“Quando tinha vinte e poucos anos, eu não me imaginava mãe. Pensava em viajar, conhecer o mundo”, contou uma das mulheres entrevistadas pela Todavia. Com o tempo, vivencias e um relacionamento fizeram com que ela passasse a olhar para a maternidade de outra forma. Foi nesse processo que decidiu buscar o congelamento de óvulos, como uma forma de preservar possibilidades para o futuro, e por meio da fertilização in vitro, tornou-se mãe de seu primeiro filho.
Às vésperas do Dia das Mães, que acontece no próximo domingo (10), e, claro, elas merecem todas homenagens, a Todavia se desafiou a olhar para a maternidade por outros olhares e possibilidades. A entrada das mulheres no mercado de trabalho, com um ganho de autonomia cada vez maior, especialmente para as classe A e B, mudou a relação de uma parcela das mulheres com o desejo (ou não) de ser mãe. A decisão atravessa hoje questões como carreira, renda, a escolha do parceiro, acesso à saúde, liberdade individual e expectativas ainda muito fortes sobre o papel das mulheres. Nesse cenário, procedimentos como o congelamento de óvulos aparecem como uma ferramenta que pode ampliar possibilidades.

Procedimento pode custar mais de R$ 20 mil e tem anuidade
Segundo a Todavia apurou, o custo do congelamento de óvulos, em um ciclo do procedimento varia, em média, entre R$ 15 mil e R$ 20 mil. Esse valor, no entanto, não é fixo, pois depende da resposta do organismo à estimulação hormonal, da reserva ovariana e, em muitos casos, da necessidade de realizar mais de um ciclo para alcançar uma quantidade adequada de óvulos, o que pode dobrar o valor.
Uma das mães com quem o Boletim Brio conversou informou que parte da medicação necessária custou em média R$ 5 mil.
Apesar do valor inicial mais elevado, a manutenção dos óvulos congelados tende a ser mais acessível. A cobrança costuma ser anual e, em geral, fica abaixo de um salário mínimo por ano, em torno de mais de R$ 1,6 mil. Ou seja, isso significa que o maior custo está concentrado na etapa médica do processo, que envolve medicação, acompanhamento e coleta, enquanto o armazenamento representa uma despesa contínua, porém mais leve, ao longo do tempo.
Congelamento de óvulos é realidade e tem aumento de procura no Piauí
Para entender mais sobre como esse procedimento acontece, a Todavia conversou com médica ginecologista Sara Barbosa, especialista em obstetrícia com ênfase em reprodução assistida.
No Piauí, segundo a especialista, a procura pelo congelamento de óvulos vem crescendo mais nos últimos cinco anos. É um movimento impulsionado tanto pela mudança nas trajetórias e prioridades de mulheres, quanto pela acessibilidade e debate do tema nas redes sociais.
“A gente vem percebendo um aumento na procura pelo congelamento de óvulos, até uns 5 anos atrás a maioria das pacientes procuravam para fazer o tratamento de fertilização, mas acho que em decorrência da mídia está falando mais sobre preservação de fertilidade, muitas mulheres postando que estão fazendo preservação de fertilidade, a gente vem tendo principalmente uma procura crescente por congelamento de óvulos, até porque as mulheres hoje cada vez mais estão retardando a maternidade”, avaliou a médica.
A tenista brasileira Beatriz Haddad Maia, por exemplo, já falou publicamente sobre a decisão de congelar óvulos como forma de conciliar a carreira com o desejo de ser mãe no futuro. Recentemente, a atleta anunciou que optou por pausar momentaneamente as atividades para realizar o procedimento e disse que tem o sonho de ser mãe… Um dia. Atualmente, Haddad é campeã de torneios da WTA (Women’s Tennis Association), que é o principal circuito do tênis feminino mundial e foi a primeira brasileira em décadas a alcançar a semifinal de Roland Garros (2023).

Tecnologia usanda no Piauí é semelhante a do Rio e São Paulo
O procedimento envolve uma preparação hormonal prévia e uma coleta minimamente invasiva.
“É um procedimento que a gente faz com a paciente anestesiada em que depois de ela passar por mais ou menos 12 a 14 dias de estimulação hormonal a gente vai coletar esses óvulos por via transvaginal sem nenhum corte, sem nenhuma cicatriz. E é importante dizer que a gente coleta os óvulos que seriam perdidos naquele mês. A gente não diminui a reserva de óvulos da mulher. A gente só coleta o que já seria jogado fora pelo corpo no mês”, explicou.
Segundo a especialista, o procedimento já pode ser realizado integralmente no Piauí, com acesso a tecnologias semelhantes às utilizadas em grandes centros do país.
As clínicas locais contam com protocolos e padrões equiparáveis aos de estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Tem idade ideal para fazer o congelamento dos óvulos?
Embora o congelamento de óvulos possa ser feito a qualquer momento, em relação ao momento ideal, a orientação geral é que ele seja feito entre os 30 e 35 anos, período em que há melhor quantidade e qualidade dos óvulos.
“Mais tarde do que 35 a reserva dos óvulos, a quantidade e a qualidade dos óvulos caem, então, a gente sempre pede pra fazer antes de 35 anos. Mas existem algumas situações como, por exemplo, paciente que teve um diagnóstico de endometriose aos 25 anos, a gente antecipa essa orientação. Todas as doenças que podem comprometer a fertilidade, a gente antecipa mas de forma geral, entre 30 e 35 anos é uma época bem razoável”, pontuou.
Mulheres estão adiando a maternidade, tendo menos filhos e dados comprovam

A Todavia também conversou com a Hosiene Teodório, pedagoga e mestranda em Sociologia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Ao analisar o cenário, ela destacou que as estatísticas e pesquisas apontam que a mulher está deixando a maternidade para mais tarde.
Dados do IBGE indicam um crescimento consistente da maternidade após os 35 anos no Brasil. Entre 2003 e 2023, a participação de mães entre 35 e 39 anos nos nascimentos subiu de 7,2% para 13,7%, com aumento expressivo da idade média da fecundidade também.
“Há muito da questão da construção, enquanto pessoa, da consolidação, assim, quanto maior a escolarização da mulher, mais tardiamente ela tende a desejar de fato ter filhos. Não é uma regra, mas os dados demonstram, porque ela entende que precisa se qualificar enquanto pessoa para depois desempenhar o papel materno”, avaliou.

O desejo de ser mãe precisa disputar espaço com o trabalho?
A partir das entrevistas realizadas com mães e profissionais que trabalham com fertilização, a pesquisadora destacou ao Boletim Brio que o desejo de maternidade permanece, mas passa a ser negociado com exigências profissionais cada vez mais rígidas. “O mercado de trabalho espera que você seja um excelente profissional, mas ele não te dá suporte para ser uma excelente mãe, então eles te cobram a responsabilidade de que você se entregue ao trabalho, mas ao mesmo tempo ele inviabiliza a questão do maternário”, exemplificou.
Maternidade X mercado de trabalho gera sentimento de culpa em mulheres
Segundo ela, essa dinâmica cria uma distorção que impacta diretamente a forma como as mulheres se percebem em ambos os papéis. “Há sempre uma distorção que faz a gente acreditar muito na ideia de culpa. Há o pensamento `Eu não consigo ser uma boa profissional ao mesmo tempo que eu consigo ser uma boa mãe, porque essa conta não fecha`”, disse.
Segundo ela, o sentimento que atravessa muitas mulheres é o de precisar se dedicar integralmente, entregar resultados e corresponder às exigências do mercado, ao mesmo tempo em que, na prática, falta suporte, seja na rede de apoio familiar, seja no próprio ambiente de trabalho, para conciliar essas demandas com a maternidade.
Ao ser perguntada sobre alguma particularidade da maternidade no Piauí, Hosiene destacou que, geralmente, a maior rede de apoio para mulher são as mães das mães, ou seja, as avós. Segundo ela, diferente do que se observa com tanta intensidade em outras regiões do país, muitas mulheres no Nordeste conseguem estudar, trabalhar e permanecer no mercado de trabalho porque contam com o suporte de outras mulheres da família, especialmente a própria mãe, a sogra, irmãs, tias e, mas, especialmente, as avós dos filhos.
Tem como enxergar a maternidade para além do “mito do amor materno”?
Perguntada sobre os estigmas, a socióloga chamou atenção para a construção social profundamente enraizada de que toda mulher nasce com o desejo natural de ser mãe e deve, obrigatoriamente, corresponder a esse papel.
Essa expectativa, segundo ela, acaba gerando cobranças e julgamentos sobre diferentes formas de viver a maternidade, seja ela tardia, não planejada ou até mesmo ausente.
“O mito do amor materno é até o título de um livro, de uma escritora chamada Elisabeth Badinter. Ela traz essa ideia do mito da maternidade como algo que a mulher em si só ela já tem a obrigação de desenvolver e demonstrar para a sociedade esse desejo inato”, pontuou. “E aí nessa discussão ela vai mostrar que não, a gente pode construir esse desejo materno. Uma mulher pode nunca ter sonhado em ser mãe e pode se encontrar e se realizar enquanto mulher. Isso não vai inviabilizar a maternidade, seja ela uma maternidade planejada ou não planejada, uma maternidade que acontece mais cedo ou uma maternidade que acontece tardiamente”, pontuou.

O direito de decidir se, quando e como querem ser mães.
A maternidade ainda está enraizada no conceito tradicional de família e atravessada por valores religiosos. Na apuração, a Todavia soube de casos de mulheres que enfrentaram dificuldades para engravidar, mas que não quiseram recorrer à fertilização in vitro por questões envolvendo isso.
Ainda assim, esse pensamento tem mudado, seja pela maior popularização dos procedimentos clínicos, seja pelos dados que apontam uma tendência de adiamento da maternidade. Por muito tempo, ser mãe foi visto como um destino inevitável para as mulheres. Hoje, para parte delas, a maternidade passa a ocupar o campo da possibilidade e, como toda possibilidade, envolve tempo, planejamento e, muitas vezes, custos. O acesso, portanto, ainda é desigual. Os dados também mostram que, entre as classes de menor renda, a gravidez precoce e na adolescência segue como uma realidade mais frequente.
Sejam atravessadas pelo relógio biológico ou pelo relógio social, muitas mulheres estão tentando conquistar algo básico, que é o direito de decidir se, quando e como querem ser mães.



