
“Eu não acho que mudou muito, não. É a mesma coisa”, afirmou à Todavia o pescador Marcelo Ribeiro Alves, um homem de 49 anos que trabalha no Rio Poti, no Encontro dos Rios, em Teresina, quando questionado sobre o que achava da arborização da cidade. “O que mudou mesmo são os aguapés que aumentam a cada ano, daqui para a região ali do Zoobotânico está bloqueado e a canoa não passa”, acrescentou ao pensar melhor na questão. “Atrapalha muito, porque não podemos passar para pescar por lá”, completou.
Ao falar sobre o verde da cidade, ele reflete: “Acho que Teresina tem ficado menos verde por conta da chuva, né? Tá difícil”, pontuou. Pescador desde os 15 anos, Marcelo passou a complementar a renda há dois anos, oferecendo passeios de barco pelo Poti, atividade que, segundo ele, tem rendido mais do que a própria pesca. “Tem gente que vem pra passear, eu levo para as pequenas ilhas logo ali. Já levei gente meio-dia que pediu pra eu buscar só 5h da tarde.” A alta procura, diz, é uma forma dos teresinenses fugirem do calor e aproveitarem o vento fresco do rio.
O relato de Marcelo ilustra com precisão o tema desta edição da Todavia: um assunto que, à primeira vista, pode parecer banal, mas que está no centro da vida urbana e ambiental de Teresina. A arborização (ou a falta dela) molda o clima, o cotidiano e até a economia da cidade. Para compreender melhor por que a capital do Piauí tem perdido o título de Cidade Verde, o boletim ouviu moradores, ambientalistas e gestores públicos que convivem com as mudanças no dia a dia da cidade.
A Todavia optou por iniciar a apuração conversando com um pescador, justamente porque são grupos de pessoas que sobrevivem essencialmente da natureza, além de o fato de que a vegetação às margens dos rios é protegida por lei como área de preservação permanente, garantindo a conservação do solo que mantem o rio vivo. Um termômetro natural para saber como uma cidade está cuidando do seu verde.

Teresina ganhou esse título, quando o escritor e poeta maranhense Coelho Neto visitou o Piauí e viu algo que o encantou: um conjunto de quadras vestidas de verde, da sua principal praça, a Marechal Deodoro, também conhecida como Praça da Bandeira, até os quintais de casas nos bairros. Inspirado por essa cena, ele batizou a capital piauiense de cidade verde.
Um título que rapidamente se tornou parte da identidade local. Porém, o que os teresinenses fizeram, ao longo dos anos, para preservar esse símbolo? Seria ela ainda, neste ano de 2025, o mesmo lugar descrito pelo poeta maranhense? Especialistas ouvidos concordam que não.

“Teresina vai se tornar um lugar inóspito em 40 anos”, diz coordenadora da Rede Ambiental
Para Tânia Martins, coordenadora da Rede Ambiental do Piauí, entidade que que trabalha na defesa dos recurso naturais do Piaui, a perda do título de “Cidade Verde” é o resultado de um modelo de crescimento urbano que tem substituído o verde pelo concreto e falta de planejamento para o clima da cidade. Tânia também chama atenção para as escolhas urbanísticas que têm agravado o calor na capital.
“O que se investe em Teresina é asfalto, asfalto e mais asfalto. As ruas não precisavam ter tanto asfalto assim. Uma cidade de paralelepípedos seria mais fresca, mais respirável, mas o que importa é o que rende politicamente. E o povo ainda cobra mais asfalto, porque não entende o impacto que isso tem na temperatura”, lamentou a ambientalista.

Preocupada com o futuro, a ambientalista faz um alerta. “Se continuar desse jeito, daqui a uns 40, 50 anos, Teresina vai ser um lugar inóspito. Eu não falo isso porque quero, mas porque é o que vai acontecer. O Piauí já está vivendo uma seca extrema e ninguém está conversando sobre isso. Está faltando água em boa parte dos municípios, e mesmo assim não há políticas sérias de enfrentamento ao clima. As pessoas ainda não entenderam que o futuro está escaldando diante dos nossos olhos”, frisou.
A ambientalista também ressaltou que, ao longo dos anos, as ações de arborização na capital tem sido feitas sem planejamento técnico e desrespeitam o próprio bioma piauiense. “Trazem árvores de fora, de outros países, de outros biomas, e plantam aqui mudas exóticas que não pertencem ao nosso clima. Uma árvore de fora nunca vai se adaptar como uma nativa. É um ser vivo, precisa de cuidado, de estudo e de investimento. Mas o que fazem é distribuir mudinhas de qualquer jeito, só pra constar”, denuncia.
“Nim Indiano”, ele está todo lugar, tem uma boa sombra, mas pode ser “perigoso”

Dados levantados pela Prefeitura, referentes ao ano de 2023, mostram que Teresina perde, em média, áreas verdes equivalentes a 217 campos de futebol por ano. Apesar disso, há um certo esforço para mudar essa realidade e que tem timidamente começa a ganhar destaque nas gestões, impulsionados pela agenda da COP30 no país. No entanto, o desafio é grande: o diagnóstico inicial revelou uma densidade de árvores muito abaixo do recomendado, com apenas dez espécies predominantes, entre elas o “Nim indiano” (Azadirachta indica), que ganhou a simpatia da população, seja por afastar mosquitos ou por fins estéticos e de capacidade de fazer sombra, em primeiro lugar. Outras espécies queridas pelos teresinenses são mangueiras e ipês.
“O Nim, que foi trazido para cá por ação do homem, é uma praga verde. Ele parece bonito, dá sombra, cresce rápido, mas mata o que tem em volta. É uma árvore exótica, que não pertence ao nosso ecossistema e que está substituindo as espécies nativas. A cidade está cheia de Nim, mas isso não é reflorestamento, é um erro ambiental”, avaliou.
Ela também costuma destacar que o Nim empobrece o solo e afasta insetos polinizadores, e tem sido apontado como responsável pela morte de abelhas, o que prejudica o equilíbrio da fauna local. No início deste ano, o prefeito Silvio Mendes (União Brasil), afirmou durante reunião com gestores que iria proibir o plantio da árvore na capital.

Ilhas de Calor versus Corredores Verdes em Teresina
Kalil Siqueira da Luz, engenheiro agrônomo e analista ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semam), que acompanha de perto as mudanças na temperatura da cidade, explicou à Todavia que, desde 2023 a prefeitura vem tentando entender o problema de forma científica, com a elaboração de um Plano de Ação Climática dentro da Agenda 2030. Esse plano mapeia as chamadas ilhas de calor, regiões onde o calor se acumula por falta de sombra e excesso de concreto.
Os mapas, produzidos com base em projeções até 2050 e 2070, revelam um padrão conhecido por quem vive na capital: as zonas centro, sul e sudeste são as que mais sofrem com o aumento da temperatura.
“Quando a gente cruza os dados, é possível ver claramente onde estão as zonas de maior aquecimento, que são principalmente a zona Centro, a zona Sul e a zona Sudeste”, detalha.

O analista também trabalha no conceito de “corredores verdes”, que são ligações entre praças, margens de rios e avenidas arborizadas. Esses corredores ajudam a conectar ecossistemas urbanos fragmentados, facilitam a circulação do ar e reduzem o impacto das altas temperaturas.
“Então, a gente tem trabalhado em parceria com outras áreas da gestão nessa perspectiva de ir além da criação de novas áreas verdes, apostando também na formação dos chamados corredores verdes. Esse trabalho acontece nas principais vias de Teresina, tanto nos canteiros centrais e nas calçadas, quanto na reposição de árvores em praças e nas margens dos rios Poti e Parnaíba, que são áreas de preservação permanente e fundamentais para o equilíbrio ambiental da capital”, explicou.
Meta é plantar 100 mil mudas, diz secretário
O secretário municipal de Meio Ambiente de Teresina, Bessah Filho (PP) afirmou que a gestão do prefeito Silvio Mendes tem como prioridade recuperar o título histórico de Cidade Verde.
“O prefeito é um entusiasta da arborização da cidade de Teresina e tem isso como prioridade. Mesmo a cidade estando aquém do plano de arborização, a decisão política dele é tentar recuperar esse protagonismo que nós fomos no passado de cidade derde”, declarou.

Para atingir essa meta, ele informou que há um projeto de plantar 100 mil mudas entre o fim de 2025 e o início de 2026. Tendo assumido a pasta em maio, que antecede o BR-Ó Bró, ele acrescentou que é preciso aguardar o período chuvoso para dar início a plantio. Ele explicou que o projeto será executado em parceria com o Exército e com empresas contratadas. “Existe um convênio que estamos firmando entre a Codevasf, a Secretaria de Meio Ambiente e o Exército, que tem a intenção de plantar 40 mil mudas nas áreas de preservação permanente”, completou.
O secretário ainda compartilhou com a Todavia o mapeamento feito pela secretaria e que indica os pontos prioritários que devem receber novas mudas:
Zona Leste: ao longo da Avenida Nicanor Barreto com 35 mil mudas e proximidades das margens do Rio Poti com 11 mil mudas
Zona Sudeste: áreas nos bairros São Sebastião Gurupi, Parque Poty Novo Horizonte e Comprida
Zona Norte: áreas nos bairros Vila São Francisco, Santa Maria, Mocambinho, Aroeiras, Monte Verde, Alto Alegre, Parque Brasil e Jacinta Andrade

Com a derrubada de árvores também se vai a qualidade de vida dos teresinenses
Teresina ainda é conhecida como “cidade verde”, mas hoje esse título soa mais como uma lembrança do que uma realidade. O verde que um dia marcou a paisagem e o modo de viver do teresinense vem sendo substituído, pouco a pouco, por concreto e asfalto. Até os antigos quintais, antes espaços de convivência e sombra, deram lugar ao chão cimentado.
A cada árvore que desaparece, o calor aumenta, e com ele se perde qualidade de vida. Os mais afetados são os que menos podem se proteger. As parcelas mais pobres que caminham sob o sol, dependem de um transporte público precário e não tem ar-condicionado para aliviar as altas temperaturas.
Recuperar o verde de Teresina não é uma necessidade de saúde pública. Reflorestar a cidade é garantir que suas manhãs e tardes voltem a ser agradáveis e que o título de “cidade verde”, tão caro à memória e à identidade dos teresinenses, volte a ter sentido.





