“Estrela, ela não nasce, ela brilha, sabe? É aquela coisa… Eu acho que eu já nasci assim”
Thanis Killian Silva Pereira disse isso ao conceder entrevista à Todavia, no Bar da Jéssica, no bairro Poti Velho, em Teresina, embaixo da ponte Mariano Gayoso. O local para o encontro com o boletimbrio foi escolhido por ele, onde pediu também para fazer um registro dentro de uma das canoas à beira do rio. Gravou um vídeo ali mesmo e, algum tempo depois, publicou nas redes sociais. “Gente, estou aqui embaixo da ponte, morrendo de medo, porque se o Cabeça de Cuia me pega, não sei nem correr, crazy (louco) total, ‘icrazy”, falou finalizando com um de seus bordões.

Atualmente, Thanis tem mais de 75 mil seguidores no Instagram, onde posta vídeos falando, dançando, fazendo lives, mas, especialmente, publica fotos com pessoas que encontra por Teresina. Algumas são ele quem pede para fazer e outas foram a pedido das próprias pessoas, como ele contou à apuração. Esse jeito de ser fez com ele fosse uma das primeiras figuras da capital em destaque na internet e também presente como parte do imaginário da cidade. Perguntado pela coluna, ele disse já ter nascido assim e que é uma pessoa expansiva desde criança. Lembrou de quando era um estudante e fazia questão de ser o primeiro da fila nos desfiles de Sete de Setembro e ser aquele aluno que só tirava 10 na sala de aula.
Para além do homem que é sempre visto nos shoppings ou em festas, que fala com todo mundo, Thanis Killian guarda uma história de vida com pontos alegres, como ele ressaltou várias vezes, ícone nas redes, dançarino, viajado, mas, com momentos difíceis também, como quando perdeu a mãe há dois anos ou no período em que ficou paralisado em uma cadeira de rodas.
A entrevista à Todavia onde ele contou essas histórias foi interrompida diversas vezes por abordagens feitas a ele ou por ele as pessoas. As interações de Thanis presenciadas pela coluna foram de elogios as pessoas: “Ei, psiu, você é linda”, disse a uma jovem. Em certo momento, questionou se o garçom era solteiro, recebeu a resposta de que ele era casado, exibindo a aliança, o que provocou uma gargalhada. Quando se depara com casais, ele costuma performar que está flertando com um dos parceiros para desencadear uma reação no outro.
Em uma dessas interações, um casal sentou-se na mesa ao lado. Thanis iniciou conversa com a mulher, elogiando-a e fazendo comentários bem-humorados. O marido acompanhou a interação com leveza, arrancando risadas dos três. O clima foi descontraído. Ele repetiu o que já pontuou várias vezes em sua fala: “Eu gosto de gente. Eu sei quando é carinho”, disse. Pouco depois, voltou-se para um homem de meia-idade sentado na mesa atrás. Disse que já o tinha visto “em algum lugar” e perguntou o nome dele. O homem respondeu de forma direta: se ele não sabia o nome, era porque não o conhecia. A brincadeira terminou ali. Thanis não insistiu. Virou-se novamente para a mesa da entrevista e retomou o raciocínio anterior.
A terceira situação ocorreu perto das canoas à beira do rio. Uma jovem estava pelo local quando foi elogiada por ele. “Você parece modelo”, disse. Minutos depois, a jovem retornou e contou que tinha o sonho de trabalhar como modelo. Perguntou se ele poderia ajudá-la. Thanis fez um registro com ela e publicou em seu perfil, marcando o Instagram da jovem e escrevendo que, caso alguma agência se interessasse, poderia procurá-la. A publicação alcançou 900 curtidas.
“Antigamente, eu abordava as pessoas, hoje são elas quem me abordam ‘Thanis, tira uma foto minha que quero aparecer no seu Instagram’. O teresinense gosta de novidades. Agora, no Carnaval, tenho umas 1 mil fotos para postar e não publiquei nenhuma, com pessoas e lugares. Eu não paro para postar na hora, pois quero viver o momento. “Algumas pessoas também pedem para fazer comercial, mas, não faço, só faço de quem eu gosto”, pontuou.
Os episódios ilustram dinâmicas distintas que orbitam a figura pública. Há quem entre na brincadeira, há quem imponha limites e há quem se sinta prestigiado em aparecer em seu perfil que reúne milhares de seguidores. Em todas as situações, Thanis manteve o mesmo tom expansivo, alternando humor, elogios e registro nas redes sociais.
Começou na internet no “tempo do Orkut”

A própria trajetória digital de Thanis Killian nasceu dessa relação de “amor e ódio” das pessoas com a forma como ele as aborda. Ele afirma que, apesar de já ser conhecido nas ruas pelas abordagens pelas brincadeiras, não tinha interesse em redes sociais. O cenário era o auge do Orkut, entre 2008 e 2011, quando a plataforma concentrava a maior parte dos usuários brasileiros. As comunidades, naquela época, funcionavam como fóruns públicos de afinidade, espaços em que qualquer pessoa podia criar uma página sobre um tema, uma frase ou uma experiência vivida e as outras podiam ser membros.
Foi ali que Thanis apareceu pela primeira vez na internet.
“Eu odiava rede social. Tu não tem noção. A Nicole, uma amiga minha que mora em São Luís, criou a comunidade ‘Já fui abordado pelo Thanis’ na época do Orkut. Essa comunidade tinha milhares de pessoas, setenta e poucas mil pessoas. Nem eu que tinha entrado na internet nessa época. Depois elas criaram outras comunidades: ‘Eu conheço o Thanis Killian’, ‘Nós amamos o Thanis Killian’, até a ‘Eu não gosto do Thanis Killian’ teve. Tem quem gosta e quem que não gosta, eu gosto. Então, eu vi como se estivesse fazendo sucesso. Ninguém agrada todo mundo. Nem Jesus Cristo agradou, não vou agradar também”, explicou.
Ele afirma que, naquele momento, sequer sabia operar a plataforma e que o perfil foi feito com ajuda de um conhecido. Depois ele fez um curso de técnico em informática para navegar melhor.
Antes das redes, foi vendedor no Centro de Teresina. Trabalhou em lojas de roupa, sapato, ótica. Foi office boy, telefonista, auxiliar administrativo, chegou a estudar o curso de Radiologia. Anunciava promoções na porta das lojas, com microfone na mão, onde demonstrou de forma brincalhona como sabe narrar à coluna.

Dançou em 19 bandas, segundo conta. Viajou pelo Piauí, Maranhão, Ceará. Diz ter feito 69 shows em Salvador, número que repete com orgulho. Salvador, aliás, é o lugar onde se sentiu mais livre. Ele gosta de gente. Repete isso como um mantra próprio.
“Ela cuidou da minha vida toda. Depois eu cuidei da dela”
Criado pelos avós, a relação de Thanis Killian com a Dona Maria José, é o eixo central da história que ele conta sobre si. Ele a mãe e afirma ser a sua amiga e pessoa em quem ele mais confiava. Ele afirma que teve uma boa infância, cresceu na casa deles, numa família numerosa, cheia de irmãos, primos e tios. Dos pais biológicos, fala pouco e com certo distanciamento. A casa era cheia, mas, com o passar dos anos, os familiares se casaram, mudaram-se. O avô, um servidor público, faleceu vítima de um acidente na Avenida Maranhã, e restaram ele e a avó na casa no bairro Real Copagre na zona Norte.
Em 2024, ela faleceu, com mais de 80 anos, após lutar contra diabetes. Nesse processo, perdeu uma perna, um pé e um olho. Thanis Killian contou que, nessa época, se afastou do serviço que tinha no setor administrativo da Secretaria de Justiça para cuidar dela. Desde então, ele disse estar desempregado e que mantem as contas da casa, como água e luz, com as publicidades que faz em seu perfil no Instagram. Em alguns momentos, ele fez postagens na própria rede social onde pedia ajuda com cestas básicas.

Ao falar sobre esse período da vida para a Todavia, ele explicou que o cuidado com a avó e mãe de coração, foi um gesto de gratidão, pois antes de cuidar dela, foi cuidado. Ao mencionar essa história seus olhos se enchem de lágrimas.
Ele relatou que, ainda na casa do 20 anos, no começo dos anos 2000, passou por um período crítico de saúde que o deixou dois anos entre a cadeira de rodas e a reabilitação, após a aplicação errada de uma injeção na coluna, antes de uma cirurgia.
“Passei seis meses sem caminhar, sem falar. Eu pensei que nunca mais ia andar na vida”, contou. “Quando eu acordava lá em casa, meu quarto estava cheio de vela. Era vela pra todo lado [porque eu não me mexia e pensavam que eu tinha morrido]. Eu passei dois anos assim, porque eu passei um ano na cadeira de roda direto, um ano e seis meses. Quando eu comecei a andar, eu tinha medo, tinha medo de cair, tinha medo de sair na porta. Aí eu fui até o final da terapia, fui até o final dos dois anos. Hoje eu faço tudo. Graças a Deus. Deus é fiel. Jesus Cristo nunca falha. Confia em Deus. Se confiar em você, vai se quebrar todo. A gente é falho, a gente é ser humano”, disse.
Thanis ressaltou como pessoas e relacionamentos se afastaram dele nessa época, e que durante esse período, foi Dona Maria José quem esteve ao lado dele. Ele não descreve em detalhes práticos, mas deixa claro o papel central dela naquele momento. A recuperação, segundo ele, veio com tratamento e fé: “Graças a Deus. Deus é fiel. Jesus Cristo nunca falha.”
Anos depois, a situação se inverteu.
Passou a administrar medicação, alimentação e consultas médicas. Conta que precisou intervir quando percebeu que ela não estava seguindo corretamente o tratamento. Ele descreveu que controlava a dieta, evitava que ela consumisse alimentos inadequados e reorganizou a própria vida em função dos cuidados.
A morte de Dona Maria José ocorreu há dois anos. Ao mencionar o tema, ele se interrompe. “Vamos falar de coisas boas, não vamos falar de coisas tristes. Antes eu vou começar a chorar”, diz e completa: “Eu sou muito emotivo e sou muito chorão”, pontuou.
A história da avó aparece, ao longo da entrevista, como explicação para decisões profissionais interrompidas, para a fé que menciona e para a forma como encara relações humanas.
Se a internet o transformou em personagem público, foi dentro de casa que ele construiu a identidade que reivindica. Ao finalizar o assunto, ele diz uma frase que parece resumir a relação: “Ela cuidou da minha vida toda. Depois eu cuidei da dela”.
De onde vieram o “Icrazy e selvagem”?
Segundo relato de Thanis Killian, o bordão que hoje aparece nos vídeos e também no “@” do Instagram “Icrazy selvagem”, nasceu em um momento pessoal, entre os “altos e baixos” que ele descreve ao longo da trajetória.
Ele contou que, em um desses períodos, gravou um vídeo falando consigo mesmo, como uma espécie de autoencorajamento. Na gravação, dizia: “você não pode ficar assim. Você é crazy selvagem, I crazy”. Pouco tempo depois, o vídeo começou a repercutir dentro da própria rede. A expressão passou a ser repetida por seguidores, e ele decidiu adotá-la como marca pessoal. A frase virou um lembrete de manter o estado que considera sua essência: intensidade e uma postura alegre, mesmo que “fora do padrão”.
“As pessoas dizem que sou isso ou aquilo, mas, eu sou alegre, as pessoas me conhecem pela alegria, meu jeito é esse. Quando fico dentro de casa fico doente, só deitado, por isso gosto de ter contato. Tudo passa tão rápido, a gente tem que viver”, destacou.
Fotos com todos, de Lula a Xuxa!
No próximo tópico da entrevista, a Todavia perguntou a Thanis se tinha alguém que ele admirava ou que se inspirava, ele pensou um pouco e mencionou a Xuxa, apresentadora e autointitulada rainha dos baixinhos e mencionou também ter uma foto com o presidente Lula.
Segundo pontuou, Xuxa representa para ele um exemplo de artista que construiu uma marca forte sem abrir mão da espontaneidade, característica que ele afirma buscar também em sua atuação nas ruas e nas redes. Segundo ele próprio relatou, Thanis Killian assistiu a 32 shows da cantora e apresentadora.
Já a fotografia ao lado de Lula, segundo contou, foi resultado de uma abordagem direta, no estilo que se tornou sua marca. Ele descreve que aproveitou a oportunidade de estar próximo ao então líder político, burlou a segurança, aproximou-se e pediu o registro.

Ao falar sobre seus gostos e preferências, Thanis Killian não hesita em destacar aquilo que rejeita, especialmente no que se refere às drogas: “Eu não tolero”, disse.
Prisão e acusação de importunação em shopping
Agora, dezembro de 2025, um outro episódio ficou marcado na vida do influenciador. Ele foi preso em flagrante no Teresina Shopping, sob a acusação de importunação sexual contra uma funcionária de 21 anos de idade. Segundo relatos policiais, a ela relatou que ele a teria tocado sem consentimento, nas nádegas, e tentado forçar um beijo durante o expediente. A Polícia Militar foi acionada e Thanis foi conduzido à Central de Flagrantes de Teresina, onde o caso foi formalizado pela Polícia Civil.
Após a prisão em flagrante, a Justiça converteu a detenção em prisão preventiva, e ele chegou a ser transferido para a Penitenciária Irmão Guido enquanto aguardava a tramitação do processo e as medidas judiciais apresentadas pela defesa. Em janeiro de 2026, o pedido de revogação da prisão preventiva da defesa foi acolhido, e a Justiça determinou a liberação dele sob certas condições, encerrando o período de custódia que durou cerca de onze dias. Questionado sobre a situação Thanis Killian informou que não gostaria de comentar sobre o assunto, pontuando que preferia falar sobre coisas alegres.
Nas redes sociais, após ser solto, ele fez um vídeo dizendo que não desejava a cadeia nem para o pior inimigo e que nunca imaginou que seria preso um dia. “É um lugar depressivo, onde você vê o que quer e o que não quer”, pontuou.
O episódio provocou forte repercussão nas redes sociais de Teresina. Parte do público argumentou que, independentemente do tom de humor que marca sua atuação, existem limites que não podem ser ultrapassados, sobretudo quando envolvem consentimento. Outra parcela de apoiadores sustentou que suas abordagens sempre foram interpretadas como brincadeiras e que não haveria intenção de causar constrangimento.
É nesse emaranhado de histórias, pessoais, públicas, celebradas ou criticadas, que se forma o retrato de alguém que, por mais controverso que seja, não passa despercebido, e que continua a ser parte do dia a dia de Teresina.





