A Coluna Divã, conduzida pelo psicanalista Lamartine Guedes, abre um espaço de acolhimento e escuta atenta em meio ao turbilhão de informações do dia a dia. É aqui que dilemas familiares, conflitos afetivos e questões íntimas são analisados sob a perspectiva da psicanálise, sempre resguardando o anonimato de quem escreve.
Os textos que alimentam a coluna nascem dos próprios leitores. De maneira confidencial, eles compartilham suas vivências, que se transformam em reflexões capazes de conversar com as experiências de muitos outros.
Quem quiser enviar sua história pode escrever para contato@boletimbrio.com ou entrar em contato pelo Instagram @boletimbrio.
Relato enviado por uma leitora anônima
Comecei a trabalhar muito cedo, por volta dos 12 anos. Venho de uma família muito humilde e, desde pequena, aprendi que só através do estudo e do trabalho eu teria chance de ter uma vida melhor. Por isso, sempre valorizei cada oportunidade e sempre procurei formas de complementar minha renda.
Hoje tenho um emprego CLT, que me dá estabilidade, mas também fundei um pequeno negócio próprio, familiar, que apesar de não me sustentar sozinho, me garante uma qualidade de vida melhor. O problema é que, dentro do meu trabalho CLT, muitas vezes me sinto deslocada, até mesmo julgada por isso. Parece que ter uma renda extra me coloca em outro lugar, distante dos colegas, como se eu não fosse parte do grupo.

Um dos momentos em que isso fica mais evidente é na hora do almoço. A empresa fornece uma refeição, mas com qualidade muito baixa (já cheguei a ver bichos na comida). Como priorizo minha saúde, costumo comprar uma quentinha no restaurante da própria empresa. Só que, enquanto como a minha refeição, sinto um peso enorme, quase uma culpa, por ver os outros se alimentando daquilo que considero indigno.
Muitas vezes, sou alvo de piadinhas, deboche e olhares atravessados pelas coisas que já conquistei. A maioria trabalha lá há 10, 20, 20 anos. Já aconteceram até “acidentes” que de alguma forma visavam bagunçar meus materiais de trabalho, sujar minhas coisas, entre outros.
Também sinto que minha chefe me vigia. Se levanto para tomar um café ou ir ao banheiro, ela aparece logo em seguida, como se estivesse me fiscalizando. Isso me desgasta muito, porque eu gosto do que faço, mas não gosto da forma como me sinto nesse ambiente.
No fundo, fico me perguntando: será que deveria abandonar a estabilidade do CLT para me dedicar apenas ao meu negócio? Por que me sinto tão deslocada entre meus colegas? E, principalmente, por que carrego esse sentimento de culpa por estar tentando ter uma vida um pouco melhor?
Análise do psicanalista Lamartine Guedes:
Cara Lady*, você compartilha com a grande maioria dos brasileiros o sentimento de não se sentir plenamente vencedora em uma sociedade tão competitiva. Esse fenômeno, no Brasil, é mais acirrado e foi denominado de complexo de vira-lata, falando muito sobre o Brasil e o brasileiro.

Vivemos em um sistema muito desumano, duro, punitivo e regido pela ideologia dominante da meritocracia. Essa lógica desonesta faz acreditar que apenas pelos próprios méritos alguém pode conquistar uma vida melhor, sem ajuda social. É a lógica do “você S/A”, você empresa de si mesmo.
Você realizou um feito que parte dos brasileiros não consegue: vencer sozinha, sem a liga do social. Nas suas condições, são poucas as pessoas que conseguem. Mas, junto disso, aparece a culpa, como se tivesse traído um “acordo invisível” de viver sob a tradição neurótica degradante que reforça a alienação e a exclusão. Essa tradição, por parte das elites e da sociedade cristã brasileira, faz com que muitos internalizem a ideia de que não têm valor e aceitem as esmolas criadas por esse sistema, que os permite, como nas senzalas antigas, comer e trabalhar.
Lembre-se: mais de 100 milhões de brasileiros vivem na linha da pobreza, enquanto uma pequena elite lucra e concentra privilégios absurdos.
Chamou-me a atenção você dizer que a comida da empresa tinha bichos (era para bicho comer?) e que a própria empresa vendia uma comida melhor para quem não admitia ou para quem podia comer feito gente. Toda essa lógica de abuso e usurpação de corpos/sujeitos fica aí autoexplicativa. Freud já dizia que sentia tristeza ao ver as pessoas mais pobres porque elas não têm condições de elaborar seus conflitos neuróticos através da arte, da própria psicanálise e da educação criativa, pois a luta diária pela sobrevivência não lhes permite sair das condições de sofrimento psicossocial que as forças do sistema impõem.

Lembrei agora que o tão falado complexo de vira-lata está ligado a essas coisas que comentamos. É muito difícil, nessas condições opressoras, sem a devida educação, ter autoestima, superar a sensação de inferioridade e se livrar da crença reinante de que não é possível alcançar um patamar melhor na vida. Esse complexo paralisa, deixa a pessoa presa e barrada diante de seus próprios avanços. Pessoas que carregam esse fardo acabam tendo menos oportunidades de emprego e mais dificuldade em se mover no xadrez da luta social.
A desigualdade de classe é a mãe de todos os preconceitos. O combate à desigualdade de classe é fundamental para que as outras diferenças diminuam e sejam trabalhadas.
Nesse sentido, você está de parabéns. Você é um exemplo de como as pessoas podem se mexer e sair dessa situação paralisante, que é a desigualdade de classe e as forças de classe que colocam o sujeito refém dele mesmo e da miséria.
Vários autores psicanalistas estudam a lógica neurótica e sua relação com o capitalismo e as classes sociais. Freud e sua técnica psicanalítica ajudam na desalienação e no desprendimento pessoal do sistema opressor e neurotizante, que faz acreditar que todo fracasso é decorrência apenas de si mesmo, e avalia a lógica injusta da meritocracia e da empresa de si mesmo posta pelo sistema vigente. A psicanálise serve para reconhecer o desejo, militar por ele, principalmente o desejo de ser sujeito – e isto é revolucionário, pois implica, no fim das contas, em ato político: desejo de ser reconhecido como cidadão e ter seus direitos básicos dentro do grupo garantidos. Naturalmente, leitora, esta sua força desalienante ganhará muito ao fazer algumas sessões de análise. Pense nisso no futuro.
O Brasil é um país rico, mas a desigualdade social faz com que a grande maioria não alcance, de fato, uma vida melhor. E, diante disso, surge em muitos brasileiros um sentimento de culpa, como se não merecessem as conquistas alcançadas. Mas essa culpa não deve ser alimentada.

Sua história de vida mostra o contrário: você venceu desafios, sobreviveu e trabalhou de forma criativa. O maior exemplo que você carrega é justamente esse: superar-se. Não sinta culpa pelo emprego ou pelas conquistas que alcançou. Sua força vital a impulsiona a seguir em frente, e isso é o que você deve valorizar. Essa mesma força pode ajudá-la a trabalhar e a apoiar outras pessoas que também lutam para se superar.
Portanto, confie em você. Busque vencer cada vez mais. Quem sabe até você se torne uma “Marina da Vida”, uma referência de quem amplia os horizontes e transforma a própria trajetória em fonte de inspiração para os outros.
Confie na sua força vital. Caminhe na vida sem culpa, pois não existe culpa em tentar e buscar ser feliz.

Boa sorte na sua luta para sair da classe oprimida na qual a sociedade cristã brasileira e as elites tentam naturalizar sem sucesso, pois não é natural ser pobre, mas sim algo artificial criado por uma matriz/ideologia de elite humana e injusta. Lembre-se: o sistema bizarro escravocrata brasileiro, como diz o cantor Lobão, mudou das senzalas para as favelas, ou seja, vivemos ainda no país de maior injustiça e desigualdade social do mundo.
Suas mudanças e conquistas podem iluminar sua jornada e contagiar outras pessoas com a mesma luz. Desejo, então, boa sorte na sua luta para sair da classe oprimida. Percebo que você tem talento para isso. Assim, mande um novo relato quando conseguir realizar seus desejos/sonhos de libertação de classe. Terei prazer em compartilhá-los por aqui.



