A Coluna Divã, apresentada pelo psicanalista Lamartine Guedes, oferece um espaço de escuta atenta e acolhedora em meio à correria das notícias e do cotidiano. Nesse ambiente, conflitos familiares, impasses afetivos e questões pessoais são refletidos sob a perspectiva da psicanálise, sempre com absoluto cuidado na preservação da identidade de quem compartilha sua história.
Os textos publicados têm origem nos relatos enviados pelos próprios leitores. De forma confidencial, essas experiências são transformadas em análises que dialogam com vivências comuns, contribuindo para a compreensão de sentimentos e situações que fazem parte da vida de muitas pessoas.
Para participar, você pode enviar seu relato para contato@boletimbrio.com ou entrar em contato pelo Instagram @boletimbrio.
Relato enviado por uma leitora anônima
Conheci um cara mais velho e, de início, tudo parecia leve. A gente já saiu algumas vezes, ele já dormiu lá em casa, eu na dele, já dividiu almoço de domingo comigo, já me levou para encontrar gente próxima dele. Quando está comigo, é atencioso, faz graça, repara nas coisas pequenas e me trata como se eu fosse importante.
Mas, quando cada um volta para a própria rotina, parece que eu viro alguém distante. Ele quase não manda mensagem, não pergunta como foi meu dia, não mantém conversa. Some, depois volta com naturalidade. E eu fico sem saber se isso é só o jeito dele ou se sou eu quem sou carente. Tipo, é alguma diferença de geração nessa forma de se relacionar e a minha é mais urgente?
O que mais mexe comigo é essa sensação de ter intimidade sem saber se é real mesmo ou só fantasia da minha cabeça. Fico com medo de estar aceitando menos do que preciso só porque, em alguns momentos, parece muito bom.

Análise do psicanalista Lamartine Guedes:
A lenda da princesa presa no castelo, vigiada por um dragão, onde um cavaleiro viria para salvá-la, é um mito popular originário da Europa e perpassa todo o mundo ocidental, inclusive aqui no Brasil. Quem não lembra do mito de São Jorge, que teve como tarefa libertar uma princesa dada em oferenda a um dragão. Estes mitos falam sobre a questão da individualidade feminina, da repressão sexual e do medo do desabrochar da sexualidade para a vida adulta patriarcal e opressora. Nestes mitos, vemos desfilar todas as metáforas do desabrochar da sexualidade feminina e as agruras que a mulher passa num mundo machista e patriarcalista. Assim, começo a análise do seu caso clínico dizendo que nele há uma analogia com a lenda da princesa presa no castelo e o seu dragão. A semelhança é tanta que chamarei você, leitora desta coluna, de princesa… ok?
Ao dissecarmos metaforicamente os elementos da lenda, vemos os seguintes pontos de representação: o castelo como representando o ego rígido das pessoas que prendem a princesa (pai e/ou namorado); a princesa seria a questão da intuição, da sexualidade, da aparência e a questão do desabrochar e do despertar da sexualidade; e o dragão, representando as fantasias, o medo, o recalque, a repressão dos conteúdos mais recolhidos da princesa (seus sintomas). Estes pontos vividos pela princesa: leitora e do conto de fadas, mostram a realidade sexual do feminino no meio patriarcal e o medo desta de viver a sua sexualidade sem o apoio de um homem idealizado.
A criação patriarcal machista da mulher faz com que ela desenvolva traços histéricos de base na formação de sua subjetividade. Por ter tido criação rígida, ela apresenta em sua constituição psíquica fortes traços de desamparo, que a levam, na sua fase adulta, a desenvolver fantasias como: horror à indiferença afetiva, a escolha de um só objeto de amor, a escolha de um homem substituto do pai, a fantasia de exclusividade monogâmica, o estabelecimento de um homem como validador da sua condição de ser sujeito, mais grave, de ser mulher. Este fenômeno psíquico de origem infantil é tão marcante que o machismo tem seu trunfo nele, pois é o homem que a valida. Pasmem, a mulher cria a fantasia de que só é boa, ou só é mulher de verdade, se um homem que ela mesma escolheu a deseje e a valide.

Voltando especificamente ao seu caso, princesa, o interessante é responder à sua questão central: por que você sonha acordada com este cavalheiro quando ele dá todos os sinais de que não vai corresponder ao seu amor platônico?
Você, no seu relato, responde a você mesma: porque você é carente e, na sua carência, você cria dragões sintomas de traços histérico que te prejudicam: os dragões da ilusão e da baixa autoestima. Estes dragões levam à desilusão e é cantado na letra de Paulinho da Viola, “A Dança da Solidão”, que diz: “…Desilusão, desilusão, dança eu, dança você, na dança da solidão”. Mais à frente, a letra diz também: “…Amélia ficou viúva, Joana se apaixonou, Maria tentou a morte por causa do seu amor…”.
Perceba, então, que você não está sozinha e que muitas mulheres se iludem ou têm tendências a terem paixões platônicas devido a uma constituição de base histérica da sua subjetividade. A histeria feminina leva as mulheres a criarem dragões de ilusões amorosas, pois elas buscam, incansavelmente, ser o objeto de desejo do Outro, onde projetam no companheiro(a) escolhido a figura do pai substituto, uma ilusão de amor perfeito/alma gêmea que a complete. Este fato resulta em cobranças por garantias amorosas, frustrações, desilusões e solidão, pois o amor que vinga, só existe na espontaneidade do encontro, e a cobrança já aponta para um possível fracasso amoroso.

Quanto a você, princesa, o que podemos perceber na sua história, que começou mal, é que o seu cavalheiro (pretendente) virou dragão (sintoma), pois ele te anula, não te quer como namorada, não quer um relacionamento com você, não te dá valor e não te percebe.
Um relacionamento que vinga é aquele em que, desde o início, as duas pessoas se mostram interessadas, e isto não aconteceu pela parte dele. Parece que seu cavaleiro não está preparado para se relacionar ou não te quer para coisas sérias, e sim como reserva do seu caderninho de ficantes, onde, de vez em quando, você é selecionada para ser a garota da vez.
Em contrapartida, você, que possui também o dragão/sintoma da autoestima baixa, fantasia o dragão/sintoma da ilusão de sonhar e acreditar que ele vai mudar, que ele vai te querer e que um dia este vai te perceber, desenvolvendo por ele um verdadeiro amor platônico. Não preciso te lembrar que isto não vai acontecer, porque, no fundo, você sabe disto.
Assim, princesa, você cai na sua própria armadilha: a de amar sem ser amada e de lutar platonicamente por um amor de causa perdida. Este fato faz com que você, que está em iminência de ser rejeitada ou descartada, fique ansiosa, fique mal e queira fazer de tudo para resgatar/refazer a união com esta pessoa que você elegeu como ideal. É neste momento que a sua autoestima pode ir para o espaço e que você seja capaz de algumas peripécias histriônicas para que isso não aconteça. Sua história, é tema frequente que vemos nas novelas/filmes: as brigas das várias mulheres pelo amor de um galã (um mocinho idealizado), onde elas o elegem como ideal e começam a disputá-lo como um troféu, a ser dado a quem desenvolver melhor a arte da sedução.
Veja leitora, você, ou qualquer mulher que tem estes sintomas (histriônicos), teve sentimento de desamparo na infância (desamor) e, na vida adulta, teme a indiferença como o diabo teme a cruz, e isto é fatal, pois o seu lance amoroso indiferente pode fazer com que você invista nele a qualquer custo e a levará a lutar e fazer qualquer negócio para ser validada por ele e garantir que você seja o foco de atenção e do desejo dele. Esta qualquer coisa, diga-se de passagem, tem relação a jogar fora a autoestima e “suportar” iludir-se com um companheiro, virando facilmente objeto de controle e de abuso de homens machistas e mal-intencionados.

Voltando ao início desta análise textual, você está caindo na sua própria armadilha de se trancar na torre e criar dragões de ilusões e de desvalor, que não te deixa ver que este seu escolhido não te valoriza e não te escolheu para relacionamento. Cuide-se para que seus traços histéricos em busca de validação não te ceguem e você se deixe usar como objeto. Este comportamento sintomático, rigidamente neurótico, significa dizer que você e boa parte das mulheres aceita mais do que deveria abusos e que vocês mulheres têm dificuldade de mudar de objetos amorosos.
Assim, princesa, trabalhe este lado frágil/carente, busque fortalecer a autoestima, procure sair da torre e das dificuldades/imaturidades sexuais que sua criação patriarcal causou em você; talvez, uma análise, neste momento, te ajudaria a quebrar as amarras que o excesso de tabu e repressão fizeram em você.
Matar o dragão, sair da torre e buscar um príncipe que te valorize é a tarefa que só você pode fazer e só acontecerá quando você resgatar sua autoestima e puder dizer não a inícios de relacionamentos onde o outro não te valoriza. Procure se relacionar com alguém que desde o começo demonstre interesse em você, lembre-se: o que começa mal, cedo ou tarde, termina mal.

Amor verdadeiro só acontece se a pessoa desiste das suas fantasias de conto de fadas, de idealizar, lutar, controlar e tentar salvar um homem que não te valoriza, de achar que você pode fazer o impossível se tornar possível, que é a fantasia de achar que conquistará o amor de quem não olha para você.
Na música de Paulinho da Viola, ele dá a dica: “…e, apesar de tudo, existe uma fonte de água pura. Quem beber daquela água não terá mais amargura”.
A fonte de água pura é a coragem de desistir dos seus sintomas infantis, matar Dragões e buscar amor verdadeiro que só virá se você se despir da sua fantasia de conto de fadas de princesa presa na torre vigiada pelos dragões da ilusão e da auto estima baixa. Explicando melhor, este amor verdadeiro só vira se você se valorizar, cair na real, recobrar sua autoestima, matar suas fantasias/dragões de desvalor, que te impossibilitam buscar um amor real, saindo do castelo de dor que você mesma se colocou.
Boa sorte na sua tarefa de deixar de ser princesa e virar mulher domadora de dragões….




1 comentário
Nadja Melo
Perfeita a análise, me encontrei em alguns momentos dos trechos acima 👏👏👏👏vou me viciar kkkkk ainda bem q será um bom vício