A Coluna Divã, apresentada pelo psicanalista Lamartine Guedes, oferece um espaço de escuta atenta e acolhedora em meio à correria das notícias e do cotidiano. Nesse ambiente, conflitos familiares, impasses afetivos e questões pessoais são refletidos sob a perspectiva da psicanálise, sempre com absoluto cuidado na preservação da identidade de quem compartilha sua história.
Os textos publicados têm origem nos relatos enviados pelos próprios leitores. De forma confidencial, essas experiências são transformadas em análises que dialogam com vivências comuns, contribuindo para a compreensão de sentimentos e situações que fazem parte da vida de muitas pessoas.
Para participar, você pode enviar seu relato para contato@boletimbrio.com ou entrar em contato pelo Instagram @boletimbrio.
Relato enviado por uma leitora anônima
Eu preciso falar sobre uma coisa que me causa muita culpa e vergonha. Sou mãe, minha filha tem 14 anos, e eu percebo que, desde que ela nasceu, eu nunca consegui sentir por ela o amor que eu imaginava que uma mãe deveria sentir.
Durante muito tempo, achei que isso fosse passar, que com o tempo eu iria me apegar, me conectar, mas isso não aconteceu.
Eu cuido dela, cumpro minhas responsabilidades, estou presente no que precisa ser feito, mas dentro de mim existe um vazio emocional muito grande em relação a ela. Isso me angustia, porque eu sei o quanto isso foge do que se espera de uma mãe, e eu me sinto errada por isso. Às vezes me pergunto se há algo de errado comigo, se isso tem relação com a minha história, com a forma como vivi a maternidade ou com coisas que eu nunca consegui elaborar.

O mais difícil é carregar isso sozinha, sem conseguir falar abertamente por medo de ser julgada. Eu não queria sentir assim. O que pode haver de errado comigo?
Análise do psicanalista Lamartine Guedes:
Cara leitora, é perceptível o quanto você está tocada com a sua situação e o quanto você nos toca com o seu depoimento duro e sincero. Você traz a temática do amor materno/paterno, muito produzido pela sociedade (grande Outro/cultura), para impor uma naturalidade quase institucional (biológica) ao amor dos pais, o que é uma falácia. Esse mito serve para docilização e controle do corpo da mulher pelo patriarcado.
Mãe sincera, te chamarei assim em homenagem à sua coragem. Você lembra a história do filme “Priscila, a Rainha do Deserto” e sua música de abertura, que segue como tema para o personagem central (Mitsi), uma drag queen que teve uma família e um filho que nunca conseguiu amar nos moldes tradicionais.
O personagem Mitsi, diferente de você, parte em busca de liberdade e questiona os valores tradicionais versus os valores capitais que o “mundo livre” defende. No caso, o personagem não se via numa família tradicional, dessas que o mundo heteronormativo quer normalizar à força.
A música tema da personagem (“Eu nunca estive comigo mesma…”) é cantada de uma mãe para outra, num diálogo que poderia ser com você, e diz assim: “Ei, moça, você, moça! Maldizendo sua vida! Você é uma mãe descontente e uma esposa disciplinada… Eu não tenho dúvida de que você sonha com coisas que você nunca fará” (liberdade).
Chocante, né, mãe sincera? Mas a maternidade, segundo a música e a vida real, em muitos casos, quando a mulher não está trabalhada para ser mãe, leva essa mulher a uma “prisão” de cuidar de um bebê e, mais, mostra que esse destino do feminino não é herdado, e sim construído.
Ser mãe e amar um filho é uma construção em relação e depende de alguns fatores. Da mesma forma que não se nasce mulher, torna-se mulher; também não se nasce mãe: torna-se mãe.

Mas, então, o que o seu caso clínico, o filme Priscila e a música de título forte (“Eu nunca estive comigo…”) dizem é que uma mãe que é obrigada a ser mãe, por necessidade ou por alienação, sem o desejo de ser mãe, se coloca numa prisão, ou em um inferno: o inferno do dever.
Sim, existe inferno maior do que o sentimento de culpa por estar devendo algo a alguém? No caso, aqui, dever a si mesma, por concordar em se colocar nessa posição e, em segundo lugar, dever à sua filha o amor que ela merecia, mas que você é incapaz de lhe ofertar.
Assim, estamos no mundo das mulheres que não nasceram para ser mãe, por não possuírem vocação e não terem condições históricas, subjetivas ou psicossociais para tal. Lembra do ditado popular: “ser mãe é padecer no paraíso”?
A psicanálise fala que uma mãe, para poder amar um filho, precisa amar um pai, respeitando a lei do desejo, cortando a simbiose narcísica com o filho/a, permitindo, por amor, que o filho seja autônomo e que ela, mãe, possa amar e ser amada em outras esferas. Esse conceito torna-se central para discutir o seu caso e, para não te confundir, é melhor explicá-lo um pouco mais. Assim, mãe sincera, o que a psicanálise está dizendo é que ser mãe e amar um filho passa por reunir certas condições que estão inconscientemente interligadas, como:
Ter vocação para ser mãe é algo relacionado ao desejo. Nem toda mulher deseja ser mãe e ter um filho. No mundo de hoje, principalmente, esse desejo está sendo radicalmente desconstruído e, para ser autêntico (não influenciado), terá que ser dito, uma a uma, pela própria mulher. As condições psicossociais podem não ser favoráveis: a mulher teve uma gravidez inesperada, não planejada; o marido sumiu, abandonou, dentre outros fatores que favorecem que o filho seja alvo de desamor por parte da mãe. O principal fator, que tem ligação com os dois fatores acima, é o amor autêntico pelo parceiro. Aqui reside o centro da questão: o filho que vinga é fruto de amor e cumplicidade verdadeiros entre um pai e uma mãe. Esse amor à lei, ao pai, implica na liberação da simbiose do filho/a com a mãe, que permite que a filha, no seu caso, possa ser livre para fazer suas próprias escolhas e para ter seus próprios desejos.

Françoise Dolto, psicanalista francesa de crianças, fala que o filho que vinga é resultado de um amor verdadeiro, e não fruto de um amor de verão. E, como esse amor verdadeiro nem sempre está em jogo nos relacionamentos, podemos deduzir que nem todo filho vinga, pois nem todo amor vingará. Vivemos em um mundo de desencontros e convenções morais e sociais, e os filhos muitas vezes vêm ao mundo para cumprir uma tabela, garantindo aos pais o cumprimento de obrigações sociais e, por outro lado, o inferno do dever: dever amor.
Dolto continua a afirmar que um filho é um presente que a mulher oferece ao seu marido, por reconhecimento de que está vivendo um grande amor. Esse amor só acontece caso a mãe esteja livre, bem resolvida com seu narcisismo ferido, disposta a amar outra coisa (o pai/a vida), separando-se da relação simbiótica e adoecedora com a filha.
Aqui estamos no ponto central da clínica psicanalítica edipiana sobre os lugares dispostos na formação subjetiva da mãe, do pai e da filha: o lugar da construção da filha como objeto de desejo da mãe.

A filha torna a mãe tão poderosa (fálica) quanto o pai diante da sociedade (grande Outro); essa filha vem para obturar a falta da mãe. A mãe é o primeiro espelho da filha e, para que a filha não fique presa ao narcisismo materno, para que o espelho não se quebre, é necessário que haja o amor da mãe pelo pai, amor à lei do desejo. Esse amor a outra coisa que não a filha a libera para ser sujeito separado da mãe, capaz de trilhar seu próprio caminho e fazer suas próprias escolhas amorosas.
Assim, mãe sincera, no seu caso clínico, o que se desenvolve é a construção do seu desamor à sua filha. Ouso dizer que você não teve condições inconscientes de se posicionar de forma satisfatória diante da sua própria falta, em relação com sua mãe, assumindo uma postura amarga e um papel de vítima. O narcisismo de vocês (avó, mãe e filha) está negativado, e você acabou, inconscientemente, projetando em sua filha partes ruins e não aceitas de si mesma, transformando-a num depósito de lixo, onde coloca as suas frustrações, não oferecendo à sua filha uma alternativa ao vazio de ser mulher além da maternidade e do sofrimento.
O espelho que você mostra à sua filha é quebrado, uma vez que você não vê nela um novo ser, mas sim uma extensão do seu ser fracassado, uma reedição de você mesma, uma repetição, um resto de uma história mal resolvida entre você e sua mãe.
Aqui, o seu “fracasso”, enquanto mãe, é o de não conseguir se castrar e amar sua filha a ponto de transmitir para ela a força simbólica de separação do seu desejo, a força simbólica de desejar para além da dor de ser mãe.

Assim, mãe sincera, posso fechar essa discussão deixando este significante: para amar um filho, é preciso que pai e mãe se amem. Desse significante, muitas coisas se deduzem.
Voltando ao início do seu caso clínico, o personagem do filme, Mitsi, parte para uma viagem de autodescoberta e percebe que a liberdade tão sonhada é uma fantasia vazia.
Em um mundo complexo, ninguém é livre de verdade, e o tal paraíso prometido pela mídia (viagens, glamour e rock and roll) não compensa verdadeiramente a delícia de ser e viver o seu ser amoroso.
A música fala, então, que o verdadeiro paraíso está dentro de você; encontra-se na possibilidade de se ressignificar e amar o outro, se doar, sublimar amorosamente por meio de um relacionamento maduro e autêntico. A tradução da letra fala por si só: “Você sabe qual é a verdade? Às vezes, você chora por coisas que poderiam ter te completado… vida doce e livre… mas o verdadeiro paraíso está no bebê que você está segurando e no homem com quem você brigou de manhã e faz amor à noite…”
O verdadeiro paraíso é você se resolver nos seus sintomas, revisitar e ressignificar seu passado, valorizar suas escolhas e conquistas e seguir amorosamente de outra forma, se perdoando e liberando sua filha para o mundo e para a vida (vivendo e deixando viver), tendo sucesso em transmitir para ela que existe prazer e desejo para além da dor. Pense nisso e descubra o amor da sua filha e, de tabela, também do parceiro que está ao seu lado.
Boa sorte na sua missão de amar sua filha como ela é e de permitir que ela não repita a sua posição de exclusão e falta, libertando-a do conflito de geração que você causou.




