“Me sentia culpado por ser gay e da igreja”: a busca e o vazio de quem tenta se encaixar

A Coluna Divã, assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, é um espaço de escuta cuidadosa e acolhimento em meio ao fluxo intenso das informações do dia a dia. Nela, conflitos familiares, impasses afetivos e questões íntimas são abordados sob a perspectiva da psicanálise, com absoluto respeito ao anonimato de quem compartilha sua vivência.

Os textos que dão vida à coluna surgem a partir das histórias enviadas pelos próprios leitores. De forma confidencial, esses relatos são transformados em reflexões que ecoam experiências comuns e ajudam a iluminar sentimentos e situações vividas por muitas pessoas.

Quem quiser participar pode enviar seu relato para contato@boletimbrio.com ou entrar em contato pelo Instagram @boletimbrio.

Relato enviado por um leitor anônimo

Nasci em uma família tradicionalmente católica e ia ao grupo de estudos da Bíblia toda quinta-feira. Fiz catecismo, crisma, participava de grupos de leitura e do coral da igreja e ia à missa todo domingo, onde eu fazia questão de comungar. Essa foi a rotina da minha vida durante parte da minha infância, mas teve uma reviravolta quando cheguei na adolescência, quando me descobri um homem gay.

No início, estava muito confuso sobre o que eu sentia e sobre a minha sexualidade, mas ao mesmo tempo eu entendia plenamente que eu gostava de homens. Eu me sentia tão culpado que fazia questão de me confessar ao padre toda semana.

Com o tempo, ter que falar sobre aquilo sempre e depois ter que pagar a minha penitência foi se tornando uma ferida, algo que me incomodava muito. E com isso eu comecei a observar as pessoas dentro da igreja. Por medo de ser julgado pelo olhar do outro, eu comecei a observar as falhas do outro.

Duas mulheres do grupo da Eucaristia que não se falavam, fofocas de que alguém tinha roubado cinquenta centavos das oferendas, uma menina que comungava todo domingo mas no sábado bebia muito álcool e ia pra festas. E o que eu achava pior, casais, homens em maioria, que eu sabia que traíam suas esposas, mas todo domingo estavam lá na fila para receber o Corpo de Cristo.

Eu me sentia muito mal porque eu sabia que todos gostavam de mim, justamente porque não sabiam da minha sexualidade. Mas eu tinha certeza de que, no momento em que soubessem, eu seria colocado na cruz. E essas mesmas pessoas que faziam coisas tão erradas abertamente não seriam nem metade criticadas como eu seria.

Por fim, decidi me afastar da igreja e acabei me afastando muito de Deus também. Eu sigo acreditando Nele, mas até hoje sinto que existe um vazio. Eu ainda não sei lidar com o que eu chamo de hipocrisia dentro da igreja e queria muito entender o que eu deveria fazer ou como eu deveria me sentir em relação à minha sexualidade, à minha religião e à minha fé.

Análise do psicanalista Lamartine Guedes: 

Caro leitor Werther, te chamarei assim por você e sua situação lembrarem o livro de Goethe, O sofrimento do jovem Werther. Vocês dois têm em comum a profunda angústia causada pelo conflito entre o indivíduo e a sociedade, conflitos causados por desejos humanos de necessária realização, mas que o social impede de acontecer por ferir o controle da machosfera. No seu caso, você desejou amar outro homem livremente; e Werther, por não poder amar uma mulher por ditames morais da época.

Assim, Werther, o patriarcalismo surge como uma entidade social, um poder, uma autoridade onde a supremacia e o controle estão nas mãos dos homens. Para este controle, o patriarca usa como instrumento de dominação o machismo e a religião para engendrar uma ordem social injusta de perseguição ao feminino e às diferenças de gênero, no seu caso, perseguição aos sujeitos homoafetivos, o chamado “terceiro sexo”.

O machismo é um instrumento ideológico no qual o homem se outorga o status de superior e sente-se no direito de mandar, controlar e ditar sobre a questão de gênero. Tudo relacionado ao feminino é considerado inferior e punido por suas “regras” morais.

Algumas religiões engrossam o coro da dominação patriarcal dos corpos e das mentes e exercem controle por meio da ideologia do pecado, que engendra nesses sujeitos medo, culpa e submissão a seus dogmas.

Foto: reprodução

No campo sexual e de gênero, Werther, o machismo precisa controlar e submeter o feminino para garantir ao homem patriarcal virilidade e perpetuação da propriedade, e é este o motivo da perseguição às mulheres e aos gays. As mulheres, por não poderem subverter a ordem constituída, e os homoafetivos, porque estes representam a possibilidade da ruptura do tecido preconceituoso de dominação machosférica. Veja: isso explica, em parte, ainda hoje, o excesso de feminicídios e mortes de pessoas LGBTQIA+ no Brasil.

Voltemos ao seu caso, Werther, e ao campo religioso. Nele, temos as igrejas de matriz abraâmica, com valores morais baseados em dogmas de fé, instrumentalizados de forma que reforçam o machismo e mantêm uma ordem social injusta, que diz que o sujeito que se relaciona com outro homem está em pecado e em estado de abominação perante Deus.

Veja bem: um Deus homem machista. Está reforçada a diferença e superioridade do homem patriarcal. Não é à toa que, no início da cultura e civilização abraâmica, quem esteve à frente de toda religião foram patriarcas, Abraão e Moisés, por exemplo.

Assim, Werther, dá para perceber o quanto complexo e pantanoso é o terreno que você e sua subjetividade gay pisam. “Naturalmente”, até hoje, a comunidade LGBTQIA+ da qual você faz parte é perseguida e tratada com diferença e exclusão. Veja: forças psicossociais entram em ação, e estas duas fontes, religião e machismo, são instrumentos de discriminação que causam preconceito e consequente perseguição às mulheres e aos homens homoafetivos.

Policeman, romance gay com Harry Styles (Foto: reprodução)

Perceba, Werther, que estamos no campo de um conflito perene, constante e antigo. Quanto mais a sociedade é arcaica e deseducada, mais esses campos alienantes, machismo e religião, crescem. É triste constatar que o crescimento desses campos no Brasil acompanha o crescimento do feminicídio e das mortes de pessoas LGBTQIA+. Dados recentes mostram que o Brasil é campeão mundial de assassinatos de pessoas LGBTQIA+ e que, em 2025, mais de quatro mulheres morreram por dia por crime de feminicídio. Veja bem: quatro por dia. Isso quer dizer que, por ano, cerca de 1.460 mulheres sofrem uma pena de morte aplicada socialmente àquelas que ousam ser potentes e enfrentar o homem machista. Desnecessário dizer que o que move essas forças é da ordem do inconsciente.

Mas, Werther, falaremos agora do lado bom da força. A sociedade ocidental desenvolveu as ciências como contraponto à desrazão e, com elas, uma ciência que lida com o inconsciente como objeto de estudo: a psicanálise. Freud, pai dessa ciência, nos aponta pistas para compreendermos a gênese desses conflitos patriarcais, oferecendo-nos uma chance de, via conhecimento, barrá-los e enfrentá-los.

No campo do machismo, a psicanálise diz que os homens se tornam machistas como forma de manter o controle social e sexual da mulher. Esse controle é bem-sucedido porque lida com um pensamento infantil que sobrevive à vida adulta: o temor da castração. O homem, pulsionalmente inseguro, sente necessidade de punir e rebaixar a mulher e o feminino por medo de se aproximar demais dela e “perder” a masculinidade. O mesmo ocorre com as diferenças de gênero, LGBTQIA+, tendo em vista que a homoafetividade é escolhida como alvo mais atacado por servir de parâmetro para definir o que é ou não um “macho”. Naturalmente, isso gera preconceito e exclusão praticados por homens mal resolvidos e alienados, os machistas.

Sigmund Freud (Foto: reprodução)

No campo da religião, temos um reforço extra da estrutura patriarcal e também um instrumento de perpetuação desse sistema, por meio de uma base moral e dogmática que diz que a mulher é inferior e deve se submeter ao homem. Lembra de Eva, que teria nascido da costela de Adão? Machado de Assis, no conto A Igreja do Diabo, expõe a hipocrisia das igrejas como discurso de alienação e instrumento de docilização e adoecimento dos corpos femininos e homoafetivos. Vale a leitura. Freud coloca também que a religião é o sintoma obsessivo da humanidade e que o religioso usa a instituição, em geral, por seu traço infantil de não dar conta sozinho de sua vida adulta, elegendo um pai imaginário que, na sua fantasia, vai ajudá-lo.

Werther, você fala da sua realidade de sujeito preso dentro do armário e do seu medo de enfrentar e assumir a sua subjetividade por medo de retaliações machistas e ou religiosas, tentando dialogar sobre a sua condição, mas não ousando falar na sua igreja que era um sujeito homoafetivo. Diante desse cenário, Werther, percebo que você buscou ajuda no lugar errado. Ainda hoje, concepções clássicas e reacionárias das religiões afirmam que a homoafetividade é pecado, doença ou desvio inconsciente.

Lembre-se: o machismo e os dogmas religiosos são criações humanas fantasiosas, com propósito manipulador de controle e subjugação. Assim, prenda-se ao que é ciência e ao que a psicanálise diz: a mulher não é inferior ao homem e você também não é inferior por conta da sua orientação sexual. Esse fato é de suma importância para a quebra das amarras estruturais do preconceito e da violência contra as pessoas LGBTQIA+ e as mulheres.

Foto: reprodução

Diferente do que dizem os machistas e algumas religiões, não são todas que são dogmáticas, a ciência diz que a homossexualidade não é doença, e sim um tipo de subjetividade e sexualidade diferente que deve ser respeitada. O Conselho Federal de Psicologia, por exemplo, confirma isso por meio de seu código de ética. A homofobia, inclusive, tornou-se no Brasil crime passível de punição jurídica.

Werther, você, diferente do Werther de Goethe, nasceu em um tempo com possibilidades de luta para que ideologias como o machismo e os dogmas religiosos caiam. Lute para se fazer visto e respeitado como sujeito de desejo e como cidadão de direito. Você tem a razão e o Estado ao seu lado. É impossível, injusto e adoecedor exigir que alguém esconda quem se é.

Mais à frente da sua carta, você me pergunta como enfrentar essa realidade conflitante. Pontuo aqui algumas assertivas que podem te ajudar a buscar um lugar ao sol:

  1. A espiritualidade não precisa estar ligada a instituições religiosas. Ela pode existir por meio de práticas humanas éticas e trocas decentes, conscientes e não alienantes, que se sobreponham a morais rígidas e errôneas através do conhecimento.
  2. Utilize os instrumentos que temos: ciência, arte, filosofia e literatura para trabalhar o espírito.
  3. Lembre-se de que o discurso religioso de culpa serve a um grupo. Busque se aproximar de pessoas que pensam de forma aberta e te aceitam como você é.
  4. Lembre-se também: o problema não está em você ser homoafetivo, mas na estrutura social conflitante que usa a repressão sexual como forma de controle das mentes frágeis. Sua sexualidade diz respeito apenas a você. Homofobia e misoginia são crimes passíveis de denúncia e criminalização.
  5. O discurso religioso é moralista e alienante. Sabemos, desde 1900, com Freud, que a homoafetividade é uma variação da sexualidade humana. A sigla LGBTQIA+ está aí para não deixar dúvidas.
Cena do filme Orações para Bobby (Foto: reprodução)

Assim, despeço-me de você torcendo para que tenha coragem de fazer o que é necessário: sair definitivamente desse armário que te adoece. Use este texto como encorajamento. Lembre-se: a homoafetividade não é doença, e as verdadeiras doenças estão nas instituições que deturpam essa realidade para fins patriarcais de dominação e manutenção da desigualdade social e de gênero.

Desejo que você entenda, de uma vez por todas, que o patriarcalismo é um sistema de docilização e alienação dos corpos, mulheres e gays, adoecendo-os para perpetuar uma elite machosférica no poder. Sabendo disso, busque sua saúde mental aproximando-se do lado bom da força social: a ciência, a cultura, a psicanálise e a educação, forças que dizem que gente nasceu para brilhar em sua diferença.

Autorize-se a ser sujeito do seu desejo e não permita que nenhum dogma alienante impeça a sua alegria de ser e de viver.

Boa sorte na sua jornada de desconstrução e luta contra os preconceitos!

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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1 comentário

  • Perfeito , não precisamos da aprovação de ninguém a não ser a nossa , todos somos filho de Deus ! QUEM DISSE Q DEUS DEU O DIREITO A ALGUÉM DE DIZER O CONTRÁRIO? ninguém precisa gostar de quem somos , porém tem q respeitar as diferenças! não sou uma mulher q sigo todas as regras e muito menos busco a perfeição, mas me orgulho do q sou e não será um padre ou um pastor q dirá se estou certa ou errada e muito menos o falatório de outros ! Viva sua vida como se sentir melhor , ame ao próximo como a ti mesmo e IGREJA, todos nós somos , não precisamos estar dentro de uma igreja física p estarmos próximo de Deus , só precisamos de FÉ

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