No Instagram, ela reúne mais de 70 mil seguidores interessados em seus conteúdos sobre a família. Em casa, cuida de sete filhos. É confeiteira, viúva, católica assídua e mulher. Muitas tarefas, mas ao atender o telefone durante a entrevista ao Boletim Brio, junto com a história compartilhada, havia também uma casa em silêncio e uma aparente tranquilidade transmitida na voz da piauiense Renata Rian, 36 anos. Em 2025, o Brasil registrou o menor número de nascimento dos últimos 50 anos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Na semana da mulher, a coluna conta a trajetória de uma mulher que vai na contramão dos tempos atuais, sendo mãe de sete filhos por escolha e “uma pessoa muito feliz”.

Filha única de mãe solteira, Renata cresceu sentindo a ausência de uma família numerosa. Realidade que, sempre soube, não queria que fosse a mesma de seus filhos. “Eu sou filha única de mãe solteira, primeira neta e primeira sobrinha. Então, eu meio que cresci sozinha. E eu sempre pensei: quando eu for gente grande, eu vou querer ter uma família grande. Porque eu quero, eu quero ter gente perto de mim”, revela.
Nas redes sociais, Renata tem conquistado atenção entre os internautas com vídeos de conteúdo cristão e registros da sua rotina. Em suas publicações, ela compartilha orientações sobre como levar crianças à missa, além de mostrar momentos do dia a dia em família. Os conteúdos também incluem bastidores do seu trabalho como confeiteira, com a produção de bolos e doces que fazem parte da sua atividade profissional.
Depois que se casou, ela e o marido passaram a fazer planos incluindo pelo menos cinco filhos. “Desde quando a gente se conheceu, a gente já falava em cinco filhos, que seriam três primeiros homens e depois duas moças. Deus foi tão bom que nos mandou meninas em dobro e veio exatamente assim. E os meninos já tinham nome: era o Joaquim, o Vicente e o Mathias. As meninas a gente foi trocando os nomes, mas a princípio foram os três homens e veio exatamente na ordem, que a gente tinha escolhido”, narra Renata Rian.
A morte do marido
A vida seguia seu curso, com Renata e o marido dedicados à criação dos filhos. No entanto, 2023 trouxe para a família a dor da perda.
“Em 2023, ele [o marido] tem um AVC. E eu estava recém-parida da minha sétima filha. Eu sou formada em Direito, mas eu nunca tive aptidão nenhuma para a área, apesar do meu marido ser advogado. E aí eu, enfim, me dediquei aos bolos. Comecei com os bolos lá em 2016, ou seja, há 10 anos. Isso nos ajudou muito em tudo. E eu não tinha mais opção, porque uma vez que ele sustentava tudo e eu fazia um complemento, exceto daquela primeira vez que ele perdeu dois dos três empregos e o meu trabalho era o que estava suprindo a casa. Então, eu tive que me virar. E, graças a Deus, eu tive muita ajuda. Ajuda da minha mãe, de funcionários, ajuda de amigas. E até as coisas se organizarem, foi um pouco difícil, mas foi possível”, relembrou a mãe.

Hoje, Renata vive exclusivamente da confeitaria, com um espaço dedicado à produção e a flexibilidade de estar perto dos filhos. “E hoje eu vivo exclusivamente da confeitaria. Eu consegui voltar com os bolos 100%. Vivo exclusivamente da confeitaria. Estou numa casa onde o espaço é maravilhoso, tenho mais de 30 m² climatizados só para a parte da produção. E isso é bom porque enquanto eu estou trabalhando, eu também estou cuidando das crianças. Deus me deu essa possibilidade de poder estar em casa, fazer o que eu sei fazer, o que eu gosto, enquanto estou cuidando deles”, relata.
“Minha vida não é só criança e bolo”
Conciliar os múltiplos papéis de mãe, empreendedora e mulher é um desafio constante, mas Renata busca o equilíbrio sem culpa.
“Nem tudo sai 100% o dia inteiro. Alguma coisa fica ali para ser ajustada. Então, se hoje eu acho que não fui bem na tarefa com o meu filho, mas fui 100% na fábrica, amanhã eu vou dar um gás melhor nas tarefas e vou delegar um pouco mais as coisas na fábrica. E assim a gente vai dando conta. Não é só criança e bolo. Tem a Renata como pessoa. E a Renata que vai à missa diária, tem a Renata que tem o seu momento de oração, tem a Renata que tem que ter um tempo para ir no salão, ter um autocuidado. Então, assim, são muitas coisas e a gente vai conseguindo equilibrar durante a semana, sem estar se cobrando, sem estar se julgando, sem estar olhando muito a vida do outro e estar observando mais a nossa realidade, vivendo a nossa realidade, amando a nossa realidade e dando o melhor, porque a gente sempre sabe onde a gente pode dar melhor”, explicou Renata Rian.
Lidando com as críticas
Em uma sociedade onde ter muitos filhos pode gerar questionamentos, Renata lida com as críticas com serenidade e convicção.
“Eu sei que na maioria das vezes as pessoas acham uma loucura ter sete filhos. Escutei muito. ‘Para que ter esse tanto de filho? Olha aí, viu? Agora ela tem que se virar com esse tanto de filhos’. Sim. Eu teria que me virar com um filho, com dois, com três. Mas, graças a Deus, eu tenho sete motivos. É problema da pessoa, do olhar da pessoa, da visão da pessoa e não meu. Eu sou muito feliz, muito satisfeita. Eu costumo dizer que se eu soubesse que eu ficaria viúva em 12 anos de matrimônio, eu teria tido 12 filhos. Porque eles, cada um deles, é um pedaço incrivelmente maravilhoso do meu marido. E eu posso contemplar isso. Eu tenho hoje sete motivos a mais para viver, para lutar, para sorrir, para vencer, do que outras pessoas”, declara.

Qual mensagem a Renata pode deixar para as mulheres?
“Eu acho que é não se importar com as críticas, olhar sempre para o bom, para o belo, para o verdadeiro e aquilo que eu consigo contemplar todo dia, aqui na minha casa, que é o amor e o cuidado de Deus através da vida dos meus filhos. Que Deus sabe de todas as coisas. Ele sabe exatamente o que a gente precisa, primeiro para a honra e glória dele e segundo para a salvação da nossa alma. Que tudo, apesar de mais difícil que a gente possa passar, é o cuidado e é o amor de Deus nas nossas vidas”, declarou Renata Rian.
Maternidade, culpa e os atemporais juízes da vida alheia
A maternidade é um campo de críticas intensas, historicamente. Além da culpa autoimposta pelas mães, que crescem numa sociedade que alimenta uma narrativa de “onipotência” materna, sempre há o olhar dos outros, a opinião dos outros, os julgamentos declarados, ou disfarçados de cuidado.
Em entrevista ao Boletim Brio, a socióloga Ianne Macedo, Doutora em Ciências Sociais pesquisando sobre maternidade, analisa as mudanças culturais e econômicas que envolvem a escolha por famílias numerosas e os desafios impostos às mulheres no Brasil. Para ela, a sociedade opera em uma lógica de julgamento que oscila entre a cobrança da função biológica e a punição pelas escolhas individuais.
“A sociedade, ao mesmo tempo que ela cobra dessa mulher a vivência da maternidade, ela também julga muito, ela também crucifica muito essas escolhas a partir da quantidade dos filhos. Ao passo que essa mãe tem que ser dona de casa, ela também tem que ser produtiva, ela também tem que, de alguma forma, contribuir com a sociedade. Então muitas vezes ela tem que se adaptar, ela tem que se recriar profissionalmente para poder dar conta da demanda social, das suas ambições pessoais e profissionais em torno da maternidade”, explanou Ianne Macedo.

O caso Sarah Menezes e onde estão as políticas de amparo às mães?
A socióloga aponta que a pressão sobre a mulher não se limita ao cuidado, mas estende-se à produtividade econômica, muitas vezes sem o suporte necessário para conciliar as esferas. Ianne critica a falta de estratégias sociais para amparar as mães.
“Eu vejo como sendo um campo de bastante discussão em que a sociedade é muito contraditória. Ao passo que ela exige essa maternidade como parte da função biológica do ser mulher, ela também não cria estratégia para a vivência dessa maternidade. E aí a gente tem mulheres que, por exemplo, como foi o caso da Sara Menezes, são demitidas logo após a licença-maternidade. Se ela escolhe ter filhos próximos, ela também é alvo de críticas no sentido de piadinhas pejorativas: ‘Ah, você gostou de parir, gostou de ter menino’. São várias falas que mostram a misoginia e o preconceito, que mostram a diminuição e a redução da mulher por ter escolhido ser mãe”, relatou Ianne Macedo ao Boletim Brio.
Essa pressão, segundo a socióloga, gera sofrimento tanto para quem tem muitos filhos quanto para as “tentantes” ou aquelas que não conseguem engravidar. Para o futuro, Ianne defende que a solução não é suficiente se pensada apenas em casos específicos, mas deve passar por ações estatais e mudanças na cultura.
“Precisamos do amparo de uma rede de apoio oferecida pelo Estado: creches, casas de cuidado, auxílios também para aquelas mães estudantes, as mães que têm filhos dentro da universidade quando estão ali ainda na construção da sua carreira. A gente precisa também de incentivos dentro das próprias empresas, e eu acho que isso só vem através de ações estatais em que possam criar ambientes também confortáveis emocionalmente, em termos de relações interpessoais, para que essa mãe tenha um suporte diante das necessidades que a vida materna exige”, defendeu a socióloga.
Podemos falar de avanços?
Ianne Macedo reconhece conquistas históricas, mas alerta para o ressurgimento de discursos que tentam limitar a existência da mulher à função maternal, além da importância de se fazer o recorte de classe e raça.
“A gente tem avanços ao longo do tempo, muitos avanços, possibilidades, o próprio uso do método anticoncepcional, a revolução que a gente tem do uso da pílula lá na década de 60. No entanto, a gente percebe que, com o aumento também do conservadorismo tencionado pela perspectiva cristã que a gente tem no Brasil, encabeçado pelo discurso político, a gente também tem um retorno de discursos que acabam limitando essa mulher e destinando-a às suas funções mais conservadoras, mais arcaicas, daquela mulher ‘recatada e do lar’. O que não é um problema se isso for uma escolha da mulher; o problema é a cobrança.
A gente também precisa direcionar o olhar para que grupo social a gente está falando. Se a gente está falando de uma mulher de classe média, branca, com poder aquisitivo, ela tem mais possibilidade de escolha, ela tem mais consciência sobre o seu papel, sobre as suas funções sociais. Diferente, por exemplo, de uma mulher de baixa renda, preta, que vem de uma estrutura familiar desfavorecida economicamente, em que tem outros marcadores que vão pesar mais na condição de vida delas”, concluiu a socióloga.
E nós com isso?
Não podemos falar de maternidade plena, sem antes dar à mulher o poder de escolha e as condições para que essa escolha seja vivida com dignidade. Escolher ser mãe ou não, escolher quantos filhos ter, escolher como conduzir a própria vida.
Renata escolheu a maternidade como parte central da sua vida e se realiza nesse papel. Mas, nenhuma mulher é feliz quando vive sob sobrecarga absoluta. A presença de uma rede de apoio, de pessoas que caminham junto e ajudam a dividir responsabilidades, faz diferença. É isso que torna possível que a maternidade, mesmo com muitos desafios, seja vivida com leveza e sentido.
Durante muito tempo, histórias de mulheres com muitos filhos foram associadas a cansaço, renúncia ou amargura, muitas vezes porque não foram fruto de uma escolha. A experiência de Renata aponta para outro lugar: o de uma maternidade desejada, consciente, construída com fé, trabalho e apoio. E, ao mesmo tempo, também nos lembra que muitas mulheres não contam com as mesmas condições e por isso cada história precisa ser olhada com respeito e contexto.
Mesmo atravessando perdas profundas, como a morte do marido, a trajetória de Renata não se constrói a partir da vitimização. As dificuldades existem, como existem na vida de qualquer pessoa, mas elas não ocupam mais espaço do que a disposição para uma vida feliz. É essa a reflexão que a coluna Ápice quis compartilhar nesta Semana da Mulher: pensar a maternidade a partir da liberdade, das condições e das escolhas de cada mulher e reconhecer a beleza que existe quando alguém consegue viver, com coerência interna, a vida que escolheu.



