Boletim 03/02/25

A colunista, que não é das mais inteligentes (mas também não é das mais burras), acha curioso o fato de uns seis ou sete políticos, incluindo gente graúda, vir perguntar para a humilde cronista se teve ou não teve um encontro do senador Ciro Nogueira (PP) com o governador Rafael Fonteles (PT) na Europa, no início de janeiro, quando ambos estavam de férias. Ora, e a colunista é quem sabe? Mas, por dever de ofício, fomos averiguar (só se fala disso no bairro Santa Maria da Codipi, em Teresina!).
Colunista em mensagem para Ciro Nogueira no Whatsapp: “Boa noite senador! Tudo bem? Três fontes me falaram que houve um encontro do senhor com o governador Rafael Fonteles (PT) na Suíça há cerca de duas semanas. Procede?”
Senador Ciro: silêncio sepulcral (detalhe: Ciro costuma responder todo mundo com áudio e/ou figurinhas. Inclusive pobres coitados como a jornalista de uma pequena plataforma de conteúdo como o Boletim Brio)
Colunista no dia seguinte: emoticon de olhinho marcando a pergunta da noite anterior.
Senador Ciro: figurinha de garotinha sorrindo.
Fica o registro de que a colunista obteve a informação de interlocutores críveis, da base também, que dizem ter falado com os próprios participantes do especulado encontro e buscou apurar, não recebendo negativa formal de Ciro (nem confirmação, é verdade). Ao leitor, como sempre e só para variar, a conclusão. Aos agregados dos citados, por gentileza, evitem matar a mensageira (só se der)!1
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Foi só 15 segundos, que exagero, meu Deus
Um deputado forte disse que ouviu de um dos participantes do “encontro nos Alpes” (palavras dele) que não teve nada de conversa profunda, análise de conjuntura e outros papos entre os dois titãs da política no Piauí e que a turma está exagerando por pura e simples falta do que fazer assim como ausência de assunto mais interessante (chamou, de leve, a colunista e os leitores de desocupados e desinformados, mas tudo bem).
“Soube, porque ouvi do próprio X (um dos participantes) que só se cumprimentaram e não foi nem 15 segundos!”, relatou o deputado, em off. Para o leitor ter noção, imagine o encontro casual de Lula e Bolsonaro… o que eles falariam em 15 segundos interessa bastante, convenhamos. Os 39 segundos do encontro entre Lula e Donald Trump que o digam!
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Pelo sim ou pelo não…
Outra coisa: se Ciro e Rafael tiverem se encontrado, por terem amigos em comum ou estarem no mesmo ambiente, qual é o problema (bolsonaristas e petistas verão vários, mas a colunista é uma iluminista e acredita na prevalência da razão)? Dois políticos de grupos opostos não podem dialogar? Pera lá! Claro que um almoço no Favorito Comidas Típicas, em Teresina, chamaria bastante a atenção e como o Boletim Brio não tem correspondente na Europa, fica o registro dos fatos que temos para o leitor ficar ciente, a mero título de curiosidade.
Caso surja alguma negativa do suposto e rápido encontro, a situação ilustra o excêntrico fato de que diversos políticos de mandato e figuras de proa da política piauiense estão com tempo livre o suficiente para combinarem um complô com o objetivo de circular notícias falsas sobre uma reunião misteriosa envolvendo os membros de seu próprio grupo político. Seria meio estranho, mas tem gente para tudo nesse mundo…

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Que Kant me perdoe
Que Emmanuel Kant perdoe a cronista por usar seu nome nesses temas comezinhos, mas não era ele quem dizia que “a paz não é um estado natural”? A lógica dos conflitos (segundo o analista de discursos francês Patrick Charaudeau) é a seguinte: 1) a principal lei do mundo natural é a da predação e da sobrevivência; 2) desde o início dos tempos, os grupos se fazem e desfazem através das guerras; 3) as leis da guerra são cruéis: vence o mais forte. Por isso, criou-se a cultura.
Todos os conflitos surgem do sentimento de insatisfação (insuficiência de poder, riqueza ou prestígio), o que leva os homens a eternamente buscar proteger seus bens ou conquistar os dos outros. O processo será sempre esse: situação de conflito > estabelecimento do equilíbrio > tentativa de regulação. Conflito> Regulação > Equilíbrio. Comentando isso só a título de contextualização mesmo…

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Se conselho fosse bom
Os bem resolvidos não querem controlar nada e nem ninguém, mas buscam incansavelmente, compreender: dão tempo para o outro falar e têm senso de escuta aguçado. Deixe o outro ser ele mesmo e observe se você combina com a energia emanada. Pessoas com dignidade não estão procurando ninguém aparecer para mudar a vida delas. Elas estão mudando a vida delas agora mesmo. Não importa o quanto você esteja certo: nunca corrija ninguém a nível pessoal. Guarde suas observações para si e se proteja dos invasivos, narcisistas que transformam a própria vida num circo, vitimistas e passivo-agressivos como se eles fossem pragas, porque realmente são.
Busque autonomia (controle suas escolhas), competência (seja capaz no que se propõe a fazer) e conexão (cercado de pessoas que te apoiam, não de gente aleatória ou sanguessugas). Lembre-se de que estar sempre cansado ou sentir uma enorme perda de energia significa que você não está no seu caminho. Viver uma vida emprestada é brutal para o eu, gerando comportamentos de compulsão e obrigação. Nunca bata numa porta que não é sua. Tudo que é seu virá com facilidade, elegância e valor. Deixe o mundo fazer o que quiser e aceite tudo com graça.
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Cifrada da Lista de Schindler
Circula na Távola Redonda Municipal uma lista pra lá de curiosa. Consta com 16 nomes que referendam o seguinte compromisso em fé pública: “Vamos marchar juntos no próximo Torneio Bienal e quem descumprir essa resolução irá renunciar ao mandato real”. Ihhh… Eles apoiam o cavaleiro Vilarus, aliás. A turma não está para brincadeira e decidiu que vai registrar tudo em cartório junto ao notário medieval.
Procurado por Deus e o mundo, o sábio rei sempre diz que a orientação dele é que 1) tem que ser consenso 2) não tem nada contra ninguém 3) a turma da confraria da estrela vermelha é meio cheia de confusão, então seria de bom tom evitar um deles na presidência da Távola Redonda Municipal (então ele tem sim algumas cositas contra algumas pessoas…). E agora, o jogo está ganho ou… nem começou?
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Foto do dia
Um político importante do PSD relatou ao boletim estar “zero preocupado” com a possibilidade de que o governador Rafael Fonteles (PT) troque seu candidato a senador na chapa de reeleição de Júlio César (deputado federal do PSD) para alguém do PT (a lista vai de Regina Sousa, ex-governadora, a Washington Bandeira, ex-secretário de Educação, passando pelo deputado federal Dr. Francisco, todos do PT). “Não muda não”, resumiu o político, que esteve com Rafael.
Já a turma das antigas do PT afirma que a situação de quase rompimento no núcleo duro do PT (caso o leitor tenha ficado em Nárnia nas últimas semanas, leia a coluna passada aqui) será resolvida no andar de cima, leia-se: uma reunião com o presidente Lula, o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias e o governador, a ser marcada. “Mas o PT nacional não vai humilhar com intervenção um governador popular como o Rafael”, analisa um petista, em reserva, sobre o que vem por aí. Há de se ter um meio termo!

Opções colhidas pela colunista de petistas que acham que é possível contemplar Wellington sem mudar a chapa majoritária: 1) colocar o ex-deputado José Santana como primeiro suplente de Júlio César e dar a ele a indicação de duas secretarias. Aí o médico Vinícius Dias, filho de Wellington, disputaria a cadeira de deputado federal pelo PT no lugar de Santana. (pessoal ligado a Santana também diz que é “chance zero” ele desistir de novo).
Tem mais: 2) Colocar Iasmin Dias, filha de Wellington na suplência de Júlio César, além de um espaço robusto para indicação (podendo ser a pasta da Saúde para o filho de Wellington, Vinícios Dias, por exemplo). Ou ainda a indicação de Vinícius como candidato a prefeito de Teresina em 2028 (tem que combinar com o deputado Fábio Novo, candidatíssimo desde já).
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A frase para pensar
“Não brigo, mas também não faço as pazes”, Hélio Garcia (1931-2016), político mineiro.
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Música da semana
O leitor está de moletom preto, um fone de ouvido e dois cachorros na coleira andando por ruas cheias de árvores que trocam as folhas, enquanto as estações passam e o vento frio contrasta com o sol forte: que tempo maluco! O que toca no fone? A elegância rebelde de “Maresia”, na voz cristalina de Adriana Calcanhotto (é um poema do grande Antônio Cícero musicado por Paulo Machado).
O leitor entende que existe uma rendição voluntária de quem viveu o suficiente para saber que os resgates são legais, mas os naufrágios também podem ser interessantes. “Não buscaria conforto / Nem juntaria dinheiro”, ah, esse marinheiro fantástico não acumula, é pura circulação, puro movimento. Receita: pegue sua cicatriz e coloque-a para bronzear. Um salve a toda a marujada!
- Quem achou exagero simplesmente não está qualificado para julgar a pele da colunista no quesito tentar escrever uma coluna de política num estado como o Piauí enquanto contempla o inevitável colapso do mundo (mas também, ninguém está obrigando a colunista, que arque com as consequências, ué!). ↩︎





