
“Ele era feliz, uma criança bem cuidada, como você vê nas fotos. Ele via, vivia bem, era alegre. No dia em que tudo aconteceu, tentei salvá-lo, mas não consegui. Ele sofreu pelo menos 13 paradas cardíacas no hospital. Tentaram salvar, mas infelizmente ele estava muito queimado”.
As palavras são de Aline Aragão, mãe de Arthur Luís Alves, de dois anos, morto ao receber uma descarga elétrica, após encostar em uma placa de iluminação na calçada de uma revendedora de gás no bairro Promorar, zona Sul de Teresina. A entrevista foi realizada por telefone, após o contato dela com o Boletim Brio. A apuração também buscou falar com a outra parte envolvida no caso, a empresa Ultragás, mas, não obteve um retorno até o fechamento deste texto. (Veja o posicionamento e o processo de apuração ao final.)
Indenização de meio milhão
Nove meses após o acidente e diante de um longo processo judicial, Aline relatou que a empresa responsável segue funcionando normalmente. Possíveis acordos entre as partes, com o empresário Carlos Welington Nunes, não foram aceitos, e segundo apurou a Todavia, a equipe jurídica que acompanha o caso estima que a indenização a ser solicitada ultrapasse o valor de R$ 500 mil.
O valor da indenização, conforme foi apurado, leva em conta a expectativa de vida de Arthur, que tinha apenas dois anos, e outros fatores previstos pela lei, incluindo salário mínimo vigente.

O acidente ocorreu em 26 de novembro de 2024, no bairro Promorar, Zona Sul da capital. Câmeras de segurança registraram o momento em que Arthur brincava ao lado de outra criança e levou o choque. As imagens foram divulgadas, de maneira bem controversa, por toda a mídia na época. A Todavia optará por não incluí-las nessa coluna, pois o objetivo é chamar atenção para o fato de que antes daquele momento, que foi repetidos milhares de vezes nas telas de celulares no feed internautas, havia uma criança que a vida foi tragicamente interrompida. A seguir a vida que o Arthur tinha.
Post compartilhado pela mãe do garoto nas redes sociais em homenagem ao filho:
Vinda a Teresina para consulta médica e o dia da tragédia
Em entrevista à Todavia, Aline contou que ela e sua família não moravam em Teresina. Vinham de Demerval Lobão para uma consulta médica e estavam hospedados na casa da mãe dela. Ela conta que Arthur, aos dois anos, gostava de brincar com uma miniatura de motocicleta e tinha o irmão mais velho como melhor amigo, na época, esse também sofreu uma descarga elétrica ao tentar salvar o mais novo.
Ela acrescentou que o dia do acidente começou como qualquer outro. De acordo com a mãe, Arthur acordou por volta das 7h, tomou café e brincou com o irmão. “Brincou tanto que dormiu no sofá”, relembrou Aline. Ela seguiu relatando que durante a tarde, ele cochilou e, ao acordar, por volta do final da tarde, preparava-se para ir à casa da bisavó, de 85 anos quando a tragédia aconteceu. As últimas palavras que Aline ouviu dele foram: “Bênção, minha bi”.
Na calçada, ao brincar o menino sentou-se no chão e encostou na placa, segundo o relato de testemunha à mãe. Ele teria sido levado as pressas em uma motocicleta para o hospital.
“Eu vejo que poderia ter sido com qualquer outra criança”, observou.

Ele recebeu socorro no hospital, mas não resistiu. Aline também disse ter dentro de si um sentimento de impotência:
“O meu sentimento hoje é de ser incapaz, de incapacidade. A Justiça está sendo muito fraca, a Justiça dos homens está sendo muito fraca. O meu caso já era para ter sido resolvido. Para outras mães que passaram por isso, digo: tenham fé e força, lutem muito pelo seu direito, vão em frente, orem bastante, peçam a Deus”, declarou à Todavia.
Família tentou acordo, que não foi aceito, e apresentará ação civil “ex delicto”
O advogado Adão Direito, que assumiu o caso recentemente, avaliou que o andamento do caso está dentro do que é esperado. Em entrevista, ele fez elogios ao apoio que o Ministério Público do Piauí está dando na tramitação. O ponto central da acusação, segundo o ele, é a responsabilidade direta da distribuidora de gás pela tragédia. Ele ainda acrescentou que as testemunhas já apresentadas, incluindo um eletricista que confirmou o estado da fiação, fortalecem a versão da família.
O advogado ressaltou que uma tentativa de acordo entre as partes, que poderia ter resolvido parte do processo de forma mais rápida, não foi aceita pelos representantes da empresa. A proposta exigia que o empresário assumisse formalmente a responsabilidade pelo fio que causou a morte de Arthur. O acordo não se concretizou, e o caso segue tramitando.
Especialista alerta para cuidados: “Em casos de energia, dificilmente há uma segunda chance”
Existem normas e orientações específicas tanto para empresas quanto para cidadãos comuns quando se trata de segurança elétrica.
Segundo o professor do departamento de Engenharia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Marcos Lira, placas de sinalização e outros dispositivos conectados à rede elétrica devem ser mantidos a distância de muros e postes, além de receber aterramento adequado, que direciona qualquer descarga elétrica para o solo, protegendo pessoas e animais.
Ele lembra ainda que a instalação de disjuntores diferenciais residuais, capazes de cortar a energia ao detectar choque em seres vivos, são uma forma eficaz de prevenção, embora ainda pouco utilizada.
“Se estamos falando de placas de sinalização ou outros dispositivos conectados à rede elétrica, é fundamental tomar cuidados específicos. O primeiro deles é manter essas placas afastadas de muros e postes, evitando que uma descarga elétrica, por exemplo, de um poste, faça contato com o equipamento. A segunda medida, indispensável, é o aterramento elétrico: consiste em ligar a estrutura da placa ou de qualquer outro dispositivo elétrico, diretamente ao solo, de forma que, caso haja qualquer descarga, ela seja direcionada para a terra, protegendo assim as pessoas que estiverem em contato com o equipamento”, explicou.

O professor alerta que um risco incidente em Teresina são os de fios partidos ou mal conservados no chão, situação cada vez mais comum em áreas urbanas. Para moradores e transeuntes, a recomendação é manter distância de qualquer objeto ou fio suspeito, já que é impossível para leigos diferenciar se a fiação é elétrica, telefônica ou de internet. “Com energia elétrica, dificilmente a gente tem uma segunda chance”, reforçou o professor.
“É sempre recomendado manter a distância, porque eu não sei se aquele fio é de energia, se é de telefonia, se é de internet. Para o leigo, que não sabe diferenciar, o melhor é sempre manter a distância, porque com energia elétrica, dificilmente a gente tem uma segunda chance”, avaliou.
O que diz a empresa Ultragas
A Todavia tentou contato com a empresa envolvida na situação que tirou a vida do menino Arthur, através do contato disponibilizado tanto nas redes sociais, como Google, além do direct do Instagram. Mas, até o fechamento deste texto, não obteve uma resposta. A coluna permanece aberta para um possível posicionamento.
É preciso ressaltar também que na época em que o acidente aconteceu a empresa divulgou uma nota informando que estava tomando providências para que situações como essa não se repetissem e que estava prestando apoio à família da vítima:
NOTA DE PESAR E SOLIDARIEDADE
A Revenda ULTRAGÁS, situada no bairro Santa Cruz, Teresina-PI, vem, por meio desta, expressar seu mais profundo pesar pela trágica perda de Arthur Luís, que faleceu aos 2 anos de idade em decorrência de um acidente por eletrocussão. Este é um momento de imensa dor, e nossos corações estão com a família e todos os que sofreram com essa irreparável perda.
A empresa lamenta profundamente o ocorrido e informa que está colaborando com as investigações e com todas as medidas necessárias para que o caso seja tratado com a devida responsabilidade. Estamos profundamente entristecidos por este acidente e nos solidarizamos com os pais e familiares de Arthur Luís, oferecendo nosso total apoio neste momento tão difícil.
A Revenda ULTRAGÁS reafirma seu compromisso com a segurança e bem-estar de todos, e está tomando todas as providências para que tragédias como essa não se repitam. Neste momento de dor, nossa prioridade é o apoio à família enlutada, com todo respeito e consideração.





