No Piauí, a 650 quilômetros da capital Teresina, reside Guaribas, um nome que está na memória nacional como o berço do programa Fome Zero em 2003. Longe dos grandes centros, essa cidade, que um dia representou as mais duras dificuldades históricas do sertão brasileiro, hoje se projeta no cenário global pela riqueza de suas histórias e pela força das vozes de “meninas”. É nesse solo fértil que o premiado documentário “A Fabulosa Máquina do Tempo” foi gravado, levando o Piauí para o mundo e redefinindo narrativas.
Foram seis prêmios em dois festivais brasileiros na última semana. O filme também estará na programação do Festival Internacional de Cinema de Shanghai, na China. Os prêmios conquistados por “A Fabulosa Máquina do Tempo” são a concretização de que as histórias vividas no Piauí têm um valor inestimável. Eles não são meros reconhecimentos a diretores e produtores talentosos; são o triunfo do próprio Piauí, que se vê projetado no cenário global, com sua identidade e sua gente.
O filme, dirigido por Eliza Capai, é um mergulho no cotidiano de meninas entre 7 e 12 anos, cujas percepções sobre casamento, relações de gênero, amizade, sonhos e as descobertas da infância se tornam um espelho para as grandes discussões do nosso tempo. Há a intenção de extrair, da autenticidade dessas vivências, a complexidade e a beleza do Brasil profundo. A riqueza cultural, a multiplicidade da língua e a singularidade regional do Piauí manifestam-se em cada cena, permitindo que o piauiense se reconheça na tela e que o mundo compreenda a universalidade de suas histórias.
A importância de investimentos em arte e cultura se revela nessa capacidade de amplificar vozes. É dar palco a meninas do interior, a populações que, por vezes, são invisibilizadas pela distância, pela condição socioeconômica ou pelo gênero. É um investimento que transcende o financeiro, alcançando a autoestima e a representatividade. Quando essas histórias são contadas, quando o Brasil que existe longe dos holofotes é retratado, celebramos a diversidade, mas também nos permitimos um olhar atento para o nosso próprio potencial, para a força que reside em cada canto do país.
A arte, mais uma vez, se mostra uma necessidade irrefreável, um veículo poderoso para que nossas histórias, ricas em humanidade e significado, sejam finalmente contadas, celebradas e inspirem o mundo.


