Assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, a Coluna Divã traz relatos reais enviados por leitores de forma anônima. O espaço se propõe a ser um ponto de escuta sensível em meio ao excesso de informações que circulam pelas telas e redes.
Com uma abordagem psicanalítica, Lamartine interpreta conflitos afetivos, dilemas familiares e questões subjetivas trazidas por quem escreve, sempre com a garantia de anonimato.
Leitores interessados em ter suas histórias analisadas na coluna podem enviar relatos para o e-mail contato@boletimbrio.com ou pela página no Instagram @boletimbrio.
Relato enviado por uma leitora anônima*
Em todos os relacionamentos que tive até hoje (tenho 36 anos), desenvolvo uma espécie de obsessão pelas ex-namoradas dos meus companheiros. Fico stalkeando e já cheguei ao cúmulo de tentar adicionar uma ex no Orkut. Gosto de acompanhar a vida delas e fico sempre me comparando. Utilizo as informações para jogar indiretas nos companheiros.
Percebi que isso se tornou um padrão, e estou tentando quebrá-lo. Faço terapia com uma psicóloga, e ela me disse que eu me sinto inferior, por isso fico seguindo as ex do meu atual e me comparando. Mas essa explicação me pareceu vaga demais.

Já tentei investigar por conta própria e ainda não consegui entender de onde vem essa obsessão. Às vezes me pego pensando na vida da ex: o que ela pensa, seus gostos, preferências, quanto ganha, se é mais bonita que eu, etc.
Teve uma época em que eu chegava a seguir amigos e familiares da ex, como forma de tentar saber mais sobre ela. Hoje não faço mais isso, mas ainda me pego, de vez em quando, pensando e me comparando.
Gostaria de ajuda para entender melhor esse comportamento, pois até agora só encontrei respostas simplistas.
Análise do psicanalista Lamartine Guedes1:
Cara Grimhilde*,
Você padece de um mal bastante comum entre as mulheres do nosso tempo: a devastação feminina. Para esclarecer isso, vou cruzar psicanálise e literatura, recorrendo ao conto da Branca de Neve, especialmente à relação simbólica entre o espelho e a madrasta, para refletir sobre a forma peculiar com que muitas mulheres se relacionam com a própria imagem corporal, desejando sentir-se belas e queridas pelos homens.
Durante o fechamento do Édipo, entre os cinco e nove anos de idade, estrutura-se, de forma inconsciente, uma lógica patriarcal de gênero. Ela gera a seguinte equação psíquica: o homem detém o falo, símbolo do poder e do valor amoroso (o pênis), enquanto a mulher é vista como aquela a quem “falta” esse objeto. O resultado é que o homem passa a se imaginar como portador de um valor a ser oferecido, e a mulher passa a se imaginar como incompleta, destinada a conquistar esse valor. O ditado popular é grosseiro, mas ilustra bem essa lógica: “amor de p* é o que fica”.
A partir disso, instala-se uma dinâmica psíquica em que o homem determina o que é ser uma mulher digna de receber amor. Ele impõe à mulher a tarefa de agradá-lo, por meio da beleza e da sedução, posicionando-a como objeto. Você assistiu ao filme Barbie? Pois bem, a mulher entra nesse jogo. Ela se monta, se molda, procura ser aquilo que desperta o desejo masculino, apostando na beleza e no carinho, tentando conquistar o seu grande amor, o seu falo, o seu pênis. E sim, tudo isso acontece no campo do inconsciente.

Esse destino psíquico, dado à mulher pelo olhar masculino, de apostar na aparência e na sedução, é pesado e muitas vezes leva à devastação. O código masculino da beleza impõe um prazo de validade: mulheres são desejadas enquanto “novinhas”, depois trocadas por outras mais jovens ou invisibilizadas quando saem dos padrões. Mulheres separadas, com mais de trinta anos, viúvas ou fora dos padrões da chamada “machosfera” tornam-se figuras quase inexistentes. Entramos aqui no território do amor narcísico, onde a mulher é desejada não pelo que é, mas por servir ao prazer alheio.
O medo constante da troca, da invisibilidade e da exclusão leva muitas mulheres à terem traços paranoicos. Daí surgem o ciúme, a inveja e a comparação. Isso revela algo estrutural: a sensação de que a outra mulher “sabe mais” como ser desejável, como ser carinhosa, como fazer o homem gemer sem dor. Surge então uma pergunta incômoda: o que ela (outra mulher) tem que eu não tenho?

Um pouco de comparação pode ser saudável. Já diz o ditado: mulher se arruma para outra mulher. Isso gera competição e performance, que já alimentaram concursos de beleza por décadas. Mas, cara Grimhilde, quando o ciúme e a inveja ganham proporções patológicas, como no caso da madrasta da Branca de Neve, e talvez no seu também, é hora de fazer uma pausa. O que há por trás dessa lógica stalkeadora?
Se analisarmos a figura da madrasta, uma das primeiras stalkeadoras da ficção, encontramos uma mulher insegura quanto ao seu destino feminino. Movida por ciúme e inveja, ela tenta eliminar a Branca de Neve. O espelho, que aqui representa o olhar masculino, revela que ela já não é mais a mais bela. A devastação se instala. Surge o desejo de apagar a rival, de matar, de destruir aquilo que ameaça seu lugar. No campo do ciúme, a madrasta queria ser a Branca de Neve. No campo da inveja, queria eliminá-la para tomar seu lugar. São dois lados da mesma moeda. É simbólico que ela desejasse o coração da Branca de neve: ela queria um troféu, uma prova de que destruiu o objeto de amor dos homens e reassumiu seu posto de rainha do desejo.

Agora, Grimhilde, reflita. O que essa história tem a ver com você e sua vontade de stalkear as ex do seu namorado? A explicação para esse impulso pode estar justamente nesse medo de perder o trono do afeto masculino. A fantasia da substituição alimenta o circuito da devastação. O desejo de saber tudo sobre a outra revela uma insegurança que te assombra, como assombrou a madrasta diante do espelho.
O motor do stalkeamento, da inveja e do ciúme feminino está na ameaça de não existir mais como objeto de desejo, de ser trocada, apagada, invisibilizada. A base de tudo é a insegurança e a baixa autoestima, alimentadas estruturalmente por essa lógica patriarcal que opõe masculino e feminino desde a infância.
Por isso, te convido a fazer diferente. A se olhar com os seus próprios olhos. A confiar em quem você é. Em vez de se ver pelo espelho da madrasta, pelo olhar masculino que dita padrões inalcançáveis, olhe-se pelo espelho feminino, aquele que reflete sua potência real. Se você está na vida do seu namorado, é porque você tem valor. Em vez de stalkear as ex dele, investigue o que dentro de você pede esse movimento. Cuide de si. Valorize suas qualidades. Apoie-se nos amigos, na família, nas pessoas que te querem bem.
Busque ser feliz não apenas por estar com um homem, mas por viver outras formas de amor. Invista na arte, na dança, na escrita, nas amizades, nas viagens. Ame coisas que não sejam apenas o falo que você acredita precisar para se sentir amada. Quebre esse circuito narcísico. Transforme sua insegurança em criação, sua dúvida em movimento.
Sem a pretensão de esgotar o tema, tracei aqui um caminho simbólico entre três mulheres: Branca de Neve, a madrasta e você, leitora. Três polos que ajudam a pensar a delicada teia da identidade feminina, com seus espelhos, suas dores e suas tentativas de pertencimento.
Espero que essas palavras te ajudem a sair do fundo desse espelho opaco.
Boa sorte.
*Nome real da Rainha Má da Branca de Neve dado à leitora anônima que enviou o relato



