Por Clara Pimentel com edição de Paula Sampaio
“A ideia não era ter um hype, porque hype não vai pagar o boleto da cerveja que chega, não vai pagar o da energia. Para a gente, (o Seu Javas) não ficou viável financeiramente”.
A fala é do arquiteto e empresário Fábio Neri, um dos sócios do Seu Javas Bar, empreendimento que recentemente encerrou as atividades no Centro de Teresina. O fechamento deixou um espaço vazio, especialmente na noite dos teresinenses da geração Z e chamou atenção pelo contraste. Durante meses, o bar se tornou um dos principais pontos de encontro da noite na capital, ajudando a movimentar a região central da cidade. Não era incomum ver, em redes sociais como Instagram e TikTok, selfies e fotos de amigos perto da placa do bar com uma multidão de pessoas logo atrás.
Segundo Fábio Nery, no entanto, o sucesso de público não significou sustentabilidade financeira. Em entrevista ao Boletim Brio, ele explicou que o movimento intenso não foi suficiente para cobrir os custos crescentes da operação de um bar noturno. “O que aconteceu foi o que não aconteceu”, resumiu.

O fechamento do Seu Javas Bar: Por que?
De acordo com ele, diante da alta demanda, os sócios chegaram a abrir um segundo ponto, na esquina, para dar suporte ao funcionamento. Entre outras despesas, ele citou a necessidade de construir um banheiro, o aumento dos gastos com segurança e toda a estrutura necessária para manter um bar funcionando em um espaço aberto.
Outro fator apontado por Fábio foi a presença de vendedores ambulantes nas proximidades do estabelecimento. Segundo ele, embora o Seu Javas estivesse sempre cheio, parte do público consumia bebidas compradas no comércio informal.

Na prática, o bar se transformou em um ponto de encontro da cidade. As pessoas frequentavam o espaço, registravam a presença nas redes sociais e faziam do Seu Javas um dos símbolos de status da vida noturna do Centro de Teresina. Entretanto, segundo o empresário, parte do consumo acabava sendo realizada junto aos ambulantes instalados nas imediações.
O arquiteto explicou que um estabelecimento formal precisa arcar com uma série de obrigações, como pagamento de impostos, funcionários, fornecedores, energia elétrica e demais custos operacionais. Já a dinâmica do comércio ambulante, segundo ele, é diferente, o que tornava impossível competir nos preços.
“Não tem como bater de frente o preço deles com o meu, sendo que eu tenho que pagar imposto, funcionários e toda a estrutura”, afirmou.
Os desafios de um bar aberto noturno em Teresina “Recebi ameaça de morte”
Além das dificuldades financeiras, o empresário relata que o próprio funcionamento de um bar durante a madrugada trouxe situações de desgaste. Segundo ele, houve episódios envolvendo pessoas alcoolizadas e até ameaças de morte sofridas por integrantes da equipe, o que também pesou na decisão de encerrar as atividades.
Ele pontuou que os sócios chegaram a estudar a possibilidade de transformar o Seu Javas em um bar convencional, instalado em um imóvel fechado. Modelo semelhante a fórmula da Casa Barro, que também funciona no Centro da cidade. A ideia, entretanto, foi descartada diante do alto investimento necessário e dos prejuízos acumulados pela operação anterior. Atualmente, o grupo concentra esforços em outro empreendimento, a hamburgueria O Javali, que fica localizada próxima do antigo empreendimento Seu Javas.

Outro lado ambulantes evitam assunto, mas também apontam dificuldades
O Boletim Brio entrou em contato com representantes ligados a associação da categoria dos ambulantes no Piauí. O representante ouvido preferiu não comentar sobre o assunto e também pediu para não ter o seu nome citado na coluna.
Ele afirmou, contudo, que os vendedores ambulantes também enfrentam dificuldades para exercer a atividade, como o pagamento de taxas e outras despesas. Também relatou que, em alguns locais da cidade, seguranças contratados por bares e restaurantes acabam restringindo ou dificultando a permanência dos ambulantes nas proximidades dos estabelecimentos.

O que torna um estabelecimento atrativo no Centro de Teresina?
Rodrigo Santos, responsável pelo perfil “NoCentro Them” no Instagram, que compartilha e divulga atrações gastronômicas, de lazer, cultura e turismo na capital do Piauí, afirmou há dois pilares que ajudam a explicar a dinâmica do consumo no Centro durante a noite. O primeiro, segundo ele, é a deficiência do transporte público em Teresina. Embora avalie que a sensação de segurança na região tenha melhorado, destacou que muitas pessoas deixam de frequentar o Centro simplesmente por não terem como chegar ao local no período noturno.
“A segurança já melhorou bastante, mas ainda estamos em um processo de reapropriação das pessoas para com o centro. O acesso aos transportes não é em conta para a maioria, e tem a questão da atratividade: as pessoas não querem apenas ir a um local tomar uma cerveja, elas querem experiências autênticas, que se conectem à cultura, à história e à memória daquele local. Se o estabelecimento não estiver disposto a ter essa visão, vai ser só mais um local”, descreveu.

O Seu Javas Bar pode retornar?
O Boletim Brio também buscou apurar se existe a possibilidade de o Seu Javas voltar em um novo formato, em outro endereço ou com uma proposta diferente, diante da força que a marca conquistou junto ao público. No entanto, segundo foi apurado, não há, neste momento, qualquer perspectiva de retomada. O foco está no braço do negócio que envolve a hamburgueria “O Javali”
Mais do que contar a história do fechamento do Seu Javas e a ausência que o bar deixa na vida noturna do Centro, as falas reunidas durante a apuração ajudam a ilustrar os desafios que, muitas vezes, passam despercebidos pelo público. São dificuldades enfrentadas por empreendedores e empresários, de diferentes portes, para manter seus negócios funcionando em um cenário de altos custos e obstáculos estruturais e culturais da própria cidade.


