Feminícidio e agressão às mulheres no PI: “Quando há risco à vida, o remédio amargo é o afastamento”, recomenda padre sobre separação

É de dar embrulho no estômago cada novo relato que chega de violência contra mulher ou feminicídio. Frequentes na notificação do celular, na notícia dada na TV de casa, ou de tantas outras formas que embora diferentes, fazem um eco semelhante de medo e dor no dia a dia das mulheres. Guerra é um estado de eterna vigilância, é como se vivêssemos em uma. Nas últimas semanas, o duplo assassinato de servidoras do CEFET do Rio de Janeiro, por um colega de trabalho; o caso da mulher atropelada e arrastada na Marginal Tietê, em São Paulo, numa suposta tentativa de feminicídio, chocou o país.

O estado do Piauí tem um cenário de crescimento no número de casos e passou de 28 mortes em 2023, para 40, em 2024, um aumento de 42,86%. Enraizados em processos culturais, os crimes de gênero existem e se perpetuam por equações completas. Nesta edição, o Boletim Brio tentará explicar como essa cultura é instaurada e nutrida em solo piauiense.

As configurações de uma sociedade e da cultura são intermediadas pelas instituições e a religiosidade é sem dúvidas um pilar que baliza multidões. Medir a abertura de instituições religiosas para entender como lidam com temas complexos, como as violências e o feminicídio, é uma forma de tentar entender em que passo estamos na escada dos avanços. Por sua colonização voltada à atividades econômicas como a pecuária e agricultura, o Piauí demorou a se urbanizar e a também assimilar traços culturais mais modernos e humanistas.

O papel das igrejas

Os modelos mais tradicionais de fé no país, como a Igreja Católica e as igrejas evangélicas, embora tenham amplas diferenças e ramificações múltiplas, formam um segmento mais conservador da sociedade. E o conservadorismo historicamente tem como um dos pilares de defesa, a proteção da família. O Piauí é o estado mais católico do Brasil, de acordo com o Censo 2022 do IBGE, com 77,4% da população se declarando católica. Líderes religiosos são constantemente chamados a interferirem em conflitos familiares e exercem influência dentro dos lares.

O tópico submissão feminina ao marido, por exemplo, tem vastas interpretações divergentes dentro da fé cristã. O Boletim Brio conversou com o Padre Anderson Fábio Oliveira, da Paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe, do bairro Pedro Mole, zona Leste de Teresina e questionou sobre como a Igreja atualmente orienta os fiéis quanto à manutenção das famílias.

“A Igreja tem uma palavra firme de acolhimento. Sempre se recomenda que, diante de inúmeras tentativas de reconciliação sem sucesso e, sobretudo, quando há risco à vida, o último remédio, ainda que amargo, é o afastamento. Ninguém se casa pensando na separação, mas, em muitos casos, é a única forma de preservar a vida e a dignidade da mulher. As paróquias, por meio da Pastoral Familiar, oferecem espaços de escuta tanto para casais em segunda união quanto para casais enfrentando dificuldades. Essa é uma visão equivocada [de submissão da mulher]. A mulher não é, em hipótese alguma, considerada inferior ou menos capaz”, declarou o Padre Anderson Oliveira ao Boletim Brio.

Igrejas católicas de Teresina possuem grupos voltados a casais que estão em segunda união, ou seja, aqueles que casaram na Igreja, separaram-se e constituíram um novo matrimônio. O padre também explicou a existência do Tribunal Eclesiástico, que pode anular casamentos religiosos. Em casos como casamentos forçados pela família por conta de uma gestação, dentre outros.

“A família é o santuário da vida. Cada caso tem sua resposta própria. A prevenção é sempre o melhor caminho, preparando bem os jovens para o matrimônio, especialmente numa sociedade tão líquida, onde tudo parece descartável. A Igreja não é indiferente à cruz que carregam. Cristo não é indiferente a ninguém. O caminho é buscar a paróquia e, quando necessário, o Tribunal Eclesiástico para regularizar a situação. A Igreja também é muito clara ao dizer que casais em segunda união não estão fora da Igreja. Eles são membros da comunidade e devem participar da vida eclesial, mesmo que haja algumas limitações sacramentais”, mencionou o Padre Anderson Oliveira.

“Deus não é contra o divórcio”

De acordo com o pastor evangélico, Herbert Moura, pastor sênior da Igreja Vida Church, com campus em Teresina e em Floriano, Deus é a favor da lealdade, não do casamento eterno a qualquer custo.

“Deus prega a submissão amorosa e voluntária da mulher ao esposo, não a submissão à violência, não a submissão ao abuso. Em caso de abuso, em caso de violência, o que se recomenda, a orientação, é que denuncie. A Igreja se coloca como um apoio para a pessoa que é vítima: para dar suporte, acolhimento, ajuda. Então, o que se orienta é que a pessoa denuncie o violentador, o abusador. Que busque ajuda, apoio emocional, espiritual, com a família, na Igreja. A Igreja não apoia violência”, afirmou o pastor Herbert Moura.

No entendimento da Igreja Vida Church, o casamento não deve ser mantido em quando perdem-se os valores espirituais de uma união. “E Deus, minha filha, ele não é contra o divórcio. O próprio Deus diz, em Malaquias, capítulo 2, versículo 16: ‘Pois aquele que odeia, o que aborrece a sua esposa, deve divorciá-la, diz o eterno, Deus de Israel, e não tentar cobrir a injustiça com suas vestes, diz o Deus dos Exércitos. Preservem os valores espirituais e não cometam traição’. A Bíblia diz que é melhor se divorciar do que trair. Eu sei que tem muita igreja que tem uma visão totalmente diferente, mas a visão bíblica é essa”, defendeu o líder religioso.

A raiz dos crimes de gênero no Piauí

Segundo a professora Rossana Marinho, do departamento de Sociologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a formação piauiense baseada na grande propriedade rural, na atividade pecuária, na expansão territorial marcada pela violência contra povos originários, tudo isso compõe características primárias dessa formação social. Ao longo dos anos, esses elementos se reproduzem, ganhando novas roupagens, mas mantendo certo padrão, sobretudo no modo como as mulheres são percebidas nas relações conjugais e no tratamento dado tanto a mulheres quanto a homens que não se adequam aos modelos hegemônicos.

“Há uma autora, Rita Segato, que fala sobre essa guerra contra os corpos das mulheres. É exatamente isso que vivemos no Brasil, tanto do ponto de vista histórico quanto no presente. Isso está ligado a essa cultura profunda do machismo, que se manifesta de várias maneiras e que, inclusive, permeia práticas de muitas instituições. O caso recente no Rio de Janeiro é um sintoma das violências que acontecem também em ambientes de trabalho, muitas vezes sem a visibilidade adequada, embora produzam riscos reais de letalidade. Há uma tendência de minimizar o relato da mulher, de tratá-la como exagerada ou responsável pela violência que sofre”, analisou a professora Rossana Marinho.

A socióloga relata que outras situações sociais também nos oferecem pistas importantes. Na universidade, por exemplo, quando uma mulher denuncia uma violência, ela costuma ser alvo de inúmeros julgamentos, como se estivesse tentando prejudicar a carreira do agressor. Há uma pressão moral que isola e silencia essas mulheres, somando-se à própria violência que já sofreram. Se isso acontece em um ambiente institucional, imagine a mulher que vivencia violência doméstica, que afeta sua vida inteira: suas relações familiares, a convivência com a família do agressor, os filhos, sua imagem na comunidade. Existe a vergonha, o impacto psicológico profundo e o medo do julgamento.

Instituições chegam com atraso

“A distância entre os serviços e a realidade de quem precisa deles é enorme. O que tenho percebido, estudando o tema e dialogando com instituições, é que muitas mulheres continuam tendo dificuldade de serem ouvidas. Dependendo da situação em que vivem, esse obstáculo é ainda maior. Muitas não confiam nas instituições, e romper esse muro de isolamento é extremamente difícil. As instituições também precisam questionar suas próprias práticas e realizar autocrítica. Muitas mudanças só acontecem quando são exigidas por políticas ou legislações, e não de maneira espontânea, o que faz com que cheguem com atraso”, observou Rossana Marinho.

Comparando com dados de estatísticas anteriores, hoje vivemos simultaneamente um aumento das denúncias, um aumento das resistências e um aumento das violências. É um cenário complexo e multifatorial. Mas há diferenças culturais entre os estados em um Brasil com dimensões continentais.

Quem são as mulheres mais atingidas no Piauí

“O Piauí segue o panorama nacional no contexto de perfil das vítimas, existe uma certa diversidade, no entanto, quando a gente analisa em termos de números, acabam que mulheres negras e periféricas continuam sendo as mais atingidas nesse contexto. A dinâmica dos crimes, o contexto no geral, são relações abusivas que evoluem, passando pelas diversas formas de violência até chegar à situação irreversível que é o feminicídio”, informou ao Boletim Brio, a delegada do Núcleo de Feminicídios do Piauí, Nathalia Figueiredo.

A raça e a classe social são indicadores de vulnerabilidade. Em níveis mais profundos, é importante atentar-se ao acesso às instituições, já que a estrutura do interior do estado não é a mesma da capital. A barreira econômica impõe até dificuldades de locomoção ou desafios como “com quem vai ficar os filhos”. É um indicador do desamparo, que torna esse grupo populacional mais suscetível não apenas à violência que atinge todas as classes sociais, mas a sua face mais cruel, que é o feminicídio.

“Quando a vítima cria coragem para realizar a denúncia e se pede a medida protetiva, é necessário que lhe seja dado um amparo posterior, principalmente no que tange ao acolhimento psicossocial. Podemos citar como exemplo o trabalho bem realizado na Casa da Mulher Brasileira e também nas Delegacias da Mulher, que oferecem acolhimento. Além disso, é essencial o monitoramento das medidas protetivas concedidas. Daí a importância da Patrulha Maria da Penha e da Guarda Municipal no que se refere ao acompanhamento dessas medidas deferidas pelo Poder Judiciário”, explicou Nathália Figueiredo.

No Piauí, há agora uma lei que estabelece um cadastro estadual de homens que foram condenados de forma definitiva por violência doméstica e familiar. Um mecanismo que busca inibir o crime, uma vez que pode causar prejuízos na busca por empregos. Mecanismo insuficiente diante de um problema complexo, mas um avanço em termos de atenção e criação de políticas públicas feitas pelo Estado.

Violência dentro das instituições

“Não sou do Piauí. Meu primeiro contato com essa realidade foi na universidade, para onde vim a trabalho. No cotidiano acadêmico, logo no início, vivi situações de violência que nunca havia presenciado em nenhum outro ambiente profissional. O caso recente ocorrido no Rio de Janeiro mostra que não é algo exclusivo daqui, mas na minha trajetória aquilo foi marcante. Chamou minha atenção a grosseria, o nível de desqualificação, o assédio moral intenso e até o risco potencial de violência física em um ambiente onde, teoricamente, se espera diálogo, formação crítica e relações mais respeitosas. Quando se observa violência brutal praticada por alguém com quem não se tem qualquer vínculo, isso já funciona como um alerta”, revelou a professora Rossana Marinho sobre a experiência pessoal no estado.

A lenda do Cabeça de Cuia, uma história de pescadores bastante conhecida em Teresina, é retrato das relações de poder que colocam a mulher historicamente em uma situação pormenorizada no Piauí. Em síntese, o filho mata a mãe e para quebrar uma maldição precisa devorar sete mulheres virgens e que se chamem “Maria”.

“Ao longo dos anos, fui percebendo que o espanto diante dessas expressões locais de violência é revelador das particularidades históricas e culturais do lugar. Nos estudos sobre feminicídio, observo que até mulheres em posições de poder são alvos frequentes de misoginia. Isso se agrava conforme a posição social: mulheres trabalhadoras e precarizadas morrem de formas mais brutais, mulheres negras são assassinadas com métodos extremamente violentos e marcados pela crueldade, incluindo desfiguração de corpos. Esses elementos evidenciam uma cultura social forjada historicamente, que não deve ser entendida como algo imutável, mas como algo que, justamente por ser cultural, pode ser transformado”, opinou a socióloga.

A cultura do silêncio

Em diversos lugares do Brasil, há casos de mulheres que denunciaram várias vezes e ainda assim foram assassinadas. Mas, no Piauí, 87% das vítimas de feminicídio nunca registraram uma denúncia. Um dado que não fala apenas sobre a decisão individual da mulher. Fala sobre uma estrutura social que produz silêncio e reforça mecanismos institucionais que desestimulam a denúncia.

“Os homens são consistentemente validados no que fazem, enquanto as mulheres são alvo de misoginia, especialmente aquelas expostas publicamente. Mulheres de diferentes espectros ideológicos, de direita ou de esquerda, são ridicularizadas, altamente questionadas e alvo de ataques constantes, mesmo quando ocupam posições de poder. E se isso acontece com mulheres em posições de autoridade, imagino o que enfrentam as mais vulnerabilizadas, e que forças encontram no cotidiano para resistir e sobreviver em meio a tantos imperativos necessários apenas para se manter viva”, enfatizou Rossana Marinho.

Como desmontar essa engrenagem

O feminicídio no Brasil é resultado de um mosaico complexo de fatores culturais, históricos e sociais, e cada estado carrega suas próprias feridas. No Piauí, esse cenário se agrava por uma estrutura conservadora que se retroalimenta e naturaliza relações desiguais: casamentos de fachada, em nome da tradição e da família, perpetuam equívocos e silenciam mulheres. Nas classes mais baixas, a desigualdade social intensifica a vulnerabilidade: mulheres que dependem economicamente de seus agressores, sem acesso à informação, sem apoio psicológico e presas a redes familiares frágeis acabam envoltas em uma teia de isolamento. A soma desses fatores cria um ambiente fértil para a violência, ao mesmo tempo em que as instituições, da segurança pública à assistência social,  falham na prevenção, na escuta e na validação da palavra feminina.

A formação social da mulher também desempenha um papel cruel ao reforçar a ideia de fragilidade e submissão, sustentando a chamada “síndrome da boazinha”, que faz com que muitas acreditem que só serão amadas se atenderem minuciosamente às expectativas alheias. Essa educação sentimental a torna presa fácil de homens que se apresentam como protetores, mas são agressores travestidos de cuidado. Esse padrão gera tolerância ao desrespeito, ao controle e ao abuso que evoluem para um ciclo de violência, adoecimento e, muitas vezes, morte. O Piauí precisa assumir a urgência desse debate e construir um pacto entre todas as suas instituições, inclusive as religiosas, para desmontar essa engrenagem cultural histórica.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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