e homofóbico.
Explico: diz o ditado “Quem cala, consente”, e grande parte da comunidade gay — especialmente a masculina — segue, em silêncio, as normas e princípios machistas da subjetivação heteronormativa moderna. No campo amoroso, há uma perversão de valores que transforma o outro em objeto. Lembre-se: é fácil para esses homens serem machistas, pois o fato de serem gays não os impede de continuarem sendo homens.
Não há contestação aberta desse modelo em que o outro só tem valor se reúne características como juventude, poder, beleza e dinheiro. Lembra do bairro de Teresina chamado “Vale Quem Tem”?
A replicação silenciosa dos valores machistas heterossexuais na comunidade gay é visível, e a moral vigente se reflete no campo afetivo. Os Dorians G(r)ays se multiplicam, e fenômenos preconceituosos surgem dentro da própria comunidade. Categorias heteronormativas e machistas se cristalizam na lógica do “ativo” e do “passivo” — o gay ativo que lembra o homem hetero (viril) e o gay passivo que lembra a mulher frágil.
Essa lógica binária, hetero e machista, é ultrapassada e não dá conta da diversidade LGBTQIAP+, sobretudo quando se trata de relações amorosas.
Por exemplo: você, caro anônimo, pediu para ser chamado de “anônimo”. O que está por trás desse pedido? O medo de assumir sua subjetividade e sofrer retaliações. No tempo de Oscar Wilde — ele próprio preso e perseguido por assumir publicamente seu relacionamento — já se descrevia esse fenômeno do “amor que não ousa dizer o nome”: um amor que não se revela, em que a pulsão de morte impera e onde medo, repressão e preconceito ainda hoje reduzem parte da vivência gay a estereótipos. Do século XIX para cá, pouco se avançou nesse aspecto.
Você, leitor, tenta entender por que seu paquera o destratou e mandou mensagem para o ex na sua frente, como se você não existisse. Pense bem e encontrará a resposta nas observações que apresentei: ele não o viu como sujeito; usou-o narcisicamente para não se sentir só na festa e para obter prazer. Provavelmente, o ex dele é quem se encaixa no padrão “macho alfa” que ele persegue. Curioso é quando você reclama da atitude e ele distorce os fatos, dizendo que você está “surtando”: na verdade, ele vive em surto megalomaníaco.
Vivemos tempos de amores líquidos, em que ser gay masculino “desejável” se fixa em padrões homo-heteronormativos: sexo, beleza, corpo, poder, juventude e dinheiro — o pacto com o diabo à la Dorian G(r)ay moderno.
Mas qual é o problema desse tipo de amor narcísico?

O primeiro grande problema é que é um amor que não vê o outro, apenas a si mesmo. Esse tipo de amor leva ao enlouquecimento, à perversão e a psicopatias. Freud nos lembra que, em última instância, precisamos amar o outro para manter a saúde mental e gastar a energia pulsional acumulada. Quando fazemos o bem ao outro, fazemos a nós mesmos — isso é sublimação. O amor baseado em valores fúteis, no “Vale Quem Tem”, empobrece a alma, adoecendo-a e enlouquecendo-a.
Por fim, caro anônimo — ou melhor, no início de tudo —, ouse dizer seu nome. Lute por um amor verdadeiro, por autenticidade e respeito à sua forma de amar. Ouse dizer o nome do seu amor. Fuja das figurinhas padrão que não o veem, que não o consideram e que o destratam. Lembre-se: o silêncio diante das práticas desamorosas apenas reforça padrões preconceituosos e perpetua infelicidades.
Quebre o pacto com o lado sombrio e assuma uma postura amorosa em que o outro seja visto, amado e valorizado em sua diferença.
Demonstre-se. O amor é uma força da natureza e, como toda força, tem seu lado bom e ruim. Canalize-o para o positivo e desenvolva um amor de construção e dádiva — aquele que, quanto mais se oferece, mais se recebe de volta.
Esse tipo de amor, pouco praticado no meio gay, exige esforço, trabalho, desejo e sublimação. A doação ao outro é um ato de coragem revolucionário e, como dizia o poeta Drummond: “O amor só se aprende amando.” Vá, então, diga e dê seu nome, faça uma revolução desconstruindo padrões. A comunidade LGBTQIA+ agradece.



